O grande paradoxo da guerra: EUA ignoraram apelos da Ucrânia à Rússia e agora precisam deles no Irã

Experiência adquirida nos céus da Ucrânia tornou-se um dos ativos estratégicos mais valiosos do momento

Imagem | ArmyInform
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PH Mota

Redator
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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Nos últimos anos, algo curioso aconteceu no mundo militar: os drones mais influentes no campo de batalha não são os mais avançados, mas sim alguns dos mais baratos. Pequenas aeronaves com asas triangulares e motores simples, inspiradas em projetos iranianos, acabaram realizando milhares de ataques em diversos conflitos, obrigando exércitos inteiros a repensar a defesa de seus céus. Paradoxalmente, interceptá-los muitas vezes custa muito mais do que fabricá-los.

E os Estados Unidos perceberam isso tarde demais.

A guerra que mudou a batalha

A invasão russa da Ucrânia inaugurou uma nova fase na guerra moderna, marcada pelo uso massivo de drones baratos capazes de sobrecarregar as defesas aéreas tradicionais. Desde 2022, as forças russas lançaram dezenas de milhares de drones Shahed (de origem iraniana) contra cidades e infraestrutura ucranianas, forçando Kiev a desenvolver uma defesa improvisada, porém cada vez mais sofisticada.

Essa experiência, adquirida sob condições extremas e bombardeio constante, transformou o país no laboratório mais avançado do mundo para o combate a esse tipo de arma. O que começou como uma luta desesperada para proteger seu espaço aéreo acabou gerando novas táticas, sistemas de guerra eletrônica e drones interceptores projetados especificamente para destruir essas munições de baixo custo e longo alcance.

A arma que está mudando a economia da guerra

O sucesso dos drones Shahed se baseia em uma lógica brutalmente simples: seu preço. Cada drone pode custar entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, uma quantia insignificante comparada aos sistemas projetados para interceptá-los. Durante anos, a Ucrânia, assim como outros países, foi obrigada a usar mísseis antiaéreos que podem custar centenas de milhares ou até milhões de dólares para abater um único drone.

Essa assimetria transforma cada interceptação em derrota econômica, mesmo quando o alvo é destruído. Para resolver o problema, a Ucrânia começou a desenvolver soluções mais baratas: drones interceptadores que perseguem e colidem com drones Shahed, unidades móveis com metralhadoras, sistemas de interferência eletrônica e redes de vigilância adaptadas para detectar esses dispositivos antes que alcancem seus alvos.

Guerra

Grande paradoxo estratégico

Aqui reside uma das ironias mais marcantes do conflito atual. Durante anos, a Ucrânia solicitou mais assistência para se defender dos ataques de drones iranianos utilizados pela Rússia e desenvolveu tecnologia específica para combatê-los, visto que poucos (ou ninguém) lhe davam atenção. Sabemos agora que o país ofereceu essa expertise e esses sistemas aos Estados Unidos em reuniões realizadas na Casa Branca, onde apresentou propostas para a criação de redes de defesa antidrone no Oriente Médio.

A oferta foi ignorada na época. Ironicamente, meses depois, após o início da guerra com o Irã e o lançamento de milhares de drones contra bases americanas e de seus aliados, Washington se viu obrigado a bater à porta de Kiev e pedir ajuda. De certa forma, o conflito inverteu os papéis: a força militar mais poderosa do mundo agora enfrenta o mesmo dilema que a Ucrânia tenta resolver há anos, defendendo suas posições contra enxames de drones baratos que exigem enormes somas para serem neutralizados.

O mundo clama por Kiev

Essa experiência acumulada tornou a Ucrânia um parceiro inesperadamente valioso para países que agora sofrem ataques semelhantes. Governos do Oriente Médio, da Europa e dos Estados Unidos começaram a solicitar aconselhamento, tecnologia e treinamento para se defenderem contra drones iranianos.

O próprio Zelensky confirmou que seu governo recebeu inúmeros pedidos para compartilhar conhecimento sobre interceptores, guerra eletrônica e táticas de defesa aérea adaptadas a esse tipo de ameaça. Kiev respondeu enviando especialistas e sistemas para algumas bases americanas na região, enquanto tenta equilibrar essa assistência com suas próprias necessidades de defesa contra a Rússia.

Drone

Do laboratório à potência exportadora

A guerra também transformou a indústria de defesa da Ucrânia. Empresas locais agora produzem milhares de drones interceptores por mês e desenvolveram modelos capazes de rastrear e destruir mísseis Shahed a uma fração do custo dos mísseis tradicionais.

Alguns fabricantes afirmam que podem produzir dezenas de milhares de unidades por mês, o que despertou enorme interesse internacional. Os países do Golfo, especialmente a Arábia Saudita, iniciaram negociações para adquirir interceptores e tecnologia ucranianos, buscando soluções mais sustentáveis ​​do que depender exclusivamente de sistemas de defesa aérea ocidentais extremamente caros.

Nova corrida global: defesa contra drones

A ascensão dessas tecnologias reflete uma mudança, inimaginável até recentemente, na lógica militar contemporânea. As grandes potências descobriram que sistemas projetados para interceptar mísseis balísticos ou caças não são necessariamente eficazes contra enxames de drones baratos e produzidos em massa.

No Golfo Pérsico, Israel e os estados árabes tiveram que gastar grandes quantidades de mísseis Patriot, THAAD e Domo de Ferro para deter ataques relativamente baratos. Essa dinâmica desencadeou uma corrida global para desenvolver soluções mais econômicas, desde drones interceptores até sistemas automatizados de defesa aérea capazes de neutralizar ameaças de grande escala.

Lição global

O que começou como uma guerra regional no Leste Europeu acabou redefinindo a forma como muitos países entendem a defesa aérea. A Ucrânia, que durante anos lutou praticamente sozinha contra ataques massivos de drones iranianos operados pela Rússia, tornou-se inesperadamente a referência global no combate a essa ameaça.

O paradoxo é simples e óbvio, pois a tecnologia e as táticas desenvolvidas por um país que luta para sobreviver tornaram-se essenciais para a proteção de algumas das potências militares mais avançadas do planeta. Na nova guerra de drones que se estende da Europa ao Oriente Médio, a experiência acumulada nos céus da Ucrânia tornou-se um dos ativos estratégicos mais valiosos do momento.

Tanto que inverteu os papéis até mesmo com os Estados Unidos.

Imagem | ArmyInform, Lycksele-Nord, Ministério do Interior da Ucrânia

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