Existe apenas uma montanha importante no mundo que nunca registrou uma tentativa séria de ascensão, e ela fica na China: o Kailash

Enquanto o Everest enfrenta filas quilométricas, esta montanha de 6.638 metros continua virgem: ninguém jamais tentou conquistá-la de verdade.

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Nayanne Louise

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Nayanne Louise

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Jornalista pela Universidade Estácio de Sá - UNESA. Longa experiência em comunicação de grandes marcas, especialista em SEO, entusiasta da ciência, tecnologia, meio ambiente e curiosidades.


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Já vi lojas da Primark e da Zara em pleno dia 7 de janeiro — data que marca o início tradicional das grandes liquidações de inverno na Europa — com menos movimento do que a fila para subir o Everest. Por mais surreal que pareça, em pleno auge da obsessão por conquistar picos lendários, riscá-los da lista e postar a foto triunfal no Instagram, ainda restam montanhas gigantescas que jamais foram coroadas no coração do montanhismo mundial: o Himalaia.

O ponto culminante de grande altitude que nunca foi escalado é o Kailash, um pico de 6.638 metros localizado na prefeitura de Ngari. Ele fica na cordilheira Gangdise, no Himalaia, na porção ocidental do planalto tibetano, bem próximo à tríplice fronteira entre China, Índia e Nepal.

É nessa região que nascem quatro dos rios mais importantes da Ásia: o Indo, o Bramaputra, o Sutlej e o Karnali. Eles correm em quatro direções completamente diferentes, como se o local tivesse uma aura mágica. Para os apaixonados por alpinismo, o cenário parece um convite irresistível — e, mesmo assim, não existe nenhum registro histórico de ascensão bem-sucedida até o seu topo.

E a explicação não é a falta de tecnologia ou preparo técnico para chegar ao cume: o motivo é que muitos o consideram o axis mundi, o centro espiritual do universo. O Kailash é um local sagrado para quatro tradições religiosas: o hinduísmo, o budismo, o jainismo e o bön. Para todas elas, pisar nas encostas da montanha sagrada é considerado uma profanação.

Para consolidar essa proteção, o governo chinês proibiu oficialmente qualquer escalada na montanha, preservando um valor religioso que transcende a própria cultura local.

Ao longo da história, houve pouquíssimas tentativas reais de aproximação. Em 1926, os exploradores britânicos Hugh Ruttledge e R.C. Wilson desistiram da expedição devido ao acúmulo extremo de neve. Uma década depois, em 1936, Herbert Tichy explorou os arredores, mas sequer tentou o ataque ao cume. Desde então, outros montanhistas estrangeiros solicitaram autorizações oficiais, recebendo negativas categóricas.

Lendas do alpinismo, como Edmund Hillary — pioneiro a chegar ao topo do Everest — e Reinhold Messner, o primeiro a escalar todas as 14 montanhas com mais de 8.000 metros do planeta, sempre rejeitaram a ideia de subir o Kailash em sinal de respeito. Na verdade, o italiano Messner chegou a receber a autorização das autoridades em meados dos anos 1980, mas recusou a oportunidade: "Se conquistarmos esta montanha, conquistaremos algo na alma das pessoas. Sugiro que vão e escalem algo um pouco mais difícil".

O Kailash não é a única montanha virgem do planeta. Existe um pico ainda mais alto que jamais foi coroado: o Gangkhar Puensum, no Butão, com impressionantes 7.570 metros de altitude. Trata-se da montanha mais alta do mundo sem nenhuma ascensão registrada.

Diferente do Kailash, o colosso do Butão chegou a receber pelo menos quatro expedições sérias durante a década de 1980 — a maioria britânica. Contudo, o governo local encerrou qualquer possibilidade de novas tentativas.

Desde 1994, o Butão proíbe por lei a escalada de qualquer pico acima de 6.000 metros por motivos espirituais. Em 2003, o país deu um passo ainda mais radical e baniu qualquer modalidade de montanhismo em seu território. Trata-se de um veto ainda mais rigoroso e sistemático do que o do Kailash: no Butão, as montanhas são, literalmente, intocáveis.

Imagem de capa | Jean-Marie Hullot

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