O real motivo de os EUA quererem a Groenlândia: o gelo vai derreter

Além da imposição geopolítica pela força e do potencial em minérios, território pode representar novas rotas comerciais pelo mar descongelado

EUA querem Groenlândia / imagem:  The National Guard, Roderick Eime
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Como se fosse um déjà-vu, 2026 começou exatamente igual a 2025: com a insistência de Trump em ficar com a Groenlândia. Acontece que isso já não parece um capricho isolado nem uma excentricidade retórica, mas a convergência de uma pulsão pessoal, uma oportunidade estratégica percebida como fácil e um cálculo geopolítico de alto impacto. A Venezuela serviu para acender o estopim.

Após a captura de Maduro, Trump voltou a constatar que o uso da força no exterior carece dos freios legais e judiciais que de fato restringem sua ação doméstica e que, diante de adversários ou aliados claramente superados, a realidade se impõe ao direito internacional sem muitas consequências imediatas.

A Groenlândia surge então (mais uma vez) como o prêmio perfeito: um território enorme, pouco povoado, defendido por um aliado incapaz de resistir militarmente e situado em uma zona onde Washington pode revestir a ambição territorial com o discurso de “segurança nacional”. A reiteração da mensagem, a nomeação de um enviado específico e as declarações públicas que normalizam até mesmo a opção militar indicam que não se trata de uma piada nem de mera pressão diplomática, mas de uma obsessão que cresce à medida que a margem política interna de Trump se estreita.

A questão da OTAN

O problema central é que a Groenlândia pertence ao Reino da Dinamarca, membro pleno da OTAN, e qualquer ação dos EUA contra ela colocaria a Aliança diante de um paradoxo para o qual ela não foi projetada. O Artigo 5, concebido para dissuadir inimigos externos, não deixa claro o que acontece quando o agressor é o membro hegemônico. Como alertou a primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen, nesse cenário “tudo pararia”: a OTAN poderia continuar existindo formalmente, mas sua credibilidade ficaria destruída.

Ninguém iria em defesa da Groenlândia contra os EUA, não apenas por falta de vontade política, mas pela assimetria material absoluta entre Washington e o restante dos aliados. A mensagem implícita é um trovão para a Europa: as garantias de segurança já não são automáticas, e a força volta a se sobrepor ao tratado — um desfecho que beneficia diretamente a Rússia no momento de maior tensão desde o fim da Guerra Fria.

Motivo real 1

Para além do argumento geopolítico, existe outro, menos repercutido: a riqueza mineral que jaz sob o gelo groenlandês, fruto de uma geologia antiquíssima que concentra terras raras e outros minerais críticos essenciais para a transição energética. Do século 19 até hoje, diferentes atores tentaram explorar esse potencial, desde a criolita da cidade de Ivittuut durante a Segunda Guerra Mundial até os projetos contemporâneos de terras raras.

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No entanto, o entusiasmo pelos minérios esbarra na realidade: extrair esses recursos é extraordinariamente caro, lento e arriscado. A quase total falta de infraestrutura, a dependência do transporte marítimo ou aéreo, a complexidade do processamento (com minerais frequentemente associados ao urânio) e uma legislação ambiental restritiva fazem com que apenas uma fração mínima dos projetos de exploração se transforme em minas em operação, geralmente depois de mais de uma década de investimentos.

Além disso, a memória dos danos ambientais causados por explorações passadas — cujos efeitos ainda são detectáveis meio século depois em ecossistemas extremamente frágeis — explica por que a sociedade groenlandesa só encara a mineração como uma oportunidade se participar ativamente da tomada de decisões e da propriedade dos projetos. O butim existe, mas não é nem imediato nem simples e, certamente, não parece capaz de justificar, por si só, a urgência estratégica dos EUA.

O pano de fundo é um norte europeu cada vez mais militarizado, onde incidentes contra cabos submarinos, gasodutos e infraestruturas críticas no Báltico normalizaram a ideia de uma guerra híbrida permanente. Nesse contexto, Washington observa Moscou e Pequim testarem táticas de pressão abaixo do limiar do conflito aberto, enquanto as respostas legais e judiciais se mostram lentas ou ineficazes.

A disposição explícita dos Estados Unidos de incluir a opção militar para a Groenlândia se encaixa nessa lógica de fatos consumados: garantir posições-chave antes que o ambiente estratégico se deteriore ainda mais. Não se trata apenas de negar vantagens a rivais, mas de se antecipar a um cenário em que infraestrutura, logística e controle de nós físicos valem mais do que declarações de princípios.

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Aqui, surge uma possível derivação decisiva. A ciência vem alertando há algum tempo para um cenário em que o Ártico caminha, em um horizonte de décadas, para ser navegável durante a maior parte do ano. O recuo contínuo do gelo marinho está transformando rotas que antes eram sazonais em corredores comerciais viáveis, reduzindo de forma drástica as distâncias entre Ásia, Europa e América do Norte.

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Hoje, essa vantagem é capitalizada sobretudo pela Rússia, com a Rota Marítima do Norte, e pela China, que se apresenta como “potência quase ártica” e investe em portos, quebra-gelos e acordos logísticos. Para os Estados Unidos, que chegam tarde a esse tabuleiro, a Groenlândia representa o atalho perfeito: um enclave situado entre o Atlântico e o Ártico, capaz de abrigar portos de águas profundas, bases aéreas e nós logísticos a partir dos quais compensar a vantagem russo-chinesa. Visto assim, mais do que uma mina, a Groenlândia é um porto avançado, uma peça a partir da qual se poderá influenciar o comércio global do século 21 e o controle de rotas que, pela primeira vez na história moderna, deixarão de estar fechadas pelo gelo.

O paradoxo final é que todo esse embate gira em torno de um território diminuto de menos de 60.000 habitantes, em sua maioria contrário a se integrar aos EUA e favorável, no melhor dos casos, a uma independência lenta e cautelosa. Ainda assim, seu valor simbólico e estratégico é desproporcional. A Groenlândia condensa a transição para um mundo em que o degelo reconfigura mapas, os minerais críticos redefinem dependências e as alianças se tensionam até o limite.

Para Trump, é uma fonte de impacto político, dinheiro potencial e demolição da velha ordem. Para a Europa, possivelmente a prova de que a geografia volta a se impor à lei. E, para o sistema internacional, o aviso de que o Ártico já não é uma borda remota do planeta, mas um de seus novos centros de gravidade.

Imagem | The National Guard, Roderick Eime

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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