Se você acha que a sua vida na cozinha é organizada ou que você sabe tudo sobre alimentos, a botânica tem uma péssima notícia para lhe dar. A divisão clássica do supermercado colocando frutas de um lado, verduras e legumes do outro, é uma construção puramente culinária e econômica que ignora quase completamente a biologia evolutiva das plantas.
A realidade, vista sob a lente do microscópio, é um pouco mais perturbadora: quando você prepara uma salada de pepino, pimentão e tomate, você não está fazendo um prato de legumes. Você está servindo uma salada de frutas. E mais especificamente: você está comendo ovários amadurecidos de plantas.
Para abalar ainda mais o seu mundinho, o conceito de "legume" quase não existe.
O segredo está nas sementes (e no sexo das plantas)
Para um botânico, a regra é clara e não deixa margem para interpretação gastronômica. Para ser considerado um fruto, o alimento precisa cumprir três requisitos básicos:
- Nascer a partir da fecundação de uma flor;
- Ser o resultado do desenvolvimento do ovário dessa flor;
- Conter as sementes (ou a promessa delas) para perpetuar a espécie.
As plantas angiospermas (aquelas que produzem flores) desenvolveram os frutos como uma estratégia de transporte. Elas "embalam" seus bebês (as sementes) em pacotes nutritivos e saborosos para que animais os comam e, horas depois, depositem essas sementes em outro lugar, devidamente adubadas.
Portanto, qualquer coisa que tenha sementes dentro e venha de uma flor é um fruto.
O termo "legume", por outro lado, não tem definição botânica estrita. É um termo guarda-chuva usado na culinária para descrever partes comestíveis de plantas que geralmente são salgadas e não muito doces. Raízes como a cenoura, caules como aspargos, folhas como o alface e flores como brócolis e couve-flor são os verdadeiros vegetais. O resto são impostores.
A lista dos "agentes duplos" da sua geladeira
Foto: engin akyurt/Unsplash
Você provavelmente já sabia do tomate. Mas a lista de frutos disfarçados de legumes é muito mais extensa e surpreendente.
- A família das Cucurbitáceas: Pepinos, abobrinhas e abóboras não são apenas frutos; tecnicamente, são classificados como bagas modificadas (peponídeos). Sim, uma abóbora gigante tem mais parentesco estrutural com uma melancia do que com uma batata.
- A beringela: Se você cortar uma beringela transversalmente, verá a estrutura clássica de uma baga. Ela é um fruto verdadeiro, parente próxima (botanicamente) das batatas, mas reprodutivamente similar ao tomate.
- Pimentões e pimentas: São frutos ocos. As sementes estão lá dentro, protegidas pela polpa, esperando um pássaro (que não sente o ardor da capsaicina) para dispersá-las.
- O caso do milho: Este é fascinante. Cada grão de milho na espiga é, individualmente, um fruto seco (cariopse) onde a semente e a parede do fruto estão fundidas. Uma espiga de milho é, na verdade, um cacho de frutas.
- Vagens e ervilhas: O nome já diz tudo ("fruto em vagem"). Quando você come vagem, está comendo o fruto inteiro com as sementes imaturas dentro.
- Bônus: azeitona também é fruta
A culpa é (parcialmente) da Suprema Corte dos EUA
Se a ciência é tão clara, por que continuamos chamando tomate de legume? A resposta não está na biologia, mas na tributação.
Em 1893, o caso Nix v. Hedden chegou à Suprema Corte dos Estados Unidos. A questão era financeira: na época, a lei tarifária americana cobrava impostos sobre "vegetais" importados, mas não sobre "frutas". A família Nix, importadora de tomates, argumentou com base na botânica: tomates são frutos, logo, deveriam ser isentos de impostos.
O tribunal, no entanto, decidiu a favor do governo. O juiz Horace Gray admitiu que, botanicamente, tomates são frutos, assim como pepinos e abóboras. Mas, para fins legais e de comércio, eles seriam considerados vegetais, pois eram servidos no jantar, com sopa ou carne, e não como sobremesa.
Foi nesse momento que a lei se separou da ciência. Criamos uma "verdade culinária" para facilitar a vida (e a arrecadação de impostos).
Foto de capa: Mufid Majnun/Unsplash
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