Na Sibéria, unicórnios caminham livremente. Nos oceanos, tritões dividem espaço com monstros marinhos. E um pássaro gigantesco aparece carregando um elefante nas garras. Essas são apenas algumas das curiosidades reveladas após pesquisadores reconstruírem digitalmente, pela primeira vez, um mapa-múndi criado em 1587 pelo cartógrafo italiano Urbano Monte. Formado por 60 folhas individuais e com mais de três metros de largura quando completo, o documento permaneceu "fragmentado" por mais de quatro séculos e agora pode ser visto exatamente como seu autor imaginou.
Muito além de um mapa: a obra mistura descobertas científicas, política e criaturas lendárias
Quem observa o mapa pela primeira vez pode até achar que ele parece um livro de fantasia, mas por trás dos unicórnios, tritões e monstros marinhos, existe um documento que reuniu algumas das informações geográficas disponíveis no fim do século XVI. Ele funciona quase como uma enciclopédia ilustrada da época, reunindo o conhecimento geográfico disponível, referências políticas e elementos da imaginação popular.
Os espaços ainda desconhecidos do planeta foram preenchidos com criaturas fantásticas. Entre elas aparecem unicórnios na Sibéria, tritões nos mares austrais e uma enorme ave carregando um elefante. Também há navios espalhados pelos oceanos e figuras políticas, como o rei Filipe II da Espanha sentado sobre um trono flutuante próximo à América do Sul, uma representação do domínio espanhol nos mares naquele período.
Ao mesmo tempo, Urbano Monte incorporou informações bastante atuais para a época. O mapa já mostrava, por exemplo, as ilhas da Terra do Fogo, descobertas pouco tempo antes durante a expedição de Fernão de Magalhães. Graças ao contato direto com a primeira delegação oficial japonesa que visitou Milão em 1585, o cartógrafo também adicionou nomes de cidades e regiões do Japão que simplesmente não apareciam em outros mapas europeus do período.
Este mapa de 1587 escondia uma solução cartográfica muito à frente de seu tempo
Apesar das criaturas mitológicas serem o detalhe que mais chama atenção no mapa, o que mais surpreendeu os especialistas foi a forma como Urbano Monte escolheu representar o mundo. Diferente dos mapas da época, ele desenhou a Terra como se fosse observada diretamente do Polo Norte. Hoje esse método é conhecido como projeção azimutal polar e só se popularizou séculos depois, principalmente durante o desenvolvimento das viagens aéreas no século XX, pois essa projeção facilitava o cálculo das rotas mais curtas entre diferentes continentes.
Embora o mapa ainda apresentasse erros típicos do século XVI, como uma Antártida gigantesca para equilibrar as massas continentais do hemisfério norte, sua abordagem matemática era surpreendentemente sofisticada. A reconstrução digital foi realizada após o mapa ser adquirido pelo colecionador David Rumsey e incorporado ao David Rumsey Map Center, da Universidade Stanford. As 60 folhas foram escaneadas e unidas digitalmente, confirmando que elas se encaixavam perfeitamente e revelando a obra exatamente como Urbano Monte a concebeu há mais de 430 anos.
Com isso, vieram à tona detalhes que permaneceram escondidos por séculos: uma projeção cartográfica muito à frente de seu tempo, referências inéditas ao Japão, símbolos políticos espalhados pelo mapa e um curioso equilíbrio entre rigor científico e imaginação, representado por unicórnios, monstros marinhos e outras criaturas fantásticas que ajudavam a preencher o desconhecido.
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