Esta locomotiva com rodas de caminhão não é um sonho distópico; é bem real. Em plena Guerra Fria, a Alemanha precisava de um veículo capaz de testar a tecnologia do Leopard II, que se tornaria o tanque mais letal da Europa Ocidental.
Para isso, criaram o Lauster MF60, uma fera capaz de rebocar um tanque Leopard em marcha à ré.
Lauster MF60, a fera oculta da Guerra Fria
A Guerra Fria impulsionou a Alemanha Ocidental a uma corrida incessante por mais. Sempre mais armamento, sempre veículos mais potentes, pesados e rápidos. Cada nova geração de tanques aumentava em peso e complexidade, e essa tendência representava um problema: validar o sistema de rodagem e os motores antes mesmo da existência do tanque final. Era necessário um veículo de teste capaz de suportar cargas de tal magnitude que nenhum outro no mercado conseguia.
O tanque Leopard 1 entrou em serviço em 1965. Dez anos depois, seu sucessor já estava sendo desenvolvido, pesando uma dúzia de toneladas a mais e enfrentando exigências sem precedentes em termos de tração e frenagem na indústria alemã. Simular essas restrições — inclinações íngremes, forças de tração extremas, regimes de carga variáveis — sem utilizar os poucos protótipos do futuro Leopard 2 tornou-se uma necessidade.
Métodos tradicionais, como protótipos instrumentados ou bancadas de teste fixas em laboratório, mostraram-se inadequados diante de massas e forças tão enormes. Uma bancada de teste móvel, capaz de rodar em condições reais, tanto em estradas pavimentadas quanto em terrenos acidentados, enquanto registra dados, ofereceu uma alternativa muito mais próxima das condições operacionais reais.
Seguindo essa lógica, a Bundeswehr recorreu à Lauster, uma empresa alemã fundada por Erhard Lauster e conhecida por seus grandes veículos todo-terreno, famosos por seus eixos de tambor, um projeto que remonta à década de 1940. Em meados da década de 1970, a empresa entregou um protótipo designado MF60, abreviação de Messfahrzeug (veículo de medição), um nome que prenunciava seu propósito desde o início.
O resultado lembrava mais um caminhão rodoviário do que um veículo militar convencional. Medindo 15,5 metros de comprimento, 3,6 metros de largura e 4,5 metros de altura, esse gigante pesava aproximadamente 80 toneladas. Um Leopard 2 padrão, para comparação, pesa pouco mais da metade disso.
O motor era tão impressionante quanto suas dimensões. Dois motores a diesel MTU (Maybach) MB838 Ca-M500 V10 superalimentados, idênticos aos do Leopard, alimentavam cada um um gerador de 600 kVA (480 kW).
A eletricidade produzida alimentava quatro motores elétricos de 240 kW (326 hp), um por eixo, para uma potência combinada de 1.850 hp. O veículo possuía direção nas oito rodas e dois assentos para o motorista, um em cada extremidade. Isso permitia que a "locomotiva de asfalto" fosse conduzida em qualquer direção sem precisar dar meia-volta.
Seu amplo volume interno permitia o transporte de um número incomum de instrumentos de medição e equipamentos técnicos. Acima de tudo, seu sistema híbrido de propulsão e frenagem possibilitava a simulação de inclinações, cargas e forças de tração em condições controladas (em uma base remota, por exemplo), evitando assim a necessidade de múltiplos testes em diferentes tipos de terreno. Era capaz de simular forças de reboque e frenagem de até 600 kN (quilonewtons) em uma faixa de velocidade contínua de 0 a 70 km/h.
O MF60 serviu como plataforma de avaliação para diversos programas de equipamentos pesados da Bundeswehr durante esse período, complementando os cálculos teóricos dos escritórios de projeto em relação ao sistema de rodagem do futuro Leopard 2.
O MF60 sempre foi um modelo único. Ao contrário do Lauster FM de 1969 — o precursor deste enorme laboratório —, agora abrigado no Museu da Tecnologia em Sinsheim, o paradeiro exato do MF60 permanece incerto após sua recuperação pelo exército alemão.
Imagens | Volkswagen, Motorpasión
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