Europa tem um plano para transformar data centers em fonte de energia: aquecimento geotérmico a partir de resíduos, tudo gratuito

  • Novas tecnologias de perfuração tornaram energia geotérmica 40% mais barata

  • União Europeia já tem potencial para substituir 42% da sua eletricidade proveniente de combustíveis fósseis, criando uma simbiose perfeita

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PH Mota

Redator
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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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A corrida para dominar a inteligência artificial já não se limita aos laboratórios do Vale do Silício ou às fábricas de microchips; está avançando para um terreno crucial: a eletricidade. Numa altura em que os data centers ameaçam sobrecarregar a rede elétrica mundial devido ao seu consumo agressivo, grandes empresas de tecnologia procuram desesperadamente fontes de energia contínuas, estáveis ​​e sem emissões.

A resposta, surpreendentemente, não parece estar na busca de sol ou vento, mas sim em perfurar o solo, quilômetros abaixo da superfície. A energia geotérmica deixou de ser uma opção secundária e tornou-se a grande esperança do setor. Na Europa, esta revolução tecnológica é acompanhada por uma virada magistral.

Debaixo dos nossos pés

Historicamente, a geração de energia geotérmica era considerada viável quase exclusivamente em regiões vulcânicas excecionais, como a Islândia ou a Indonésia. Dependia da descoberta de bolsas subterrâneas que possuíssem naturalmente calor, água e rochas permeáveis. No entanto, como explica o relatório "Hot stuff: geothermal energy in Europe" do think tank Ember (em tradução livre, Coisa quente, a energia geotermal na Europa), os avanços tecnológicos da última década reescreveram completamente este mapa.

A indústria adaptou técnicas de perfuração profunda e engenharia de reservatórios do setor do petróleo e gás, reduzindo os custos dos poços em cerca de 40%. Agora, os chamados Sistemas Geotérmicos Aprimorados (EGS, na sigla em inglês) permitem injetar fluidos para criar fissuras artificiais em rochas secas e quentes, extrair esse calor e gerar eletricidade na superfície, independentemente da permeabilidade natural do solo.

Números que mudam o panorama energético

O impacto dessa disrupção tecnológica é monumental. Como detalhado pelo analista Pawel Czyzak em seu boletim informativo, a energia geotérmica já pode ser produzida a custos nivelados de energia (LCoE) inferiores a € 100/MWh. Para se ter uma ideia, o custo marginal da eletricidade gerada a partir de gás e carvão na Europa variou entre € 90 e € 150/MWh durante 2025. A energia geotérmica já é economicamente competitiva.

Na União Europeia, essa tecnologia poderia desenvolver cerca de 43 GW de capacidade comercialmente viável hoje. Considerando que as usinas geotérmicas operem ininterruptamente, isso se traduziria em cerca de 301 TWh de eletricidade por ano, o equivalente a substituir 42% de toda a geração de eletricidade a partir de carvão e gás na UE no ano passado. Os países com maior potencial identificado abaixo desse limiar de equilíbrio são a Hungria (com 28 GW), a Polônia, a Alemanha e a França.

Estratégia da "Tripla Vitória"

O grande trunfo da Europa reside na geografia e no planejamento urbano. Segundo Czyzak, as áreas com maior potencial geotérmico a uma profundidade de 5 mil metros coincidem surpreendentemente com grandes polos de data centers europeus – como Paris, Amsterdã e Frankfurt – e com redes de aquecimento urbano planejadas. O plano é localizar os data centers perto dessas usinas geotérmicas. A usina alimenta a inteligência artificial e, posteriormente, o calor residual gerado tanto pela usina quanto pelos próprios servidores é injetado nas redes de aquecimento urbano.

As instituições já estão se mobilizando. No final de 2024, o Conselho e o Parlamento Europeu aprovaram a criação de uma Aliança Geotérmica Europeia para agilizar o licenciamento e o financiamento do setor. Nesse cenário, a Espanha assume a liderança: a vice-presidente Teresa Ribera (cargo atualmente ocupado por Sara Aagese) anunciou um investimento de 100 milhões de euros em dez projetos de energia geotérmica profunda. A maioria será localizada nas Ilhas Canárias, devido ao seu excepcional subsolo vulcânico, embora a península já tenha projetos pioneiros em andamento, como os poços de 150 metros no campus universitário de Vitória ou a instalação de 6,5 MW na Cidade das Artes e das Ciências, em Valência.

Laboratório nórdico

Para entender como funciona a parte final desse plano – aquecer residências com dados – é preciso observar Helsinque. A capital finlandesa encontrou no calor residual dos servidores um aliado inesperado para descarbonizar seus invernos. Por meio da empresa de energia Helen, a cidade vem testando esse modelo há anos. Os resultados mostram que um único data center em Helsinque pode aquecer até 20 mil residências. A central da Telia, por exemplo, já recupera 90% do calor emitido pelas suas máquinas, que atualmente abastecem 14 mil apartamentos.

Este milagre térmico requer dois elementos: uma extensa rede de tubos para aquecimento urbano e enormes bombas de calor industriais que elevam a temperatura das águas residuais aos 85-90 ºC necessários para a rede urbana. A Europa, e especialmente os países nórdicos, lideram a adoção dessas bombas de calor, sendo a Finlândia um laboratório em grande escala para o que o futuro do continente poderá reservar.

Risco de perda do trem tecnológico

Apesar das perspectivas promissoras, a Europa enfrenta sérios obstáculos. Como alerta o relatório da Ember, o Velho Continente inventou a eletricidade geotérmica (a primeira usina foi inaugurada em Larderello, Itália, em 1904), mas corre o risco de ceder sua liderança. Enquanto Estados Unidos e Canadá expandem comercialmente graças a incentivos fiscais agressivos (como a Lei de Redução da Inflação) e investimentos privados de grandes empresas de tecnologia, a Europa se afunda num emaranhado de processos de licenciamento lentos e complexos, estruturas de apoio inconsistentes em nível nacional e falta de mitigação de riscos financeiros para os estágios iniciais da perfuração.

Até 64%

Se a UE não canalizar fundos para inovação e simplificar a burocracia, a cadeia de suprimentos e a redução de custos se consolidarão fora de suas fronteiras. Pesquisas americanas citadas por Ember indicam que a energia geotérmica poderia suprir, de forma economicamente viável, até 64% do aumento projetado na demanda de eletricidade de data centers nos EUA até o início da década de 2030.

A recompensa por fazer as coisas direito é a prosperidade econômica. Como Czyzak relembra com base em sua experiência, a Islândia em 1940 era 70% dependente de carvão e tinha uma das economias mais pobres do Ocidente; hoje, graças a uma rede elétrica 100% limpa (30% geotérmica, 70% hidrelétrica), atraiu a indústria do alumínio e se tornou o quinto país do mundo em PIB per capita. A energia geotérmica profunda poderia ser o mesmo catalisador para países como a Hungria ou a Eslováquia na era da inteligência artificial.

Paradoxo terrestre da nuvem

Na ânsia de não interromper o progresso de seus algoritmos, gigantes como Google e Meta compreenderam que a solução não é apenas olhar para o céu esperando o sol brilhar ou o vento soprar, mas sim perfurar em direção ao centro do planeta.

A Europa agora tem diante de si a oportunidade não só de surfar nessa onda, mas de aperfeiçoá-la: transformar o problema térmico da era digital em uma rede arterial que alimenta o intelecto das máquinas e, ao mesmo tempo, aquece seus cidadãos durante o inverno.

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