Os moradores do condado de Solano County, a noroeste da região da baía de San Francisco, perceberam que alguém vinha comprando secretamente uma grande quantidade de terras agrícolas. De fato, até mesmo o Exército questionou quem estava comprando todas as terras ao redor de uma de suas bases militares localizadas nesse condado.
Depois de muitas investigações, descobriu-se que, por trás dessas compras, havia um grupo de bilionários do Silicon Valley com um plano tão utópico quanto polêmico: erguer uma cidade inteira do zero no deserto.
Tudo começou em 2018, quando uma empresa chamada Flannery Associates passou a adquirir, pouco a pouco, parcelas agrícolas por todo o condado. Os proprietários recebiam valores muito acima do preço de mercado, mas ninguém sabia quem estava por trás das compras. O próprio condado detectou que uma única empresa estava comprando grandes quantidades de terra e pediu explicações.
Foi apenas em 2023 que veio à tona que a Flannery era, na verdade, o braço imobiliário da California Forever e que os investidores vinham comprando secretamente terras em Solano desde 2018, até finalmente anunciar seu verdadeiro objetivo: construir ali uma nova cidade. Naquele momento, eles já somavam cerca de 24.281 hectares e entre 800 e 900 milhões de dólares investidos.
Obstáculos
O nome que aparece à frente é Jan Sramek, um ex-operador do Goldman Sachs de origem tcheca. Mas, por trás do projeto, estão investidores do Silicon Valley como Laurene Powell Jobs, viúva de Steve Jobs, Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn, e Marc Andreessen, investidor de capital de risco, além de Michael Moritz, ex-sócio da Sequoia Capital. A ideia inicial deles era construir uma cidade caminhável, nos moldes do West Village, em New York City, pensada para atrair trabalhadores de alta renda pressionados pela escassez de moradias no Silicon Valley.
O plano parecia viável no papel, mas dependia de algo que apenas os eleitores do condado de Solano County podiam conceder: alterar a lei “Iniciativa de Crescimento Ordenado” do condado, de 1984, conhecida como Medida A, que protege as terras agrícolas. Sem essa autorização dos cidadãos, não havia cidade possível.
Foi aí que começaram os problemas. Solano não é uma região com abundância de água e os moradores logo perceberam o risco de desabastecimento caso uma nova cidade fosse construída, elevando o consumo. O congressista John Garamendi, uma das vozes mais críticas ao projeto, afirmou: “Desde o início, sustentei que o projeto proposto era apenas uma quimera, não um plano real. Acelerar o processo sem uma revisão ambiental e comunitária rigorosa teria sido desastroso para os atuais moradores do condado de Solano”, criticando o fato de que o projeto não levava em conta que se tratava de um local sem água, sem saneamento e sem estradas.
A empresa tentou impulsionar uma campanha para conquistar o voto da população em 2024, que acabou se tornando uma das mais caras da história do condado, e ainda assim não foi suficiente. A votação foi retirada e o projeto ficou, por ora, congelado.
A guinada para o estaleiro
Depois desse golpe na continuidade do projeto, a California Forever mudou sua estratégia. Em vez de uma cidade no meio do nada, a empresa agora vende um plano de industrialização com conexões com o Exército: um estaleiro para construir embarcações equipadas com a tecnologia mais recente em defesa naval, próximo à base militar de Travis Air Force Base.
O novo plano se apoia em dois eixos. Por um lado, a Solano Foundry, um parque industrial de cerca de 850 hectares, localizado a pouco mais de uma hora de San Francisco, que pretende se tornar um polo fabril para projetos de robótica e materializar toda a pesquisa e desenvolvimento do Silicon Valley.
Por outro, o Solano Shipyard, um complexo de aproximadamente 3.035 hectares projetado para abrigar vários estaleiros dedicados à construção naval militar e civil. Com essa mudança de rumo, a ideia é claramente atrair primeiro o setor industrial e a geração de empregos para depois atender à demanda habitacional dos trabalhadores construindo a cidade que foi planejada e anunciada no início.
Sindicatos, Donald Trump e o que ainda falta decidir
Para conquistar Solano County desta vez, a California Forever jogou outra carta: os sindicatos. A empresa firmou com o conselho de sindicatos da construção civil e com o sindicato dos carpinteiros um acordo trabalhista para os próximos 40 anos sobre os 28.328 hectares de terra que possui, comprometendo-se a contratar seus filiados na construção dessa cidade.
O discurso também se apoia na política nacional, e a California Forever defende que erguer estaleiros na costa oeste é necessário para fazer frente à China. Além disso, a empresa buscou enquadrar o projeto na SHIPS Act, a lei que Trump impulsionou para reindustrializar a indústria naval dos EUA.
Um relatório encomendado pelo Bay Area Council estima cerca de 215 bilhões de dólares em investimento privado e a geração de 530 mil empregos nesse plano de industrialização da região. No entanto, o estaleiro ainda não recebeu autorização do condado e o terreno escolhido fica ao lado da área protegida de Suisun Marsh, uma das maiores zonas úmidas de água salobra da costa oeste. A água, mais uma vez, decidirá se esse projeto permanecerá apenas uma promessa ou se se tornará algo real.
Imagem | Unsplash (Daniel J. Schwarz, Charlie Houston)
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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