Jogos “cozy” iriam nos salvar do estresse e da produtividade, mas acabaram se tornando verdadeiros escravizadores do lazer

Jogos como 'Animal Crossing' não são imunes a estresse ou obsessão pela produtividade: simplesmente o disfarçam com uma interface fofa

Imagem | Tiny Bookshop
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PH Mota

Redator
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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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A promessa de relaxar e esvaziar a mente por algumas horas é o que nos atrai nos jogos aconchegantes, ou jogos ‘cozy’: aqueles que nos cercam de animais fofos, nos acalmam com uma paleta visual reconfortante e nos propõem tarefas repetitivas e amigáveis ​​que nos fazem fugir do estresse. Tudo parece muito bucólico: você herda uma fazenda, plantas, flores, decora cômodos ou cria móveis dos sonhos, com a promessa de escapar por algumas horas da rotina diária.

No entanto, esse tipo de refúgio digital se tornou a materialização daquilo de que você queria fugir: um segundo Google Agenda cheio de reuniões, um clone do seu trabalho das 9h às 17h. E 'Tiny Bookshop' reafirma isso.

Lançado neste verão, 'Tiny Bookshop' rapidamente se tornou um sucesso dentro da concorrida categoria de jogos cozy. A premissa é clara: você chega a uma cidadezinha charmosa com seu novo projeto de livraria móvel, que pode decorar com centenas de possibilidades. Através do seu relacionamento com os vizinhos, consegue vender e recomendar um grande número de livros e, por sua vez, descobrir os segredos da cidade.

Toda essa premissa inicial é mais do que impactante para os fãs do gênero. Depois de mais horas do que gostaria de admitir, percebi que havia caído novamente na armadilha dos jogos aconchegantes: dedicar horas e horas a uma tarefa. Por trás da adorável ideia de poder pintar tudo em tons pastel ou recomendar "Jane Eyre" aos clientes, no final das contas você percebe que passou um bom tempo procurando objetos para aumentar as vendas, conferindo o horário de funcionamento do dia seguinte e se lembrando de repor as prateleiras com os produtos certos.

Você pode chamar isso de aconchegante, mas eu chamo de simular mais um dia de trabalho; e o pior, de gostar disso.

Recomende todos os tipos de livros na "Tiny Bookshop" Recomende todos os tipos de livros na "Tiny Bookshop"

No início da década de 2010, uma tendência chamada "gamificação do trabalho" tornou-se bastante popular, patrocinada por gurus do Vale do Silício. Através de mecânicas de videogames ou jogos de tabuleiro, missões, pontos ou recompensas foram adicionados às tarefas monótonas do dia a dia. Vale a pena perguntar se os jogos aconchegantes seguiram o caminho inverso, "tropeçando" nos videogames.

É verdade que, como costuma acontecer com esses jogos, é fácil se divertir e mergulhar completamente na história. As interações são adoráveis, os personagens são carinhosos e têm aquele ar de "filme da tarde" que os torna irresistíveis; mas, no fim das contas, não podemos ignorar que estamos replicando tarefas das quais deveríamos fugir, como passar horas e horas trabalhando. Tudo depende do tipo de jogador que você é e de como você lida com os objetivos do jogo, mas jogos aconchegantes raramente têm a ver com algo confortável ou acolhedor.

Chegamos a romantizar até mesmo o pagamento de hipoteca

Não estamos falando de algo pontual que acontece com este novo lançamento; completar ou realizar as tarefas diárias desse estilo de jogo pode ser a coisa menos relaxante que existe. No ápice do gênero aconchegante, 'Stardew Valley', o dia não vai além de ordenhar as vacas, coletar os ovos, fazer geleia e ir à mina buscar itens. Além disso, como se fosse sua própria vida real, depois de todas essas tarefas, você precisa manter uma boa aparência e interagir com os vizinhos.

Algo semelhante acontece com outro grande nome da categoria, como 'Animal Crossing': você precisa dar objetos aos seus companheiros de ilha, cortar árvores, plantar flores, pescar e ficar atento ao dia em que o personagem responsável por comprar sua coleção chega, para conseguir dinheiro e pagar a hipoteca de uma bela casa – mas Tom Nook não perdoa atrasos. Depois de tudo isso, seria interessante verificar a frequência cardíaca dos jogadores quando seus personagens vão dormir após concluir todas essas tarefas.

Cozy

Com a popularização e o aumento significativo nas vendas desde o auge durante a pandemia, inúmeros jogos adotam o rótulo de "aconchegante" para conquistar o público, mesmo quando suas dinâmicas estão longe do que caracteriza o gênero. Vale a pena questionar se, dentro desse rótulo, os maiores expoentes não seriam jogos como 'Abzu' ou 'Unpacking', onde o "você não precisa fazer nada" é levado ao pé da letra e os objetivos não têm limite de tempo. O contemplativo e o mecânico são essenciais nesses exemplos, honrando a parte "aconchegante" do refúgio mental com paz, serenidade e tarefas que se repetem.

Na verdade, existe até metacrítica dentro desse universo. 'Wanderstop', um simulador de casa de chá criado pela mente visionária por trás de 'The Stanley Parable', Davey Wreden, ironiza esse fato com um personagem que te convida a atender os pedidos dos clientes quando você se sentir bem, sem pressa, porque a última coisa que o protagonista precisa é de mais pressão. É curioso que a maioria dos jogos aconchegantes abordem saúde mental ou ansiedade, mas que alguns tenham mecânicas alinhadas a esses temas, enquanto outros oferecem sensações radicalmente opostas às que buscam criar no jogador.

A perversão da linguagem, ou o uso excessivo de um rótulo como "aconchegante" para vender mais cópias, acaba produzindo uma realidade muito concreta: algo está errado quando a primeira coisa que vem à mente ao falarmos desses jogos reconfortantes é cuidar de uma fazenda ou de um supermercado, regar as chirívias da fazenda ou pagar pela ampliação da casa.

Produtividade como lazer

Além da mecânica e da qualidade de cada um desses jogos, o vício e o fanatismo que eles geram em nós apenas nos colocam diante do espelho e expõem a realidade do nosso dia a dia: até mesmo no lazer queremos ser produtivos, subordinando o descanso a um esquema de metas e resultados.

Com jogos aconchegantes, alcançamos essa sensação terapêutica e de bem-estar graças ao fato de que essa busca por produtividade, com sua estética adorável e música ambiente, não acarreta consequências negativas. Assim, nos vemos jogando 'Stardew Valley' ou 'Tiny Bookshop', vítimas de um capitalismo fofo que chega até mesmo ao emocional; nesses jogos, você trabalha, investe e decora, não apenas por dinheiro, mas também pela afeição dos outros.

Portanto, o foco do seu sucesso pode não estar na tarefa em si, mas no que ela nos faz sentir; não podemos negar o apelo de realizar uma tarefa sem pressão e sem prazos, ou de interações amigáveis ​​onde não há chefes ou relações tóxicas. Além disso, pode ser que, para além do uso compulsivo de tarefas associadas a um trabalho comum, o problema esteja em nós, os jogadores. Ninguém me obrigou a progredir mais rápido em 'Tiny Bookshop', e mesmo assim me vi procurando um guia na internet para concluir uma missão de forma mais ágil.

Parece, portanto, que a sensação de "não estou chegando lá" também chegou ao lazer, e nossos hobbies parecem exigir um grande investimento de tempo. É muito difícil acompanhar as tendências, filtrar notícias falsas, ler as notícias virais e ainda assistir à nova temporada da série de moda. Assim, talvez, também em nosso tempo livre, nos deixemos levar por essa falsa sensação de descanso que mais um dia de trabalho virtual nos proporciona.

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