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Os animais de estimação estão substituindo os filhos? Um estudo sugere justamente o contrário

Não é renúncia, é espera: o animal de estimação é sintoma de uma estabilidade econômica que não chega

Cães no carrinho / Imagem: unsplash
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Recentemente, a onda de cachorros transportados em carrinhos de bebê tomou conta de espaços públicos, como shoppings e parques. Essa imagem se tornou símbolo de algo mais profundo: a sensação de que, em sociedades envelhecidas, os animais de estimação estão ocupando um lugar que antes pertencia aos filhos.

Mas e se essa leitura estiver incompleta — ou diretamente errada? E se, longe de substituir os filhos, os pets estiverem desempenhando outro papel na vida familiar? Um novo estudo acadêmico põe em dúvida uma crença amplamente difundida.

Para começar, os números ajudam a entender por que essa suspeita se instalou no debate público. Na Espanha, segundo a Rede Espanhola de Identificação de Animais de Companhia (REIAC), em 2023, havia mais de dez milhões de cães registrados, contra menos de dois milhões de crianças de 0 a 4 anos. Uma diferença tão grande que convida, quase automaticamente, a pensar em uma substituição dentro dos lares.

As cenas que chegam de fora reforçam essa impressão. A Coreia do Sul cruzou um limiar simbólico: já se vendem mais carrinhos para cães do que para bebês. Não é exagero, é o reflexo estatístico de um país em emergência demográfica. A tendência pegou tanto que até a fé se adaptou. Em templos japoneses como o de Ichigaya Kamegaoka, o ritual milenar do Shichi-Go-San — antes exclusivo para crianças — passou a se encher de focinhos e coleiras. Na falta de crianças, os santuários abençoam animais de estimação para evitar que suas liturgias fiquem sem protagonistas.

Sobre esse pano de fundo, proliferaram interpretações políticas e morais. Em 2022, o papa Francisco classificou como “egoístas” aqueles que preferem ter animais em vez de filhos. Na Coreia do Sul, o então ministro do Trabalho, Kim Moon-soo, chegou a afirmar que os jovens “amam seus cães” em vez de formar famílias. Um diagnóstico forte, mas que se baseava mais em símbolos e percepções culturais do que em dados verificados.

Desmontando a narrativa

A ideia de que os animais de estimação substituem os filhos acaba de ser desmentida pela pesquisa acadêmica. O estudo Cats, Dogs, and Babies, liderado pelos pesquisadores Kuan-Ming Chen e Ming-Jen Lin, da Universidade Nacional de Taiwan, analisou por mais de uma década o comportamento de milhões de lares.

A pesquisa chegou à conclusão de que pessoas que adotam um cachorro têm até 33% mais probabilidade de ter um filho do que aquelas que não o fazem. Longe de deslocar a paternidade, o animal parece atuar como um passo prévio. É o que os autores chamam de “efeito filho de prática”. Segundo Chen e Lin, muitos casais usam a experiência de cuidar de um cachorro para avaliar sua disposição de assumir responsabilidades — rotinas, gastos e vínculos afetivos. Se a experiência é positiva, aumenta a confiança para dar o próximo passo rumo à paternidade humana.

No entanto, não há uma mudança à vista. Nem o estudo taiwanês nem os especialistas que analisam o inverno demográfico sustentam que o aumento de animais de estimação vá se traduzir, por si só, em uma recuperação da natalidade. O próprio trabalho acadêmico alerta que se trata de uma análise centrada em um país específico e que os padrões podem variar conforme o contexto cultural, econômico e social.

O carrinho como metáfora

O estudo não propõe os animais de estimação como resposta ao declínio demográfico, mas como uma pista sobre como hoje se adiam as decisões de cuidado em um contexto de incerteza econômica e existencial. A queda da natalidade responde a fatores estruturais amplamente documentados: precariedade no trabalho, encarecimento da moradia, dificuldades de conciliação, atraso na saída da casa dos pais e uma maternidade cada vez mais tardia. Nesse cenário, os pets não substituem os filhos; ocupam o espaço deixado por um projeto de vida adiado.

Por isso, a imagem do cachorro no carrinho resume bem essa ambiguidade. Como explica o Dr. Jerry Klein, veterinário-chefe do American Kennel Club, esses carrinhos podem ter uma função prática em certos casos: “Oferecem a cães idosos, com artrite ou problemas de mobilidade, uma forma de aproveitar o ar livre sem se esforçar”. Plataformas veterinárias como Dialvet e ToeGrips concordam que eles podem ajudar a proteger as patas do asfalto quente ou auxiliar cães pequenos que não conseguem acompanhar longas caminhadas.

No entanto, outros especialistas pedem cautela. Carlos Carrasco, da DOS Adiestramiento, alerta que “um cachorro não é uma criança com pelos” e que levar um animal saudável em um carrinho pode ser uma “humilhação” que o desnatura. Na mesma linha, a etóloga Isabel Jiménez, diretora da La Manada de Iris, afirma na IM Veterinaria que a humanização excessiva “anula o cachorro como espécie e o adoece emocionalmente”. Um estudo publicado na revista Animals (MDPI) reforça essa ideia, alertando que o antropomorfismo pode gerar ansiedade e estresse no animal ao não respeitar suas necessidades biológicas básicas, como farejar e caminhar.

Por fim, o auge dos animais de estimação não explica por si só o inverno demográfico, mas revela como as formas de afeto e responsabilidade estão sendo reconfiguradas em sociedades onde ter filhos se tornou mais complexo. O estudo taiwanês não oferece soluções milagrosas, mas traz um alerta claro: colocar pets e filhos como se fossem opções excludentes simplifica demais uma realidade muito mais matizada.

Imagem | Unsplash

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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