Paris tem uma peculiaridade que milhões de pessoas pisam todos os dias sem saber: centenas de quilômetros de uma rede de comunicação que funcionava como uma espécie de Internet mecânica muito antes da existência da Internet ainda estão enterrados sob suas ruas. Por mais de um século, esses tubos movidos a ar comprimido enviaram mensagens de uma ponta à outra da cidade em questão de minutos. Quando a tecnologia se tornou obsoleta, ninguém se deu o trabalho de retirá-los.
A história começa no meio do governo de Napoleão III. O telégrafo elétrico havia revolucionado as comunicações, mas ainda havia um problema: a mensagem chegava rapidamente ao escritório de telégrafo, mas demorava muito para chegar até seu destinatário.
Inspirada por um sistema que Londres havia começado a usar alguns anos antes, Paris decidiu construir uma rede subterrânea capaz de eliminar esse problema. Os primeiros testes começaram em 1866 e, logo depois, a cidade já possuía sua própria infraestrutura para transportar correspondências usando ar comprimido.
A operação era tão simples quanto engenhosa. Cada cartão era inserido em um cilindro metálico que encaixava perfeitamente em tubos de apenas 6,5 centímetros de diâmetro. Usando compressores que empurravam ou sugavam o ar, essas cápsulas viajavam pela cidade a velocidades próximas a 40 km/h até chegarem ao escritório mais próximo do destinatário, onde um mensageiro completava o último trecho.
Numa época em que o telefone ainda era um luxo e o correio convencional exigia horas ou até dias, Paris havia construído uma rede física capaz de entregar mensagens em menos de uma hora.
Telegrama típico enviado pelo tubo
O que começou como uma conexão entre escritórios telegráficos acabou se tornando uma das maiores infraestruturas de comunicação urbana de sua época. A partir de 1879, o serviço foi aberto ao público e os famosos "petits bleus", assim chamados pela cor de suas formas, tornaram-se comuns entre empresários, servidores públicos, advogados e cidadãos que precisavam se comunicar rapidamente.
Nas décadas seguintes, a rede continuou a crescer para alcançar cerca de 427 quilômetros de tubulações, conectando cerca de 130 escritórios espalhados pela capital e até uma extensão até Neuilly-sur-Seine.
Arte mostrando como os tubos funcionavam
A rede acabou fazendo parte do cotidiano em Paris. Movimentava dezenas de milhões de remessas por ano, possibilitava a automatização de parte do roteamento das cápsulas e era usada tanto pela administração francesa quanto pelo Parlamento para acelerar a troca de documentos oficiais.
Ele também deixou sua marca na história: um desses "petits bleus" desempenhou um papel decisivo no caso Dreyfus ao ajudar a provar que a verdadeira pessoa responsável pela espionagem era outro oficial, contribuindo anos depois para a reabilitação do soldado injustamente condenado.
Por décadas, o sistema pareceu insubstituível, mas acabou enfrentando um inimigo impossível de combater: as novas telecomunicações. O telex, o fax e, antes deles, o telefone tornaram a manutenção de centenas de quilômetros de tubos cada vez menos lucrativa.
O desgaste era enorme, as falhas se multiplicavam e os operadores precisavam descer aos esgotos para recuperar cápsulas presas entre os dutos. Em 30 de março de 1984, exatamente às cinco horas da tarde, a rede parou de funcionar para sempre.
O mais surpreendente veio depois do fechamento. Ninguém desmontou a grande maioria desses tubos. Removê-las teria forçado a abertura de grande parte do subsolo de uma das cidades mais complexas da Europa para eliminar uma infraestrutura que não incomodava ninguém.
Assim, a grande maioria desses 427 quilômetros ainda está sob o asfalto, compartilhando espaço com água, eletricidade, gás e tubos de fibra óptica.
Matéria traduzida de Xataka*
Ver 0 Comentários