Em 1879, um carteiro começou a recolher as pedras que apareciam em seu caminho: 33 anos depois, seu jardim abrigava um palácio colossal

Ou como o excêntrico da cidade acabou criando um monumento nacional

Palais Idéal
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
victor-bianchin

Victor Bianchin

Redator
victor-bianchin

Victor Bianchin

Redator

Victor Bianchin é jornalista.

2385 publicaciones de Victor Bianchin

A história de Ferdinand Cheval tem algo de fábula: durante uma jornada de trabalho aparentemente rotineira, esse carteiro francês tropeçou em uma pedra e resolveu guardá-la. A partir daí, acabou dedicando boa parte de sua vida a transformar as pedras encontradas durante seus percursos em um palácio. O extraordinário não é apenas o resultado, mas também a duração daquela obsessão: começou em 1879 e ele só considerou sua obra concluída 33 anos depois.

Em abril de 1879, Ferdinand Cheval tinha 43 anos e trabalhava como carteiro rural nos arredores de Hauterives, uma pequena cidade do departamento francês de Drôme. Durante um de seus percursos, tropeçou em uma pedra cuja forma lhe pareceu tão estranha que decidiu recolhê-la e levá-la consigo.

Ele não sabia naquele momento, mas acabaria chamando-a de sua “pedra de tropeço”. Aquele objeto aparentemente insignificante despertou uma velha fantasia que rondava sua cabeça havia anos: construir um dia um palácio surgido de sua própria imaginação.

Palacio2

Cheval vinha de uma família humilde de camponeses, havia trabalhado como padeiro e não tinha formação como arquiteto, escultor ou pedreiro. Seu ofício, no entanto, lhe proporcionava algo fundamental: percorria diariamente dezenas de quilômetros pelas estradas da região. Assim, ele começou a prestar atenção nas pedras que encontrava pelo caminho.

Primeiro, ele as guardava ou marcava durante o trajeto e depois voltava para buscá-las com um carrinho de mão, transformando pouco a pouco seu percurso postal em uma gigantesca pedreira involuntária.

Entregando cartas e construindo um palácio

Depois de terminar suas jornadas, Cheval trabalhava em seu jardim, muitas vezes à noite e iluminando-se com uma lamparina a óleo. O homem utilizou pedras, arenito, molassa e outros materiais que foi reunindo e montando sem partir de um projeto arquitetônico convencional.

Durante anos, repetiu praticamente o mesmo ciclo: caminhar, entregar correspondências, localizar materiais, transportá-los até sua casa e continuar construindo quando, para os demais, a jornada de trabalho já havia terminado.

Palacio3

O resultado final não se parece com um edifício tradicional porque Cheval também não pretendia construir um. O chamado Palais Idéal mistura templos hindus, castelos medievais, grutas, animais, figuras mitológicas e elementos que lembram até chalés suíços, com uma arquitetura difícil de encaixar em uma única categoria.

Parte daquela imaginação vinha justamente de sua profissão: os cartões-postais, revistas e publicações ilustradas que passavam por suas mãos mostravam lugares e arquiteturas que provavelmente ele nunca teria podido conhecer pessoalmente.

Palacio4

A dimensão da história aparece quando colocamos as duas datas lado a lado. Cheval começou aquela aventura com uma pedra encontrada em 1879 e continuou trabalhando durante 33 anos, até considerar seu Palais Idéal concluído em 1912, quando tinha 76 anos.

O que havia começado como a extravagância de um carteiro recolhendo pedras durante seus percursos acabou ocupando seu jardim em Hauterives: um palácio completo erguido essencialmente por um único homem, pedra por pedra e durante mais de três décadas.

Palacio5

Começar de novo

Cheval queria ser enterrado dentro do próprio Palais Idéal, mas a legislação francesa não permitia realizar esse desejo. Sua resposta foi coerente com tudo o que havia feito até então: se não podia transformar o palácio em seu túmulo, construiria uma nova obra no cemitério de Hauterives.

A partir de 1914, dedicou outros oito anos a erguer o chamado Tombeau du silence et du repos sans fin (Túmulo do silêncio e do descanso sem fim), que terminou quando tinha por volta de 86 anos e onde finalmente foi enterrado após morrer em 1924.

Durante boa parte da construção, os moradores observavam com incredulidade e até zombaria o carteiro que transportava pedras em um carrinho de mão. Mas, décadas depois, sua obra começou a fascinar artistas e intelectuais. André Breton, Pablo Picasso, Marcel Duchamp, Paul Éluard e outros nomes ligados às vanguardas ajudaram a transformar a percepção sobre o Palais Idéal, que acabou também associado à arte naïf e à art brut.

O reconhecimento definitivo chegou em 1969, quando o escritor francês André Malraux defendeu o tombamento da obra como Monumento Histórico da França: exatamente 90 anos depois de um carteiro tropeçar em uma pedra e decidir não deixá-la jogada no caminho.

Imagem | Jeanne Menjoulet (Flickr), Benoît Prieur (Wikimedia)

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


Inicio