Um virologista dos Estados Unidos apresentou em 2025 uma proposta que deixaria qualquer cervejeiro com água na boca: uma vacina que pode ser ingerida junto com uma caneca de cerveja. A ideia é oferecer uma vacina oral contra o poliomavírus, um grupo de vírus bem comum que infecta humanos, principalmente pessoas com baixa imunidade. A vacina é administrada por meio de leveduras vivas geneticamente modificadas, capazes de sobreviver ao estômago e estimular o sistema imunológico no intestino. O projeto foi desenvolvido por Chris Buck, pesquisador do Instituto Nacional do Câncer (NCI), em Maryland, Estados Unidos. O produto foi testado em animais e no próprio cientista, e os resultados divulgados no Science News.
Vacina de cerveja: entenda como funciona e por que o poliomavírus é um alvo prioritário
Chris Buck é um virologista que há mais de 15 anos pesquisa poliomavírus, um grupo de vírus capaz de permanecer latente no organismo por anos sem causar sintomas. O problema aparece quando o sistema imunológico é enfraquecido, como em pacientes transplantados. Nesses casos, o poliomavírus BK, espécie a qual Chris está desenvolvendo a vacina, pode causar danos graves aos rins, à bexiga e até levar à perda do órgão transplantado.
Estudos anteriores já haviam mostrado que partículas semelhantes ao vírus, produzidas em laboratório e administradas por injeção, são capazes de gerar uma resposta imunológica forte no organismo. Além disso, em 2023, um trabalho publicado na revista Vaccine demonstrou que esse tipo de vacina aumentou significativamente os níveis de anticorpos em macacos rhesus. Mas Chris queria ir além: seria possível obter o mesmo efeito sem agulhas?
Foi aí que entrou a levedura Saccharomyces cerevisiae, a mesma usada para fazer pão e cerveja. Chris modificou geneticamente essas células para que produzissem cápsulas virais vazias, estruturas que imitam o vírus, mas não causam infecção. Em testes com camundongos, a equipe observou que leveduras vivas conseguiam atravessar o ambiente ácido do estômago e liberar seu conteúdo no intestino, algo que versões mortas ou purificadas não conseguiam fazer. Isso estimulou a produção de anticorpos específicos contra o poliomavírus BK, indicando que a resposta imune foi ativada mesmo sem aplicação por injeção.
Autoexperimento, dados limitados e a incerteza da comunidade científica: entenda as falhas da vacina
Chris e seu irmão foram os únicos humanos a testarem a vacina de cerveja. Créditos: ScienceNews
Apesar da proposta inovadora e dos resultados bem-sucedidos, a vacina está bem longe de convencer a comunidade científica, e é justamente aí que começam os problemas. Impedido por comitês de ética do Instituto Nacional de Saúde de testar a vacina em si mesmo como parte de seu trabalho, Chris decidiu criar uma entidade privada, a Gusteau Research Corporation, para conduzir o experimento como cidadão comum. Ele produziu uma cerveja artesanal contendo a levedura modificada e ingeriu a bebida ao longo de ciclos controlados, monitorando seus próprios níveis de anticorpos.
Segundo os dados divulgados em dezembro de 2025, Chris apresentou aumento nos anticorpos contra dois subtipos do poliomavírus BK, atingindo níveis considerados protetores para pacientes transplantados. O único outro humano a testar a bebida foi seu irmão, Andrew Buck. Não houve efeitos colaterais relatados, mas também não existem dados clínicos amplos, nem revisão por pares até o momento.
Esse detalhe deixou outros virologistas inseguros com a vacina. Especialistas da área destacam que resultados em duas pessoas são insuficientes para avaliar segurança e eficácia do produto, especialmente quando o público-alvo são pacientes imunossuprimidos. Também há preocupação com o precedente regulatório, já que as vacinas passam por múltiplas fases de testes para identificar efeitos adversos e evitar danos. Ou seja, a cerveja vacinal ainda está longe de chegar para o público.
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