A seca está custando à França um de seus maiores símbolos gastronômicos: os queijos com Denominação de Origem Protegida (DOP)

Escassez de forragem devido à falta de chuva levou o país a flexibilizar normas de pastoreio

Imagens | Eric Prouzet (Unsplash) e Richard Hedrick (Unsplash)
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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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A seca e as ondas de calor que assolam a França nos últimos meses tiveram uma consequência inesperada: estão forçando o país a repensar a produção de seus queijos mais populares. A lógica é simples: menos chuva significa menos forragem, prados amarelados e menos pasto para alimentar o gado. Para mitigar esse problema, as autoridades decidiram adotar uma abordagem mais flexível e flexibilizar as rígidas normas que os produtores de queijos com Denominação de Origem Protegida (DOP), como o Beaufort e o Comté, devem seguir.

A grande questão é se isso afetará a qualidade desses queijos.

Analisando os regulamentos

Assim como outros países, a França protege seus alimentos e bebidas mais prestigiados com Denominações de Origem Protegida (DOP), certificações que garantem que vinhos, queijos, sidras, carnes ou qualquer outro produto comercializado com esses nomes populares (como o vinho de Bordeaux) atendam a determinados requisitos de qualidade.

Quando falamos de queijos como Comté, Beaufort, Abondance ou Rocamadour, o selo DOP certifica que os artesãos os produziram seguindo rigorosos regulamentos de pastoreio que regem como e onde o gado é alimentado. Por exemplo, no caso do Abondance, o regulamento estipula que, no verão, pelo menos 50% da alimentação deve vir de pastagens da região. O problema é... como atingir essa porcentagem quando a onda de calor e a seca deixaram os campos sem forragem suficiente?

gADO

Situação crítica

A seca atingiu os pecuaristas franceses com tanta força que as autoridades não tiveram outra opção senão rever os requisitos para os produtores de queijos com Denominação de Origem Protegida (DOP).

O Instituto Nacional de Origem e Qualidade (INAO) publicou recentemente uma instrução com algumas "modificações temporárias" que, essencialmente, flexibilizam os requisitos das DOPs. "A França enfrenta uma seca histórica, uma situação crítica que pode dificultar o cumprimento de certos requisitos de produção abrangidos pelas DOPs", argumenta a agência francesa, que vem implementando diversas atualizações nas DOPs no Diário Oficial da República.

No caso específico dos queijos, o INAO flexibilizou as normas de pastoreio para algumas das DOPs mais famosas da França: Abondance, Beaufort, Vercors-Sassenage, Comté e Rocamadour. Pode parecer um detalhe menor, mas as mudanças afetam o dia a dia das fazendas. Por exemplo, as vacas não precisarão mais se alimentar exclusivamente de pastagens dos Alpes e das Montanhas Jura; sua dieta agora poderá ser complementada com mais forragem e grãos de outras regiões.

"É uma questão de bom senso"

Para o presidente da SIFA, um grupo de produtores do Vale de Abondance, as mudanças nas normas de pastoreio representam "uma decisão sábia e sensata" diante da "alarmante situação de seca". De fato, veículos de comunicação como a BBC sugerem que as autoridades poderiam aplicar mudanças semelhantes aos produtores de outros queijos, como Cantal, Bleu d'Auvergene, Fourme d'Ambert, Bleu du Vercors-Sassenage e Reblonchon.

A verdade é que esta não é a primeira vez que a indústria queijeira francesa é obrigada a repensar suas práticas devido à seca: isso aconteceu em 2022, quando os agricultores tiveram que alimentar seu gado com feno. O motivo não foi apenas a escassez de pasto, mas também como a seca estava reduzindo a produção de leite.

A seca é realmente tão grave?

A verdade é que sim. Estima-se que, em julho, a falta de chuva afetou 95% da França continental, uma porcentagem que se traduz em hectares de pastagens secas e amareladas. Recentemente, o Ministério da Agricultura divulgou uma estatística reveladora: no início de agosto, o crescimento das pastagens era um terço menor do que a média registrada entre 1989 e 2018. De fato, a seca obrigou o governo a controlar o consumo de água em grande parte do país e até mesmo a revisar para baixo as previsões de crescimento do PIB nacional.

Imagens | Eric Prouzet (Unsplash) e Richard Hedrick (Unsplash)

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