Por que sentimos dor? Estudo genético aponta que nossa sensibilidade à dor pode ter vindo dos neandertais

Cientistas identificam genes de origem neandertal ligados à dor e ajudam a explicar por que algumas pessoas sentem certos estímulos com mais intensidade

Duas células nervosas interagindo e conectadas por sinapses. Créditos: ShutterStock
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Ninguém gosta de sentir dor, não é mesmo?! Mas você já se perguntou sobre a origem dessa sensação? Sentir dor nunca foi apenas uma questão de resistência individual, pode ser também um traço herdado da pré-história. Um estudo publicado recentemente na revista científica Communications Biology sugere que a sensibilidade humana a certos tipos de dor está ligada a genes herdados dos neandertais

A pesquisa foi conduzida por cientistas de instituições europeias, como o University College London e universidades da França. No estudo, foram analisadas variações genéticas associadas à percepção da dor. Segundo os autores, o cruzamento entre humanos modernos e neandertais, ocorrido há dezenas de milhares de anos, pode ter deixado marcas diretas na forma como nosso sistema nervoso reage a estímulos dolorosos.

Um gene herdado da pré-história ajuda a explicar por que algumas dores são sentidas de forma mais intensa

A ligação entre o DNA herdado dos neandertais e a forma como sentimos dor hoje tem tudo a ver com o funcionamento do sistema nervoso. Para investigar esse caminho, os pesquisadores analisaram variações no gene SCN9A, responsável por produzir o canal de sódio Nav1.7, uma proteína que age na transmissão da dor por meio da comunicação entre os nervos sensoriais e o cérebro. 

O estudo identificou três variantes específicas desse gene que têm origem neandertal. Pessoas que carregam essas variantes apresentam um limiar mais baixo para dor mecânica, especialmente em situações que envolvem estímulos como picadas na pele. Em testes laboratoriais, os participantes foram expostos a óleo de mostarda, utilizado para sensibilizar a pele e, em seguida, avaliados quanto à resposta à dor. O resultado mostrou que, quanto maior o número dessas variantes genéticas, maior a sensibilidade ao estímulo doloroso.

No entanto, essas alterações não afetaram da mesma forma dores causadas por calor ou pressão, indicando que o efeito genético é específico para determinados tipos de estímulos.

As marcas genéticas dos neandertais não estão distribuídas igualmente entre os humanos

Ao avançar na análise, os cientistas perceberam que as variantes do gene SCN9A não aparecem da mesma forma em todas os humanos. Dados do projeto “1000 Genomas “mostram que elas são praticamente inexistentes em europeus, mas comuns em populações latino-americanas, especialmente entre pessoas com maior ancestralidade indígena americana.

Isso significa que o legado genético dos neandertais não foi distribuído de maneira uniforme entre humanos. Ele se concentrou em grupos que passaram por longos períodos de isolamento durante a ocupação da América, o que ajuda a explicar por que a sensibilidade à dor varia entre diferentes regiões do mundo.

Segundo os autores, essa distribuição desigual tem relação com a forma como as populações se espalharam pelas Américas. Durante esse processo, grupos relativamente pequenos levaram conjuntos específicos de genes, que acabaram se tornando mais comuns ao longo das gerações. Em testes realizados com mais de 1.600 voluntários colombianos saudáveis, os pesquisadores confirmaram que a presença dessas variantes herdadas dos neandertais está associada a um aumento significativo da sensibilidade à dor mecânica.

Sensibilidade à dor pode ter sido uma vantagem evolutiva?

A relação entre os neandertais e a dor já vinha sendo discutida por cientistas há alguns anos. Em 2020, pesquisadores do Instituto Max Planck e do Instituto Karolinska sugeriram que os próprios neandertais poderiam ter sido mais sensíveis à dor do que os humanos de hoje em dia. O novo estudo aprofunda essa hipótese ao mostrar como essas variantes afetam diretamente o funcionamento dos neurônios sensoriais.

Mas será que essa maior sensibilidade ofereceu alguma vantagem evolutiva no passado ou é apenas um efeito colateral do cruzamento entre espécies? Os autores não descartam nenhuma das possibilidades. É possível que perceber a dor mais rapidamente tenha ajudado nossos ancestrais a evitar ferimentos graves. Por outro lado, o traço também pode ser apenas um vestígio genético que sobreviveu ao tempo sem cumprir uma função clara hoje.

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