Da poluição ao cultivo verde: cientistas chineses propõem transformar minas de carvão abandonadas em fazendas subterrâneas gigantes

Pesquisadores querem reaproveitar túneis desativados para criar ambientes controlados de cultivo, com agricultura vertical, energia geotérmica e iluminação artificial

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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Minas de carvão abandonadas na China podem ganhar uma nova função: virar grandes áreas de cultivo subterrâneo. Pesquisadores da província de Shanxi, uma das principais regiões produtoras de carvão do país, propuseram transformar os túneis desativados em fazendas de plantas, aproveitando o espaço e as condições térmicas das estruturas. O espaço foi adaptado para o cultivo vertical, com iluminação artificial, aproveitamento de energia geotérmica e sistemas inteligentes capazes de controlar as condições ambientais. O objetivo é dar um novo uso à enorme quantidade de minas que perderam sua função original, ao mesmo tempo em que se cria uma alternativa mais eficiente para a produção agrícola.

Minas de carvão abandonadas podem virar fazendas de alta produtividade

produção de alimento Sistemas de iluminação artificial são fundamentais para permitir o cultivo no subsolo, onde a luz solar não chega

A proposta dos pesquisadores de Shanxi parte de uma questão que tende a ganhar proporções ainda maiores nos próximos anos: o que fazer com as minas depois que elas deixam de ser economicamente viáveis. Com o fechamento das minas, grandes estruturas subterrâneas permanecem no local, incluindo túneis, sistemas de ventilação, redes elétricas, equipamentos de bombeamento e outras partes da infraestrutura construída para manter a operação funcionando. A ideia dos pesquisadores é incorporar esses espaços subterrâneos em um novo sistema de produção de alimentos.

Mas o desafio não vai ser nada fácil. Em 2020, a China tinha aproximadamente 12 mil minas de carvão fechadas e a estimativa é que mais de 15 mil minas abandonadas precisem ser fechadas até 2030. A expectativa é que, juntas, elas poderiam disponibilizar aproximadamente 7,2 bilhões de metros cúbicos de espaço subterrâneo. É justamente no subsolo que está uma das principais vantagens da proposta. Ao contrário de uma plantação convencional, os túneis das antigas minas ficam protegidos de boa parte das variações climáticas e dos eventos extremos que atingem a superfície. Entre as características que podem ser aproveitadas estão:

  • Temperatura relativamente estável, reduzindo a necessidade de controlar o ambiente constantemente;
  • Isolamento do clima externo, o que diminui a influência de ondas de calor, frio e outros eventos;
  • Grandes áreas subterrâneas, que podem receber sistemas de cultivo vertical;
  • Infraestrutura já existente, incluindo sistemas de ventilação, água, eletricidade, transporte e comunicação;
  • Possibilidade de aproveitar o calor geotérmico presente nas profundezas das minas.

Um exemplo já está sendo desenvolvido em Daye, na província de Hubei. A 245 metros abaixo da superfície, uma mina antiga de cobre já contém fileiras de plantas cultivadas sob iluminação artificial. O projeto utiliza sistemas de inteligência artificial para controlar fatores como luz, água, ar e nutrientes.

Luz artificial, calor subterrâneo e cultivo vertical formam o novo modelo

modelo de produção subterrânea Projeto prevê diferentes níveis de cultivo dentro de minas abandonadas, com iluminação artificial, irrigação e sistemas automatizados adaptados à temperatura de cada profundidade

Para que uma mina possa funcionar como fazenda, é preciso realizar algumas adaptações. Como a luz solar não chega ao subsolo, os pesquisadores precisam reproduzir artificialmente algumas das condições necessárias para o crescimento das plantas. É aí que entram diferentes tecnologias desenvolvidas por grupos de pesquisa chineses. Uma delas utiliza energia geotérmica. Em minas profundas e quentes, a temperatura pode aumentar conforme a profundidade, criando uma fonte de calor que pode ser aproveitada ao mesmo tempo em que o ambiente subterrâneo é resfriado. Pesquisadores do Instituto de Conversão de Energia de Guangzhou, ligado à Academia Chinesa de Ciências, propuseram um sistema que aproveita:

  • Ventilação da mina;
  • Tubos de calor gravitacionais ultralongos;
  • Sistemas de extração e resfriamento;
  • Iluminação para as plantas;
  • Equipamentos de cultivo.

Os tubos transportam o calor das regiões subterrâneas para equipamentos instalados na superfície. Dessa forma, a mesma tecnologia pode ajudar a controlar a temperatura dentro da mina e aproveitar a energia térmica. A iluminação é outro ponto importante. Pesquisadores da Universidade de Changzhou desenvolveram um sistema que tenta aproveitar diferentes partes da luz solar para finalidades distintas. A tecnologia utiliza concentradores parabólicos para captar a radiação solar e separar diferentes faixas do espectro:

  • Uma parte da luz é direcionada para as plantas e utilizada na fotossíntese;
  • Outra é destinada às células fotovoltaicas para gerar eletricidade;
  • O restante pode ser convertido em energia térmica.

A proposta é criar um sistema integrado no qual luz, calor e energia sejam aproveitados de maneira mais eficiente.  Os pesquisadores estimam ainda que os custos de energia da produção possam ser mais de 60% menores do que os de fábricas de plantas instaladas na superfície, devido principalmente ao isolamento e à estabilidade térmica dos ambientes subterrâneos.

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