Não é nenhuma novidade que as inovações tecnológicas estão redesenhando cidades, conectando pessoas e encurtando distâncias. Porém, agora, elas também estão redefinindo os limites da engenharia subterrânea. Desde 2018, a Noruega trabalha em um projeto inacreditável, que parece até ser de mentira: um túnel rodoviário escavado a quase 400 metros abaixo do nível do mar, onde motoristas vão trafegar sob a pressão direta do oceano.
Batizado de Rogfast, o projeto está sendo construído sob o Boknafjord, na costa oeste do país, e terá 27 quilômetros de comprimento. A obra está prevista para ser concluída em 2033, e conectará regiões que, hoje, estão separadas por longas travessias de balsa, reduzindo o tempo de deslocamento e aumentando a segurança, além de estabelecer um novo recorde mundial como o túnel rodoviário submarino mais profundo e longo já feito.
Estrada sob o oceano vai substituir balsas e encurtar viagens
A sensação de dirigir a quase 400 metros abaixo do nível do mar pode não agradar quem foge de ambientes fechados. Ainda assim, é exatamente essa experiência que a Noruega decidiu transformar em solução de infraestrutura. A costa oeste do país é recortada por fiordes profundos, braços de mar estreitos e alongados, cercados por paredões rochosos esculpidos por geleiras, o que tornou o transporte da região totalmente dependente de balsas. Nesse sentido, o Rogfast surge como uma solução alternativa para a travessia, sem depender das balsas que são lentas, caras e vulneráveis ao clima. Esse desafio integra o plano nacional conhecido como “E39 sem balsas”.
Sem o túnel, percorrer toda a E39 hoje leva cerca de 21 horas, incluindo sete travessias marítimas. Com a conclusão dos túneis e pontes planejados, algo que só deve terminar depois de 2050, esse tempo cairá drasticamente. No caso específico do Rogfast, a ligação direta entre as regiões de Stavanger e Haugesund deve reduzir o trajeto em cerca de 40 minutos, tornando o deslocamento diário muito mais ágil.
Como se já não bastasse a grandiosidade da obra, o túnel também contará com um elemento incomum: uma rotatória subterrânea dupla, localizada a cerca de 260 metros de profundidade, que fará a ligação com a ilha de Kvitsøy, o menor município da Noruega.
Tecnologia extrema para lidar com profundidade, pressão e precisão milimétrica
Construir um túnel desse porte sob o mar exige muito mais do que uma escavação convencional. A escavação do túnel acontece ao mesmo tempo a partir dos dois lados da obra. A meta é que as frentes de trabalho se encontrem exatamente no ponto previsto do traçado, com um desvio máximo de apenas 5 centímetros, um nível de precisão considerado extremo para projetos desse porte.
Para isso, engenheiros utilizam scanners a laser de alta precisão, capazes de coletar milhões de pontos de dados por segundo. Essas medições criam uma espécie de um gêmeo da ponte em tempo real, só que digital, permitindo comparar cada trecho escavado com os projetos originais e corrigir desvios antes que eles se tornem caros ou perigosos. Outro desafio enfrentado no projeto é a pressão da água salgada. Em profundidades que já ultrapassam os 300 metros, vazamentos são frequentes, exigindo técnicas avançadas de injeção de cimento para selar a rocha e manter condições seguras para trabalhadores e equipamentos.
Entenda como a Noruega garante segurança e controle em um túnel a 400 metros abaixo do mar
Utiliza-se scanners a laser de alta precisão para garantir que as duas extremidades se encontrem precisamente no meio. créditos: Skanska
A segurança é o eixo central do projeto, tanto para quem trabalha na obra quanto para quem vai circular pelo túnel no futuro. Para isso, o Rogfast foi concebido com dois túneis paralelos, cada um com duas faixas de tráfego, reduzindo riscos operacionais e facilitando o controle do fluxo de veículos. Ao longo do percurso, passagens transversais a cada 250 metros funcionam como rotas de fuga em caso de emergência, permitindo a evacuação rápida para a galeria vizinha.
O sistema de ventilação combina fluxo longitudinal com poços que se estendem até a ilha de Kvitsøy, garantindo a renovação do ar e o controle de fumaça em caso de incêndio. Câmeras, sensores, radares e sistemas automáticos de alerta monitorarão continuamente o tráfego, detectando veículos parados, acidentes ou congestionamentos em tempo real.O custo estimado para a construção da infraestrutura ficou definido em cerca de 25 bilhões de coroas norueguesas, o equivalente a R$12,48 bilhões.
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