Se você chama tomate de legume, a ciência tem algo a te dizer: você está cometendo um erro básico sobre quase toda a sua salada

A divisão clássica do supermercado colocando frutas de um lado, verduras e legumes do outro, é uma construção puramente culinária e econômica

Foto: Mufid Majnun/Unsplash
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
matheus-de-lucca

Matheus de Lucca

Editor-chefe
matheus-de-lucca

Matheus de Lucca

Editor-chefe

Editor-chefe do Xataka Brasil. Jornalista há 10 anos, entusiasta de tecnologia, principalmente da área de computação e componentes de PC. Saudosista da época em que em vez de um celular fazer tudo que se possa imaginar, tínhamos MP3, alarme e relógio.

50 publicaciones de Matheus de Lucca

Se você acha que a sua vida na cozinha é organizada ou que você sabe tudo sobre alimentos, a botânica tem uma péssima notícia para lhe dar. A divisão clássica do supermercado colocando frutas de um lado, verduras e legumes do outro, é uma construção puramente culinária e econômica que ignora quase completamente a biologia evolutiva das plantas.

A realidade, vista sob a lente do microscópio, é um pouco mais perturbadora: quando você prepara uma salada de pepino, pimentão e tomate, você não está fazendo um prato de legumes. Você está servindo uma salada de frutas. E mais especificamente: você está comendo ovários amadurecidos de plantas.

Para abalar ainda mais o seu mundinho, o conceito de "legume" quase não existe.

O segredo está nas sementes (e no sexo das plantas)

Para um botânico, a regra é clara e não deixa margem para interpretação gastronômica. Para ser considerado um fruto, o alimento precisa cumprir três requisitos básicos:

  1. Nascer a partir da fecundação de uma flor;
  2. Ser o resultado do desenvolvimento do ovário dessa flor;
  3. Conter as sementes (ou a promessa delas) para perpetuar a espécie.

As plantas angiospermas (aquelas que produzem flores) desenvolveram os frutos como uma estratégia de transporte. Elas "embalam" seus bebês (as sementes) em pacotes nutritivos e saborosos para que animais os comam e, horas depois, depositem essas sementes em outro lugar, devidamente adubadas.

Portanto, qualquer coisa que tenha sementes dentro e venha de uma flor é um fruto.

O termo "legume", por outro lado, não tem definição botânica estrita. É um termo guarda-chuva usado na culinária para descrever partes comestíveis de plantas que geralmente são salgadas e não muito doces. Raízes como a cenoura, caules como aspargos, folhas como o alface e flores como brócolis e couve-flor são os verdadeiros vegetais. O resto são impostores.

A lista dos "agentes duplos" da sua geladeira

Foto: engin akyurt/Unsplash Foto: engin akyurt/Unsplash

Você provavelmente já sabia do tomate. Mas a lista de frutos disfarçados de legumes é muito mais extensa e surpreendente.

  • A família das Cucurbitáceas: Pepinos, abobrinhas e abóboras não são apenas frutos; tecnicamente, são classificados como bagas modificadas (peponídeos). Sim, uma abóbora gigante tem mais parentesco estrutural com uma melancia do que com uma batata.
  • A beringela: Se você cortar uma beringela transversalmente, verá a estrutura clássica de uma baga. Ela é um fruto verdadeiro, parente próxima (botanicamente) das batatas, mas reprodutivamente similar ao tomate.
  • Pimentões e pimentas: São frutos ocos. As sementes estão lá dentro, protegidas pela polpa, esperando um pássaro (que não sente o ardor da capsaicina) para dispersá-las.
  • O caso do milho: Este é fascinante. Cada grão de milho na espiga é, individualmente, um fruto seco (cariopse) onde a semente e a parede do fruto estão fundidas. Uma espiga de milho é, na verdade, um cacho de frutas.
  • Vagens e ervilhas: O nome já diz tudo ("fruto em vagem"). Quando você come vagem, está comendo o fruto inteiro com as sementes imaturas dentro.
  • Bônus: azeitona também é fruta

A culpa é (parcialmente) da Suprema Corte dos EUA

Se a ciência é tão clara, por que continuamos chamando tomate de legume? A resposta não está na biologia, mas na tributação.

Em 1893, o caso Nix v. Hedden chegou à Suprema Corte dos Estados Unidos. A questão era financeira: na época, a lei tarifária americana cobrava impostos sobre "vegetais" importados, mas não sobre "frutas". A família Nix, importadora de tomates, argumentou com base na botânica: tomates são frutos, logo, deveriam ser isentos de impostos.

O tribunal, no entanto, decidiu a favor do governo. O juiz Horace Gray admitiu que, botanicamente, tomates são frutos, assim como pepinos e abóboras. Mas, para fins legais e de comércio, eles seriam considerados vegetais, pois eram servidos no jantar, com sopa ou carne, e não como sobremesa.

Foi nesse momento que a lei se separou da ciência. Criamos uma "verdade culinária" para facilitar a vida (e a arrecadação de impostos).

Foto de capa: Mufid Majnun/Unsplash

Inicio