Plano da Alemanha para salvar o carro elétrico na Europa pode ter efeito colateral inesperado e fortalecer a China

  • Berlim quer relançar mercado de eletricidade a partir de 2026, após desaceleração em 2023;

  • Análise da Deloitte alerta para efeito colateral incômodo para a Europa.

Imagem | Volkswagen
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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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A Alemanha está preparando o retorno dos subsídios para a compra de carros elétricos, após a interrupção abrupta no final de 2023, imediatamente perceptível nos registros. Agora, o governo planeja mobilizar 3 bilhões de euros a partir de 2026 para reativar um mercado-chave tanto em termos ambientais quanto industriais.

O problema é que esse dinheiro público pode não ir exatamente para onde Berlim deseja. Segundo uma análise da Deloitte, o novo programa pode acabar financiando veículos importados da China em larga escala, por um motivo muito simples: a Europa não produz carros elétricos suficientes para absorver o aumento da demanda que os subsídios causarão.

A Alemanha impulsiona a demanda, mas a Europa não consegue produzir tantos carros elétricos.

A Deloitte estima que "o novo incentivo permitiria a venda de até 180 mil carros elétricos adicionais por ano na Alemanha". Se o programa for mantido, o fundo seria suficiente para colocar cerca de 750 mil carros elétricos a mais nas ruas até 2030. Esses são números impressionantes, mesmo para o maior mercado automobilístico da Europa.

O problema, segundo a consultoria, é que a capacidade de produção europeia não será suficiente no curto prazo para suprir esse pico artificial de demanda. Num mercado global, isso abre espaço para que outros fabricantes preencham a lacuna. Hoje, aqueles que possuem capacidade ociosa, custos competitivos e cadeias de suprimentos prontas para reagir rapidamente são os fabricantes chineses.

O especialista Harald Prff alerta que "para realmente promover a indústria automobilística europeia, é preciso definir critérios de conteúdo local para não correr o risco de subsidiar veículos importados da China com o dinheiro dos contribuintes". Aqui, por "conteúdo local", ele se refere à porcentagem do valor do carro que é gerada na Europa e à porcentagem que é importada.

No atual plano alemão, esses critérios ainda não existem. O programa oferece auxílio para a compra ou leasing de veículos elétricos e híbridos plug-in, destinado a famílias com renda de até 80 mil euros por ano, mais 5 mil euros adicionais por filho (até dois). No momento, porém, não há distinção entre um carro fabricado na Europa e um produzido no exterior.

Carros

Berlim promete filtros... para depois

O governo alemão admite o risco, mas está avançando com cautela. O Ministério competente está trabalhando para introduzir critérios que estejam em conformidade com as normas europeias e evitem conflitos legais. A intenção é incorporá-los ao programa "o mais rápido possível", embora, no momento, não haja datas ou regras específicas definidas.

Essa diferença de tempo é crucial: durante esse período, os modelos importados poderiam se beneficiar integralmente do auxílio, justamente quando os fabricantes chineses estão acumulando excesso de capacidade e precisam exportar para equilibrar a balança. O contraste com as medidas que outros países europeus estão tomando para proteger sua indústria é evidente.

França e Espanha já trilharam outro caminho

Carro

Na França, por exemplo, o "título verde" foi reformulado para introduzir uma pontuação ambiental que leva em consideração a pegada de carbono do carro, desde a fabricação até a entrega. Sem vetar explicitamente nenhum país, o sistema favorece a produção europeia e exclui muitos modelos fabricados na China do auxílio.

A Espanha também está caminhando nessa direção. O futuro Plano Auto 2026+ visa uma abordagem mais industrial, ligada não apenas à eletrificação, mas também ao fortalecimento da cadeia de valor europeia. A ideia é evitar que o auxílio público se limite a estimular as vendas sem um impacto real no tecido produtivo.

O debate alemão reflete uma preocupação sentida no resto da Europa: acelerar a adoção de carros elétricos exige auxílio robusto, rápido e direto. Proteger a soberania industrial, por outro lado, requer tempo, fábricas, baterias e cadeias de suprimentos próprias. Fazer as duas coisas ao mesmo tempo continua sendo o grande desafio pendente.

Se Berlim não ajustar o desenho do programa, o resultado poderá ser paradoxal: usar dinheiro público europeu para fortalecer a indústria elétrica de outros países. A transição será mais rápida, sim, mas com um custo industrial que a Europa ainda não deixou claro se está disposta a assumir.

Imagens | Volkswagen, Audi, Peugeot

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