O cérebro é um órgão extremamente exigente em termos energéticos, pois precisa de uma grande quantidade de glicose para funcionar corretamente. Mas, às vezes, não se trata apenas de funcionar para viver, e sim de acumular novas memórias ou conhecimento — algo de que os estudantes precisam quando se colocam diante dos livros. E agora se sabe que o açúcar pode ser um aliado.
Um estudo recente publicado na Nature descreve um mecanismo biológico sem precedentes, apontando que não é o açúcar que melhora a memória “por mágica”, mas sim o fato de consumi-lo depois de aprender algo novo, como em uma sessão de estudo, o que pode ajudar a consolidar esse aprendizado. Tudo isso, claro, aliado a um bom descanso.
Os pesquisadores submeteram um grupo de moscas a um aprendizado aversivo que era progressivamente espaçado no tempo. Dessa forma, um estímulo neutro passava a ser associado a uma experiência percebida como desagradável, fazendo com que as moscas aprendessem a rejeitá-lo.
Com esse método, os pesquisadores observaram que submeter as moscas a esse tipo de aprendizado provoca o “sequestro” dos neurônios detectores de frutose — um tipo de carboidrato — no cérebro dos animais.
O fascinante de tudo isso é que esse processo ocorre mesmo quando as moscas estão completamente saciadas, o que indica que o aprendizado gera uma espécie de “fome não homeostática” temporária. Dessa forma, após o esforço cognitivo, se a mosca ingere açúcar, esses neurônios — que haviam sido desinibidos pelo aprendizado — se ativam de forma massiva. E isso é fundamental, porque essa ativação desencadeia a liberação de um hormônio chamado thyrostimulin, que atua como o sinal definitivo para consolidar a memória de longo prazo.
Não basta apenas o sabor
Esse novo estudo não surge do nada: já em 2017, um grupo de pesquisa demonstrou que o cérebro é inteligente demais para se deixar enganar por adoçantes que fornecem apenas o sabor doce. Foi aí que surgiu o conceito de “memória de frustração calórica”, que indica que o cérebro distingue perfeitamente entre o sabor doce e o valor energético real. Por isso, para que certas memórias se consolidem de forma ideal, o valor nutricional importa tanto quanto — ou até mais — do que a simples recompensa gustativa.
Além disso, esse mesmo grupo francês demonstrou em 2024 que desviar o fluxo de glicose para os neurônios desempenha um papel vital na memória da mosca-da-fruta, e também que a ativação metabólica de certas áreas do cérebro é um gatilho essencial para a formação de memórias de longo prazo.
Embora isso tenha sido observado, por enquanto, em moscas, é algo que oferece uma janela incrível para a neurobiologia evolutiva. Isso nos dá a esperança de que, em nível fundamental, os cérebros evoluíram para vincular a disponibilidade de energia ao gasto metabólico, permitindo a formação de novas memórias.
Se olharmos a literatura, há estudos que analisaram esse mesmo efeito em nossos próprios cérebros. Especificamente, foi possível observar que a administração de glicose pode melhorar de forma transitória certos aspectos cognitivos. Isso se nota principalmente na memória verbal, na memória episódica e em tarefas dependentes do hipocampo, como a associação objeto-localização. Ainda assim, em nenhum caso isso significa que devemos nos encher de açúcar para aprender muito mais rápido.
Imagens | Marcos Paulo Prado e Daniel Kraus (Unsplash)
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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