Uma curiosa sequência de erros históricos, confusões linguísticas e coincidências comerciais fez uma única ave ser associada a dois países diferentes. O peru — ave nativa da América do Norte — carrega em seu nome referências indiretas tanto ao Peru quanto à Turquia, apesar de não ter origem em nenhum dos dois territórios.
Ave americana chegou à Europa no século 16
O peru é uma ave originária da parte sul da América do Norte, onde hoje estão os Estados Unidos e o México. Lá, ele já havia sido domesticado por povos indígenas antes mesmo da chegada dos europeus.
No início do século 16, com a expansão espanhola, colonizadores levaram a ave para a Europa. O animal rapidamente se espalhou entre criadores e mercados do continente.
A partir daí, o peru acabou sendo comparado a outra espécie já conhecida pelos europeus: a galinha-d’angola, uma ave africana que também era vendida nos mercados europeus da época.
Peru é uma ave nativa da América do Norte. Foto: Shutterstock
Turcos e galinha-d’angola tiveram papel crucial na nomeação da ave
A galinha-d’angola chegava à Europa por meio de rotas comerciais controladas por mercadores do Mediterrâneo Oriental, regiões que na época estavam sob domínio do Império Otomano.
Desde a Idade Média, muitas dessas áreas eram chamadas genericamente de “Turquia” nas línguas europeias, em referência aos povos turcos que governavam o território. Por causa disso, a galinha-d’angola passou a ser conhecida em inglês como “turkey fowl”, literalmente “ave da Turquia”.
Quando os ingleses entraram em contato com o peru americano, notaram semelhanças e fizeram uma associação imediata: o novo animal passou a ser chamado simplesmente de “turkey” — em português, Peru.
Na América, o país leva o nome Peru por outro motivo
Enquanto isso, a origem do nome do país Peru segue uma trajetória totalmente diferente.
Historiadores acreditam que o termo deriva de “Birú” ou “Virú”, nome associado a um líder indígena que vivia no sul do atual Panamá no início do século 16.
Nos primeiros relatos espanhóis, o nome aparece de maneiras variadas: às vezes se referindo ao próprio chefe indígena, outras vezes ao território que estaria sob sua autoridade.
Com o avanço das expedições espanholas, “Peru” começou a ser utilizado como um rótulo geográfico: o termo passou a dar nome a áreas situadas mais ao sul, ainda pouco conhecidas pelos exploradores europeus.
O processo acabou associando definitivamente o nome à região andina dominada pelo Império Inca.
Confusão histórica nomeou a ave em português
Quando o peru chegou a Portugal, os europeus o interpretaram simplesmente como mais um animal vindo das terras da América espanhola, frequentemente chamadas de forma genérica de “Peru”.
Assim, o nome acabou sendo aplicado à ave por associação geográfica. Com o tempo, o termo se popularizou e se consolidou na língua portuguesa. Apesar disso, não existem perus nativos no atual território do Peru.
Foto de capa: Unsplash/Shutterstock
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