Por décadas, confiamos em exames de sangue anuais para saber se nosso fígado estava saudável, já que existem diversos valores que indicam se há algum dano que não "sentimos". O problema é que a ciência está avançando, e o mais recente estudo importante sobre o fígado revelou que ele pode adoecer sem apresentar sintomas por anos, e o principal culpado não é o consumo de álcool ou os vírus da hepatite, mas sim um grave distúrbio metabólico.
Epidemia silenciosa
Atualmente, a doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica, conhecida como MASLD (doença hepática gordurosa não alcoólica associada à disfunção metabólica), tornou-se uma das principais ameaças à saúde pública global. E com razão, já que seu perigo reside na sua invisibilidade, pois a fase inicial e a progressão para fibrose hepática podem ser completamente assintomáticas.
Embora possa parecer trivial, a fibrose deve ser levada a sério. Nesse caso, a fibrose ocorre quando o fígado sofre danos que não consegue reparar adequadamente e, em vez de gerar novo tecido, acaba com várias cicatrizes que comprometem sua função. Não se trata simplesmente de o fígado funcionar com uma porcentagem menor do que o normal; essa fibrose pode progredir para cirrose ou câncer de fígado, que estão associados a alta mortalidade.
Dados
A ciência indica que este não é um problema isolado a ser ignorado, visto que um estudo de grande escala publicado este ano na revista Lacent, com um total de 7.764 participantes, sugere que a prevalência desta doença é de 38,9%. Ajustando para a população mundial, temos uma taxa de fibrose de 2,4% a nível global.
No contexto de Espanha e da Europa, os números não são menos alarmantes. Durante o recente congresso da Associação Espanhola para o Estudo do Fígado (AEEH), em 2026, foi alertado que a prevalência de fibrose significativa no nosso país ronda os 3,6%. O aspeto mais preocupante é que se trata de pessoas que levam vidas normais, sem dores ou sintomas aparentes, enquanto os seus fígados sofrem com estas cicatrizes.
Mistura letal
Embora se possa pensar que o álcool é o único inimigo do fígado, a realidade é que o nosso estilo de vida tem uma influência muito maior do que se pensava anteriormente. Neste caso, a obesidade tipo 2, a hipertensão e a dislipidemia são os principais fatores de risco para esta doença.
O problema é que o consumo de álcool em pessoas com obesidade ou diabetes não só agrava os danos existentes, como os multiplica, acelerando a progressão para fibrose, cirrose ou mesmo câncer de fígado.
Exames médicos
Tradicionalmente, a saúde do fígado tem sido avaliada pelos níveis de transaminases em um simples exame de sangue. No entanto, a literatura científica indica que resultados normais em exames de sangue não devem nos levar à complacência, visto que a grande maioria dos casos de fibrose não é detectada em exames de sangue de rotina. Isso significa que um paciente com fibrose grave pode apresentar níveis de transaminases perfeitamente normais em alguns casos.
O que pode ser feito
Com todos esses dados, mudanças de estratégia são necessárias, e algumas vozes apontam para a necessidade de implementar programas de rastreamento populacional diretamente nos centros de atenção primária. Para isso, propõe-se o monitoramento de pacientes com mais fatores de risco utilizando duas ferramentas muito simples:
- O índice FIB-4: uma fórmula matemática simples que utiliza a idade do paciente e três parâmetros básicos de um exame de sangue para identificar o risco de fibrose.
- Realização de elastografia: As técnicas de ultrassom vieram para ficar, pois são fáceis de realizar e também muito acessíveis, já que é possível praticamente carregar um aparelho de ultrassom no bolso. Tudo isso torna a estratégia de ter um aparelho de ultrassom por consulta uma abordagem muito adequada.
O que fica claro é que não podemos ficar de braços cruzados esperando que o fígado cause dor ou insuficiência hepática. Portanto, diante do aumento de casos, ferramentas de diagnóstico precoce devem ser implementadas para melhor controlar uma doença que pode ter consequências devastadoras.
Imagens | julos stefamerpik
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