Um estudo publicado na revista Scientific Reports revelou que um parque solar gigantesco instalado no deserto da China está provocando uma transformação ecológica totalmente inesperada. A pesquisa analisou o impacto ambiental da usina fotovoltaica de 1 GW no Parque de Gonghe, na província de Qinghai, e constatou que os painéis solares estão modificando o solo, a umidade e o microclima local.
O projeto faz parte da estratégia chinesa de expandir energia renovável em regiões desérticas, especialmente no norte e oeste do país. Porém, o que eles não esperavam é que, o que era para ser apenas geração de eletricidade, fosse ter um efeito colateral muito positivo, com mudanças significativas na biodiversidade do deserto.
Sombra, umidade e solo mais saudável: entenda como os painéis mudaram o deserto
Onde antes havia apenas areia, agora há vegetação, evidenciando a recuperação ambiental impulsionada pela sombra e pela retenção de umidade. Créditos: AP/Ng Han Guan
Para entender o impacto real da instalação, pesquisadores aplicaram a estrutura DPSIR (Força Motriz–Pressão–Estado–Impacto–Resposta), um modelo usado para avaliar mudanças ecológicas complexas no ambiente. Ao todo, foram analisados 57 indicadores, incluindo qualidade do solo, temperatura, retenção de umidade e presença de vegetação.
Os resultados mostraram algo inesperado. As áreas localizadas diretamente sob os painéis solares apresentaram melhores condições ecológicas do que as regiões de deserto aberto. Segundo os pesquisadores, esse resultado pode ter ocorrido devido à sombra constante, que reduz a evaporação, diminui a temperatura do solo e cria um microambiente mais favorável ao crescimento de plantas resistentes ao clima seco..
É como se os painéis funcionassem como um guarda-sol de praia, só que artificiais. Afinal, eles não apenas geram energia, mas criam uma camada de proteção que altera o balanço hídrico e térmico da superfície. O índice ambiental calculado pelo estudo mostrou que a área sob os painéis teve desempenho superior às zonas de transição e às áreas não impactadas pela instalação.
China instala painéis para conter o deserto, mas acaba transformando o ecossistema
A instalação em Gonghe não é um caso isolado no país. A China vem instalando grandes projetos solares em regiões desérticas como parte de sua política de combate à desertificação, integrada ao programa “Três Nortes”, iniciado em 1978. Além de gerar energia limpa, essas estruturas ajudam a conter a movimentação de areia e reduzem a degradação do solo, um bônus ambiental extremamente vantajoso.
O que o novo estudo sugere é que o impacto pode ir além do controle do avanço do deserto. Ao favorecer o crescimento de vegetação e melhorar indicadores ambientais locais, os parques solares podem ajudar na recuperação ecológica. Além disso, há uma característica curiosa que demonstra que essa transformação já está acontecendo: sob os painéis, onde antes havia apenas areia e poeira, hoje cresce vegetação suficiente para alimentar rebanhos. Na região, milhares de ovelhas, apelidadas de “ovelhas fotovoltaicas”, pastam entre as fileiras dos painéis solares, aproveitando a grama que se desenvolveu graças à sombra e à retenção de umidade.
Ainda assim, os pesquisadores alertam que o monitoramento de longo prazo é essencial. Isso porque nem todos os desertos reagem da mesma forma, e os efeitos sobre ciclos de água e clima regional precisam ser acompanhados.
A seguir, confira um vídeo que mostra como os painéis solares estão revitalizando o deserto de Qinghai:
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