Nem mísseis, nem drones: o inimigo letal e invisível que se espalha pela Ucrânia (e a invenção bizarra usada para caçá-lo)

Pesquisadores usam um laboratório móvel para sequenciar o HIV em áreas afetadas pela guerra na Ucrânia e identificam uma nova linhagem do vírus com mutação associada à resistência a medicamentos antirretrovirais

Anna Kovalenko sequenciando HIV no Laboratório Sobre Rodas
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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A guerra na Ucrânia é retratada por imagens de mísseis, drones e cidades destruídas. Mas, longe das linhas de frente e quase invisível aos olhos, existe um outro inimigo avançando pelo país: o HIV. Com hospitais sobrecarregados, deslocamento em massa de civis e interrupções nos serviços de saúde desde a invasão russa em 2022, cientistas começaram a temer que o vírus estivesse se espalhando pelo país sem controle.

Para investigar essa ameaça, uma equipe liderada pela virologista Anna Kovalenko, da Universidade da Califórnia em Irvine, desenvolveu um laboratório diferente para avaliar a disseminação da doença: uma van equipada com ferramentas portáteis de sequenciamento genético.

O objetivo era rastrear mutações do vírus diretamente nas áreas afetadas pela guerra, e o resultado da investigação deixou os pesquisadores surpresos. Durante um teste em 2024 na cidade de Lviv, na Ucrânia, eles identificaram uma nova cepa do HIV que surgiu após o início da guerra e já apresenta resistência a medicamentos usados no tratamento.

Um laboratório sobre rodas para investigar o vírus do HIV em meio à guerra

O HIV não é nenhuma novidade na Ucrânia. O país convive com o HIV desde os anos 1990, quando o vírus começou a se espalhar principalmente entre usuários de drogas injetáveis e por transmissão sexual. Mesmo antes do início da guerra, o país já enfrentava desafios no controle da doença, mas a invasão da Rússia iniciada em 2022 agravaram ainda mais o problema.

Com hospitais destruídos, deslocamento de milhões de pessoas e interrupção de programas de prevenção, como troca de seringas e acesso regular a medicamentos, o sistema de vigilância epidemiológica enfraqueceu. Em muitos casos, os testes continuaram sendo feitos, mas análises mais sofisticadas, como o sequenciamento genético do vírus, raramente aconteciam devido a falta de estrutura. Esse tipo de exame costuma depender de laboratórios especializados, distantes das regiões mais afetadas.

Foi para resolver esse problema que Anna decidiu adaptar uma ideia que já foi utilizada anteriormente em surtos de Ebola: os laboratórios sobre rodas. Muito parecidos com mini vans, o grande diferencial desses laboratórios é que eles conseguem levar a tecnologia necessária até onde o vírus está circulando. Assim, é possível que os pesquisadores consigam analisar amostras e sequenciar o genoma do HIV praticamente em campo.

Em agosto de 2024, a equipe levou o laboratório até Lviv, que se tornou um refúgio para pessoas deslocadas das zonas de combate. Durante três dias de trabalho, a equipe coletou amostras de sangue de 20 pessoas vivendo com HIV. A expectativa era apenas testar a viabilidade do laboratório móvel, mas os resultados dos exames revelaram algo muito preocupante. 

Pesquisadores descobrem uma nova cepa resistente a medicamentos

Ao analisar o material genético das 20 amostras coletadas, os cientistas identificaram uma variante do HIV que parece ter surgido entre pessoas deslocadas após o início da guerra. Comparando o genoma do vírus com amostras sequenciadas antes de 2020, os pesquisadores estimaram que essa nova linhagem provavelmente apareceu depois da expansão da invasão russa em 2022.

Mais preocupante ainda foi a descoberta de uma mutação que torna o vírus resistente a um medicamento antirretroviral de segunda linha, que é usado quando os tratamentos iniciais deixam de funcionar. A amostra analisada ainda é pequena, mas os especialistas alertam que o achado indica uma tendência preocupante. Em contextos de guerra, onde tratamentos podem ser interrompidos e pacientes perdem acesso regular aos medicamentos, o vírus tem mais oportunidades de sofrer mutações e desenvolver resistência.

Para os pesquisadores, o laboratório sobre rodas pode se tornar uma ferramenta importante para monitorar essas mudanças em tempo real. Além do HIV, a tecnologia também poderia ajudar a enfrentar outros desafios que estão emergindo no país em meio à guerra. Entre eles estão infecções bacterianas resistentes a antibióticos, comuns em soldados feridos, e o aumento dos casos de tuberculose, outra doença que frequentemente apresenta resistência a múltiplos medicamentos.


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