No complexo tabuleiro da tecnologia global, o poder não é medido apenas em linhas de código, mas na capacidade de dominar elementos químicos que, até pouco tempo atrás, passavam despercebidos. É aí que entra o gálio, um metal prateado e maleável que, como reporta o Wall Street Journal, tem a propriedade quase mágica de se liquefazer com o simples calor da palma da mão.
No entanto, por trás dessa curiosidade física esconde-se o sistema nervoso da defesa moderna: ao contrário do silício, o gálio suporta voltagens extremas e resiste ao calor sem pestanejar, o que o torna um material insubstituível para radares militares, satélites e sistemas de orientação de mísseis.
Por muitas décadas, o mundo dependeu de um único fornecedor. Hoje, em uma reviravolta digna da Guerra Fria, os EUA e seus aliados decidiram que a era da complacência chegou ao fim. O plano é tão ambicioso quanto inusitado: extrair o tesouro tecnológico dos resíduos industriais, do chamado “barro vermelho”.
O mercado como arma de guerra
A crise atual não é um acidente da cadeia de suprimentos, mas sim uma estratégia de estado. Segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês), a China aplicou durante anos uma tática clássica: inundar o mercado com preços artificialmente baixos para sufocar qualquer tentativa de mineração no Ocidente. Uma vez que conquistou o monopólio — controlando 99% do gálio refinado em 2025 —, Pequim começou a fechar a torneira.
Na reportagem do Wall Street Journal, eles lembram que, em 2023, a China impôs controles de exportação e, pouco depois, um veto total aos envios para os EUA. Embora a proibição tenha sido suspensa temporariamente, o estrago já estava feito: o preço do gálio fora da China triplicou, atingindo um recorde histórico de 1.572 dólares por quilo em janeiro passado, segundo informa o site AlCircle. Para o Pentágono, que em seus documentos oficiais recuperou o termo histórico de “Departamento de Guerra”, isso já não é mais uma questão comercial, mas de sobrevivência nacional.
O triângulo do gálio
Para romper esse cerco, Washington deixou de olhar para as minas convencionais e passou a focar nas chaminés das refinarias. A estratégia se desenvolve em um triângulo industrial que começa na Austrália. Lá, na refinaria de Wagerup, a gigante Alcoa se aliou ao Japão e aos EUA para filtrar o gálio diretamente do processamento da bauxita. O objetivo, detalhado pelo Wall Street Journal, é capturar 10% da demanda global sem abrir uma única mina nova.
O esforço atravessa o Pacífico até as margens do Mississippi, na Louisiana. A planta de Gramercy recebeu um aporte de 150 milhões de dólares do Pentágono para processar suas montanhas de “barro vermelho”, um resíduo da produção de alumínio que agora vale seu peso em ouro. O Financial Times destaca a ambição do projeto: essa única planta pretende cobrir toda a demanda de gálio dos Estados Unidos. O triângulo se fecha no Tennessee, onde a sul-coreana Korea Zinc lidera um investimento bilionário para recuperar o metal estratégico dos resíduos do refino de zinco.
Um mercado blindado contra Pequim?
Apesar da chuva de milhões, o caminho está cheio de armadilhas econômicas. O professor Ian Lange, da Escola de Minas do Colorado, alerta no Wall Street Journal que o mercado do gálio é “perigosamente pequeno”. Se o Ocidente aumentar a produção rápido demais, os preços podem entrar em colapso, fazendo com que as novas plantas deixem de ser rentáveis antes mesmo de começar.
Para evitar esse cenário, a Casa Branca implementou uma rede de segurança financeira. Trata-se do Project Vault, uma reserva estratégica de 12 bilhões de dólares, projetada para garantir a compra desses minerais e proteger gigantes como General Motors e Google da volatilidade. Essa medida se alinha à proposta do CSIS de criar um “mercado âncora”, um mecanismo no qual os aliados do G7 estabelecem cotas obrigatórias de compra, blindando a produção ocidental contra o dumping chinês.
O futuro é escrito átomo por átomo. Já não basta projetar o melhor software; agora é imperativo possuir a matéria que o faz funcionar. Entre o “barro vermelho” da Louisiana e as refinarias da Austrália, o Ocidente tenta demonstrar que pode recuperar sua soberania tecnológica. Enquanto Pequim mantiver sua capacidade de derrubar preços à vontade, esses projetos dependerão do suporte vital do estado. A grande batalha pelo gálio é, em última instância, uma disputa de resistência para ver quem sustenta o fornecimento dos chips que vão mover o mundo de amanhã.
Imagem | AndrewDaGamer e Freepik
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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