Em 2013, os EUA liberaram 2 mil ratos carregados de paracetamol para aniquilar a criatura de uma ilha; anos depois, os resultados continuam surpreendendo

Medida foi utilizada para lidar com uma infestação de cobras

(Reprodução/Xataka)
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Bárbara Castro

Redatora

Pouco mais de uma década atrás, uma imagem difícil de acreditar foi divulgada: um helicóptero dos EUA sobrevoou uma ilha no Pacífico, lançando milhares de pequenos paraquedas de papelão. Eles não transportavam ajuda humanitária ou equipamentos militares, mas, sim, ratos mortos cheios de paracetamol. Essa cena parecia algo tirado de um filme de comédia, mas foi a última tentativa de resolver uma das invasões biológicas mais devastadoras do planeta.

Tudo começou após a Segunda Guerra Mundial. A cobra-arborícola marrom (Boiga irregularis), nativa da Austrália e Papua-Nova Guiné, chegou acidentalmente a Guam, provavelmente escondida em um carregamento militar. Em uma ilha onde ele tinha poucos predadores e a fauna nunca havia vivido com um caçador desse tipo, ele encontrou o cenário perfeito para expandir descontroladamente.

Em poucas décadas, causou o desaparecimento ou colapso da maioria das aves nativas da floresta, desestabilizou o ecossistema e criou um problema econômico constante ao invadir subestações elétricas e causar dezenas de apagões todos os anos.

Após anos testando armadilhas, cães de caça e patrulhas noturnas, os Estados Unidos decidiram tentar uma estratégia que parecia absurda no papel. Em 2013, lançaram cerca de 2 mil ratos mortos de helicópteros equipados com pequenos paraquedas feitos de papelão e papel, para que fossem presos às copas das árvores, o local onde essas cobras vivem e caçam.

Cada um continha uma pequena dose de paracetamol e alguns tinham pequenos transmissores de rádio para verificar se haviam sido consumidos ou simplesmente apodrecido na vegetação.

(Reprodução)

 A ideia parecia ainda mais bizarra por causa do ingrediente escolhido. O paracetamol é um dos medicamentos mais comuns do mundo para aliviar dor e febre em pessoas, mas a cobra-marrom tem uma sensibilidade extraordinária a esse composto. Apenas 80 miligramas, cerca de uma dose infantil, são suficientes para alterar a capacidade do seu sangue de transportar oxigênio, causar um coma e, eventualmente, causar a morte algumas horas depois. Para a grande maioria dos outros animais presentes em Guam, esse número é baixo demais para representar um perigo significativo, tornando o método uma alternativa muito mais seletiva em relação a outros venenos convencionais.

A invasão não era mais um simples conflito entre um predador e sua presa. Sem aves para dispersar sementes, a regeneração natural das florestas começou a sofrer e algumas espécies vegetais perderam seus principais aliados. Ao mesmo tempo, o desaparecimento das aves permitiu que outros animais, como aranhas, aumentassem de forma marcante.

A tudo isso se somavam os frequentes cortes de energia causados por cobras ao entrarem em infraestruturas críticas e o medo de que alguns exemplares escapassem escondidos em barcos ou aviões para o Havaí, onde os cientistas alertaram que o impacto ecológico e econômico poderia ser ainda maior.

No entanto, as ações de 2013 deixaram uma questão no ar: será que aquela chuva de ratos realmente funcionou? A resposta veio anos depois, graças ao monitoramento de campo pelo Departamento de Agricultura dos EUA e a vários estudos científicos.

Surpreendentemente, campanhas aéreas de iscas conseguiram reduzir significativamente o número de cobras nas áreas tratadas, especialmente entre exemplares adultos que vivem nas copas das árvores. Por outro lado, o efeito não foi permanente: com o tempo, outras cobras de áreas próximas recolonizaram esses espaços, provando que uma única operação nunca seria suficiente para eliminar a espécie de toda a ilha.

Longe de abandonar o projeto, as autoridades americanas continuaram a aprimorar o sistema na década seguinte. As iscas passaram a fazer parte de uma estratégia muito mais ampla que combina armadilhas, cães de caça, inspeções em portos e aeroportos e campanhas periódicas nas áreas mais problemáticas.

O objetivo também mudou: não se fala mais em erradicar completamente a cobra-arborícola marrom, mas sim em manter suas populações sob controle, favorecer a recuperação da fauna nativa e, acima de tudo, impedir que esse predador alcance outras ilhas do Pacífico. Essa imagem de milhares de camundongos descendo em pequenos paraquedas ainda parece uma das operações mais extravagantes da história recente, mas, quinze anos depois, continua sendo uma das ferramentas mais eficazes que a ciência encontrou para conter uma invasão que parecia impossível de deter.

Matéria traduzida de Xataka*




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