Desde os Pactos de Madri de 1953, a presença militar estadunidense no sul da Espanha tem sido um dos pilares silenciosos da arquitetura de segurança ocidental. Ao longo da Guerra Fria, das crises no Mediterrâneo e das sucessivas ampliações da OTAN, essa relação sobreviveu a mudanças de governo, tensões diplomáticas e redefinições estratégicas sem perder seu peso estrutural.
Por isso, uma ideia que havia ganhado força inquietava a Espanha. Ocorreu no verão de 2025, quando, a partir de círculos próximos ao Partido Republicano, surgiu a ideia de transferir as bases das cidades de Rota e Morón para o Marrocos como resposta à negativa espanhola de elevar os gastos com defesa para 5% do PIB. Com o passar dos dias, o debate deixou de ser retórico para se transformar em uma questão estratégica de primeira ordem.
A proposta sugeria que Washington poderia punir um aliado considerado insuficientemente comprometido, realocando ativos-chave na região do Magrebe, em um contexto de crescente apoio estadunidense ao Marrocos e de tensões internas na OTAN sobre a divisão de encargos. No entanto, para além do ruído político, a viabilidade real dessa manobra dependia de fatores muito mais profundos do que uma simples decisão conjuntural.
A primeira razão: escudos antimísseis
Rota não é uma base intercambiável, mas um nó essencial do escudo antimísseis da OTAN, ao lado da Romênia e da Polônia, integrado a um sistema de sensores, radares, satélites e centros de comando que exige coordenação milimétrica e tempos de reação entre cinco e vinte e cinco minutos.
Também abriga destróieres Aegis equipados com mísseis SM-3 e faz parte da estrutura técnica cujo centro nevrálgico está na Alemanha — tudo isso em território aliado plenamente integrado à Aliança Atlântica. A simples ideia de transferir essa capacidade para o Marrocos implicaria reconstruir do zero infraestruturas críticas, redesenhar o marco jurídico e operacional e, sobretudo, posicionar peças sensíveis do sistema em um país que não pertence à OTAN, com as complicações legais e políticas que isso acarreta.
O Marrocos não é território da OTAN, mas Rabat já ofereceu no passado portos e instalações militares. Seu peso como parceiro estratégico no Magrebe e no Sahel cresceu exponencialmente com o apoio estadunidense ao Saara e a normalização das relações com Israel.
No entanto, uma coisa é reforçar a cooperação e outra bem diferente é substituir uma base estrutural já consolidada por instalações fora do guarda-chuva jurídico e militar aliado. Como recorda o site Infodefensa, implantar ali capacidades equivalentes exigiria acordos bilaterais extremamente complexos, investimentos bilionários e garantias institucionais difíceis de equiparar às de um parceiro europeu, além de alterar o equilíbrio logístico que permite à Marinha dos Estados Unidos operar com continuidade no Mediterrâneo, no Atlântico oriental e na África.
Uma segunda razão incontornável
Segundo o jornal El Español, longe de reduzir seu peso, Rota iniciou uma ampliação avaliada em mais de 400 milhões de euros — uma obra que inclui novos cais, paióis semienterrados e contratos de manutenção que podem alcançar 90 milhões de euros anuais, com até seis destróieres mobilizados.
Dessa forma, a Espanha não apenas autorizou o aumento de quatro para seis navios Aegis, como também está adaptando a infraestrutura para dobrar a capacidade de atracação e consolidar a base como um polo de alta tecnologia antiaérea e antissubmarina. Em termos políticos e estratégicos, a operação equivale a uma espécie de cessão reforçada de território e soberania operacional, ainda que assumindo, sem dúvida, que a base transforma o solo espanhol em um alvo potencial em caso de conflito.
Em suma, a presença de milhares de militares estadunidenses, o teto estabelecido no acordo bilateral e o impacto econômico local evidenciam uma relação que vai além de governos e ciclos políticos. Para que a hipótese de uma transferência para o Marrocos fosse minimamente crível, seria necessário observar sinais claros de retração, como redução de navios ou paralisação de investimentos — e o que ocorre é exatamente o contrário.
Já havia uma razão de peso pela qual os EUA não podiam levar a base para o Marrocos: sua integração insubstituível na arquitetura da OTAN. Agora, a Espanha acaba de acrescentar uma segunda, ainda mais difícil de ignorar, ao reforçar e ampliar essa presença com investimentos e cessão efetiva de espaço estratégico, consolidando a base de Rota como peça estrutural do dispositivo de Washington na Europa.
Imagem | Armada, U.S. Navy
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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