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244 bilhões de dólares por ano: o tabagismo é, secretamente, a indústria mais importante da China

O governo depende financeiramente de que milhões de pessoas continuem comprando cigarros todos os dias

Cigarros
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

2012 publicaciones de Victor Bianchin

Quando se fala da economia chinesa, a conversa costuma girar em torno de carros elétricos, painéis solares, baterias e minérios de terras raras. No entanto, um dos pilares financeiros mais importantes do Estado chinês continua sendo muito mais antigo, menos glamuroso e muito mais lucrativo: o tabaco. O New York Times reportou esta semana que a China consome cerca de metade de todos os cigarros do planeta e vende aproximadamente 2,4 trilhões de unidades por ano, um número tão gigantesco que transforma o país em uma anomalia mundial.

Enquanto grande parte do mundo reduz lentamente o consumo de tabaco, a China segue na direção contrária. E não se trata apenas de uma questão cultural ou sanitária. Por trás disso existe uma imensa engrenagem econômica e política: o monopólio estatal do tabaco gera cerca de 244 bilhões de dólares anuais em lucros e impostos, uma quantia equivalente a aproximadamente 7% de toda a arrecadação do governo central chinês e comparável ao orçamento oficial de defesa do país.

A situação se torna ainda mais chamativa porque Xi Jinping parou de fumar há anos e, segundo o NYT, chegou a descrever o tabagismo como um problema grave para a China em conversas privadas com algumas pessoas presentes. Além disso, durante seus primeiros anos no poder, pareceu existir certa vontade política de endurecer as restrições; chegou-se inclusive a proibir que funcionários fumassem durante eventos oficiais e Pequim adotou limitações em ambientes fechados. Além disso, em 2015, os impostos sobre o tabaco foram elevados.

Até mesmo Peng Liyuan, a primeira-dama chinesa, participou publicamente de campanhas antitabagismo ao lado de Bill Gates. Mas o impulso rapidamente perdeu força. O motivo parece evidente: o Estado chinês depende demais do dinheiro dos cigarros. O mesmo governo que promove indústrias futuristas e fala constantemente em modernização tecnológica continua financiando parte de sua estabilidade graças a milhões de pessoas fumando maços baratos de três dólares.

Cigarr

O coração de todo o sistema é a State Tobacco Monopoly Administration, uma estrutura extraordinária até mesmo para os padrões chineses, porque regula o setor e ao mesmo tempo controla a empresa dominante que fabrica praticamente todos os cigarros do país. Ou seja, o regulador e o negócio são a mesma coisa. Seu poder econômico se traduz em influência política direta.

Os chefes do órgão têm status equivalente ao de vice-ministro e várias pesquisas acadêmicas chinesas apontam abertamente que o monopólio bloqueia ou dilui iniciativas sanitárias importantes. O exemplo mais claro surgiu por volta de 2017, quando foi barrada uma tentativa de implementar uma proibição nacional do fumo em ambientes fechados, transferindo a responsabilidade para governos locais, onde as restrições costumam ser fracas ou mal aplicadas.

Financiando muito mais do que tabaco

O mais revelador é que o dinheiro do tabaco já não sustenta apenas orçamentos locais, mas também algumas das grandes prioridades estratégicas de Xi Jinping. O monopólio investiu mais de 1 bilhão de dólares para reforçar o sistema financeiro chinês e também participou do gigantesco fundo nacional de semicondutores, avaliado em cerca de 100 bilhões de dólares.

Na prática, parte da aposta chinesa em chips, alta tecnologia e independência industrial está sendo financiada graças aos fumantes. Em províncias produtoras como Yunnan, os impostos sobre o tabaco representam mais da metade do orçamento municipal. Isso explica por que tantos governos locais resistem até mesmo a medidas moderadas contra o tabagismo: restringir o consumo significa abrir enormes rombos em finanças já enfraquecidas pela crise imobiliária e pela desaceleração econômica.

O caso chinês também vai no sentido oposto de várias tendências globais. Enquanto, em muitos países, o vape reduziu parte do consumo tradicional, na China o governo endureceu rapidamente as normas sobre cigarros eletrônicos e limitou sabores e pontos de venda, evitando que os vapes corroessem demais o negócio clássico. Também não existem advertências sanitárias agressivas como no Ocidente: os maços chineses continuam exibindo símbolos nacionais e mensagens discretas em vez de imagens impactantes sobre doenças.

Embora a taxa de fumantes tenha caído ligeiramente porque menos jovens estão aderindo ao hábito, o volume total de vendas continua crescendo. Em parte porque a China ainda possui centenas de milhões de fumantes e, em parte, porque o tabaco também funciona como válvula social em um contexto de crescente pressão econômica.

O resultado é uma situação profundamente contraditória. A China reconhece oficialmente que o tabaco é um gigantesco problema sanitário e mantém metas públicas para reduzir o número de fumantes, mas, ao mesmo tempo, depende financeiramente de que milhões de pessoas continuem comprando cigarros todos os dias. O próprio sistema político chinês criou um incentivo perverso em que combater de fato o tabagismo implicaria em prejudicar uma fonte de arrecadação fundamental para governos locais, bancos, investimentos estratégicos e até parte do projeto tecnológico nacional.

Por isso, o grande negócio oculto da China não está apenas nas fábricas de baterias ou nas terras raras que dominam as manchetes internacionais. Ele também está em um monopólio estatal que vende quase metade dos cigarros do planeta e cuja arrecadação ajuda a sustentar boa parte de todo o resto.

Imagem | SoQ錫濛譙, Steve Evans

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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