O maior cemitério de navios já visto: esta praia na Índia virou destino o final de gigantes

Na costa da Índia, uma praia recebe centenas de embarcações para serem desmontadas, em uma indústria bilionária marcada por polêmicas trabalhistas e ambientais

Alang
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Você já se perguntou onde vão parar os navios antigos e usados? A resposta está em uma faixa de areia no estado de Gujarat, no oeste da Índia. Desde a década de 1980, a praia de Alang se tornou o maior centro de desmanche naval do mundo, recebendo petroleiros, cargueiros e navios de cruzeiro que chegaram ao fim de sua vida útil. O local é responsável por reciclar milhões de toneladas de aço todos os anos, mas também é muito criticado por causa das condições de trabalho e dos impactos sociais e ambientais associados à atividade.

Alang se tornou o maior desmanche naval do mundo

Ferro velho improvisado em Alang Grande parte dos equipamentos e materiais retirados das embarcações é revendida em lojas improvisadas espalhadas por Alang

Quando um navio deixa de ser economicamente viável, ele nem sempre segue para um porto ou museu. Em muitos casos, seu destino é Alang, uma pequena cidade costeira da Índia que abriga o maior polo de reciclagem naval do mundo. O processo começa durante a maré alta, quando as embarcações são conduzidas intencionalmente até a praia para encalhar na areia. Assim que a maré recua, milhares de trabalhadores iniciam um enorme trabalho de desmontagem. Peça por peça, o aço, os motores, os cabos, os equipamentos e até móveis são retirados e enviados para reutilização ou reciclagem.

Foram essas condições naturais favoráveis, mão de obra abundante e infraestrutura especializada que transformou Alang em referência mundial no setor. Desde o início das operações, em 1983, mais de 8 mil embarcações já passaram pelo local. Em seus anos de maior atividade, a região chegou a responder por cerca de um terço de todos os navios reciclados no mundo.

Além do aço recuperado, praticamente tudo o que existe dentro das embarcações ganha uma nova utilidade. Portas, janelas, louças, equipamentos industriais, geradores, correntes e até botes salva-vidas são revendidos em várias lojas espalhadas pela região, abastecendo os setores da construção civil e da indústria.

O outro lado de Alang: trabalho precário e críticas ao modelo de reciclagem

praia de Alang Navios "aposentados" são conduzidos intencionalmente até a praia de Alang, onde começam a ser desmontados peça por peça para dar origem a toneladas de aço e outros materiais reutilizáveis

Apesar da importância econômica, Alang também se tornou símbolo de um dos aspectos mais controversos da indústria naval mundial. Durante anos, armadores de diversos países enviaram embarcações para a costa indiana porque o desmanche custava bem mais barato do valor cobrado em estaleiros da Europa e de outras regiões. Esse custo reduzido estava diretamente ligado à mão de obra barata e às condições de trabalho precárias. Milhares de trabalhadores desmontaram enormes navios praticamente de forma manual, enfrentando jornadas exaustivas, pouca proteção e contato direto com materiais perigosos, como amianto e resíduos de combustíveis.

Além dos riscos de acidentes, organizações internacionais também denunciaram por anos falhas nas normas trabalhistas e ambientais da região. Vazamentos de substâncias tóxicas, descarte inadequado de resíduos e dificuldades no atendimento de emergências fizeram Alang receber muitas críticas.

Nos últimos anos, no entanto, parte desse cenário começou a mudar. A Índia passou a adotar normas internacionais de reciclagem naval, exigindo investimentos em infraestrutura, controle da poluição, treinamento dos trabalhadores e procedimentos de segurança mais rigorosos. As mudanças tornaram os estaleiros mais seguros e ambientalmente mais adequados, mas também aumentaram os custos da atividade.

Ao mesmo tempo, fatores econômicos globais reduziram o número de navios enviados para Alang. A alta dos fretes marítimos após a pandemia e os conflitos internacionais fizeram muitas empresas prolongarem a vida útil de suas embarcações, diminuindo a oferta de navios para desmanche. Como consequência, a cidade recebeu um impacto direto na economia local: estaleiros operam abaixo da capacidade, milhares de trabalhadores perderam espaço no mercado e o comércio que dependia da reciclagem naval também passou a sentir os efeitos da desaceleração.

Hoje, Alang continua sendo um dos maiores centros de reciclagem de navios do planeta. Mas a praia que ficou conhecida como o "cemitério dos gigantes dos mares" também carrega o desafio de equilibrar desenvolvimento econômico, proteção ambiental e condições dignas de trabalho.


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