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Há mais de 40 anos, alguém enterrou 60 carros sob 18 metros de concreto. Hoje, essa loucura é uma das esculturas mais famosas do mundo

O autor da escultura transformou automóveis, ferramentas e instrumentos musicais na matéria-prima com a qual revolucionou a arte contemporânea

Long Term Parking
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Para qualquer pessoa apaixonada por carros, é difícil permanecer indiferente diante de um clássico abandonado: por trás de cada modelo, há muitos anos de trabalho em design, engenharia e história. Por isso, é difícil imaginar que alguém decidisse reunir 60 veículos, empilhá-los uns sobre os outros e enterrá-los para sempre sob uma enorme massa de concreto.

No entanto, foi exatamente isso que o artista francês Arman fez em 1982. Batizada de Long Term Parking, a escultura acabou se tornando uma das obras mais emblemáticas de um criador que encontrou no automóvel e nos objetos do cotidiano uma forma completamente diferente de fazer arte.

O estacionamento do qual nenhum carro voltará a sair

A obra fica no Domaine du Montcel, em Jouy-en-Josas, nos arredores de Paris. À distância, parece uma enorme coluna de concreto, mas, de perto, é possível distinguir para-choques, faróis, portas e tetos emergindo do cimento. Em seu interior, há 60 automóveis aprisionados — a maioria fabricada por marcas francesas — formando uma estrutura de cerca de 18 metros de altura construída com aproximadamente 18 toneladas de concreto.

Entre os modelos que ainda podem ser reconhecidos estão carros representativos de sua época como o Renault 5, o Simca 1100, o Peugeot 204, o Fiat 124 e o Volkswagen K70. Veículos concebidos para percorrer milhares de quilômetros que acabaram transformados em fósseis industriais, imobilizados para sempre em uma obra que desafia qualquer ideia convencional sobre o destino de um automóvel.

O artista que transformou sucata em arte

Para entender Long Term Parking, é preciso conhecer seu criador. Nascido em Nice, em 1928, como Armand Pierre Fernández, ele adotou definitivamente o nome Arman depois que uma gráfica imprimiu sua assinatura de forma errada. Esse erro acabaria identificando um dos artistas mais influentes do movimento Novo Realismo, fundado em 1960 ao lado de nomes como Yves Klein e Jean Tinguely.

Seu trabalho rompia com a ideia tradicional de escultura. Em vez de mármore ou bronze, ele utilizava objetos do cotidiano: relógios, ferramentas, malas, instrumentos musicais ou peças mecânicas. Arman acumulava, cortava, queimava ou destruía esses objetos para lhes dar um significado completamente diferente daquele para o qual haviam sido concebidos. Assim, aquilo que a maioria via como simples objetos de uso passava a se transformar em uma reflexão sobre a sociedade de consumo, a passagem do tempo e o valor que atribuímos às coisas.

A paixão de Arman por objetos industriais chamou a atenção da Renault, que, no fim dos anos 1960, lançou um inovador programa de colaboração entre artistas e a indústria. A montadora abriu as portas de suas fábricas para que diferentes criadores trabalhassem diretamente com materiais e componentes provenientes da produção de seus veículos.

Arman foi o primeiro artista contemporâneo a participar da iniciativa e chegou a produzir cerca de uma centena de obras utilizando motores, painéis de carroceria e outras peças mecânicas. Essas Accumulations Renault chegaram a ser exibidas na Exposição Universal de Osaka, em 1970, e demonstraram que um automóvel podia ser muito mais do que um meio de transporte: também podia se transformar em uma obra de arte.

Uma escultura aberta a todas as interpretações

Mais de 40 anos após sua criação, Long Term Parking continua sem oferecer uma única interpretação. Para alguns, representa uma crítica ao consumismo e ao acúmulo de bens materiais; para outros, simboliza como o automóvel, um dos grandes ícones do século 20, acabará se tornando um vestígio do passado. A obra também pode ser entendida como um paradoxo: máquinas criadas para se mover em alta velocidade que permanecem imóveis para sempre. Seja qual for a interpretação, a gigantesca coluna de Arman demonstra que um carro também pode contar histórias quando deixa de circular.

Imagens | Vintag, @cartdept

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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