A psicologia concorda: o real motivo comportamental por trás de uma mesa bagunçada e como a falta de organização no escritório prejudica o cérebro

O caos sobre a mesa pode estar fazendo mais do que ocupar espaço: ele também disputa a atenção do seu cérebro

Mesa De Escritorio Baguncada
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

Redatora

Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Na correria para atender a todas as demandas do dia, é natural acumular um pouco de bagunça no lugar onde passamos boa parte do tempo trabalhando: o escritório. Uma mesa cheia de papéis, objetos e tarefas pendentes pode parecer apenas reflexo de uma rotina acelerada, mas a desordem também interfere na maneira como o cérebro direciona a atenção

Pesquisas em psicologia mostram que o excesso de estímulos visuais pode aumentar a sobrecarga cognitiva e dificultar a concentração, enquanto ambientes desorganizados também podem estar associados a maiores níveis de estresse. Nesses casos, o problema começa quando o caos  passa a consumir atenção e energia mental do indivíduo.

A bagunça no ambiente de trabalho pode disputar espaço com a atenção do cérebro

Se você já jogou The Sims, provavelmente se lembra das barras que mostravam como os personagens estavam se sentindo. Fome, sono, vontade de ir ao banheiro e até conforto apareciam como necessidades que precisavam ser administradas ao longo do dia. Quando o Sim passava muito tempo em um ambiente sujo ou bagunçado, a barra de conforto também era afetada — uma associação simples no jogo, mas que encontra algum paralelo no que a psicologia observa sobre a relação entre ambiente, atenção e comportamento

A relação entre desordem e funcionamento mental começa por algo bastante simples: o cérebro precisa selecionar constantemente aquilo que merece atenção. Quando uma mesa está tomada por objetos, papéis e informações visuais, esses elementos podem funcionar como distrações que competem entre si e aumentam a quantidade de estímulos que precisam ser processados. É como tentar trabalhar enquanto várias pequenas pendências permanecem espalhadas bem na sua frente. Mesmo que nenhuma delas seja importante naquele momento, continuam fazendo parte do ambiente e podem exigir algum nível de processamento.

Essa sobrecarga também pode afetar a memória de trabalho, o sistema responsável por manter informações temporariamente disponíveis enquanto realizamos uma tarefa. Com mais estímulos disputando atenção, fica mais difícil manter o foco exclusivamente naquilo que estamos fazendo.

O efeito não fica necessariamente restrito à produtividade. Pesquisas citadas sobre ambientes domésticos e de trabalho relacionam a desordem a maiores níveis de estresse, ansiedade e dificuldades de concentração. Um estudo realizado nos Estados Unidos em 2009, por exemplo, encontrou níveis mais elevados de cortisol, o hormônio do estresse, entre mães que percebiam seus ambientes domésticos como desorganizados.

A própria reação ao ambiente pode se transformar em um ciclo. Quanto mais desorganizado fica o espaço, maior pode ser a sensação de que existe algo a ser resolvido. Ao mesmo tempo, quando a pessoa está cansada ou sobrecarregada, organizar a mesa pode parecer uma tarefa secundária diante das outras demandas. 

mesa de escritorio bagunçada Ambientes de trabalho desorganizados podem exigir mais atenção do cérebro e contribuir para a sensação de estresse e distração

Essa relação ajuda a explicar por que uma mudança repentina no padrão de organização pode ser mais relevante do que uma mesa que sempre foi bagunçada. Para algumas pessoas, deixar objetos à vista é simplesmente uma maneira prática de lembrar tarefas e acompanhar o próprio fluxo de trabalho. Para outras, a desordem pode aparecer quando a energia mental necessária para organizar o ambiente já está comprometida.

A pesquisa sobre transtorno de acumulação mostra uma relação ainda mais específica entre objetos, decisões e atividade cerebral. Publicado em 2012 no Archives of General Psychiatry, o estudo analisou 107 adultos enquanto eles decidiam, durante exames de ressonância magnética funcional, quais objetos manteriam ou descartariam. Os participantes com transtorno de acumulação apresentaram respostas diferentes no córtex cingulado anterior e na ínsula, regiões relacionadas à avaliação emocional e à tomada de decisões. 

Isso não significa que uma mesa cheia seja sinal de um transtorno. A pesquisa apenas ajuda a mostrar que a relação com os objetos e com a decisão de mantê-los ou descartá-los envolve processos cerebrais mais complexos do que simplesmente gostar ou não de organização.

Uma mesa bagunçada também pode ter relação com criatividade, mas existe um limite

Apesar dos efeitos negativos da desordem, a história não termina com a ideia de que todo espaço de trabalho deveria parecer uma sala de cirurgia. Alguns estudos encontraram o efeito contrário quando o objetivo é pensar de maneira criativa. Pesquisas lideradas pela psicóloga Kathleen Vohs indicaram que ambientes desorganizados podem estimular comportamentos menos convencionais e favorecer ideias originais. Em espaços perfeitamente organizados, as pessoas tendem a seguir padrões e expectativas com mais facilidade. Já um ambiente menos estruturado pode estimular uma abordagem diferente diante de um problema.

A diferença está no tipo de tarefa. Se o objetivo é manter a concentração, localizar rapidamente um documento ou executar uma sequência de atividades, o excesso de estímulos pode atrapalhar. Quando a tarefa exige pensamento criativo, novas associações ou soluções fora do padrão, uma dose de desordem pode ter outro efeito.

Por isso, a mesa bagunçada não funciona como um teste de personalidade capaz de dizer se alguém é criativo, produtivo ou desorganizado. A mesma situação pode representar coisas completamente diferentes dependendo da pessoa e do contexto. Por isso, organizar o ambiente não significa necessariamente organizar a mente, mas reduzir o excesso de estímulos pode liberar parte da atenção usada para lidar com o espaço ao redor

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