Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) identificaram resíduos de sertralina — um dos antidepressivos mais prescritos do país — no cérebro de tubarões que vivem na costa fluminense. A descoberta chama atenção: como um remédio desenvolvido para tratar seres humanos consegue chegar até um dos maiores predadores marinhos do planeta?
Descoberta foi feita na costa do Rio de Janeiro
Segundo os pesquisadores do Projeto EcoShark, coordenado pela professora Mariana Batha Alonso, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ, amostras coletadas de tubarões-martelo das espécies Sphyrna lewini e Sphyrna zygaena revelaram a presença de sertralina em tecidos cerebrais dos animais.
Ambas as espécies estão classificadas como criticamente ameaçadas de extinção. Os exemplares analisados foram capturados acidentalmente por pescadores em áreas próximas ao Recreio dos Bandeirantes, Barra da Tijuca e Copacabana, em uma parceria entre cientistas e comunidades pesqueiras locais.
Embora o estudo ainda esteja em processo de publicação científica, os resultados já foram apresentados no ambiente acadêmico da UFRJ.
Como um antidepressivo chega ao oceano?
A rota percorrida pelo medicamento é mais simples do que parece. Após ser consumida, a sertralina é metabolizada pelo organismo humano. Parte da substância, porém, é eliminada pela urina e segue para os sistemas de esgoto.
O problema é que as estações convencionais de tratamento não foram projetadas para remover completamente compostos farmacêuticos. Elas conseguem eliminar matéria orgânica, microrganismos e parte dos poluentes tradicionais, mas muitos medicamentos passam pelo processo praticamente intactos. Por isso, resíduos de antidepressivos, antibióticos, analgésicos e outros fármacos acabam chegando aos rios, lagoas e oceanos.
Por que os tubarões acumulam essas substâncias?
Os tubarões são predadores e ocupam o topo da cadeia alimentar marinha. Por isso, ao longo da vida, eles acumulam contaminantes presentes nos organismos que servem de alimento. Esse fenômeno é conhecido na biologia como bioacumulação.
Peixes menores e invertebrados absorvem substâncias presentes na água – esses organismos, por sua vez, são consumidos por predadores maiores, que acabam concentrando quantidades ainda maiores dos contaminantes.
No caso da sertralina, cientistas acreditam que sua afinidade por tecidos ricos em gordura e pelo sistema nervoso ajuda a explicar sua presença no cérebro dos animais.
Foto de capa: Shutterstock
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