Enquanto China nos distraía com carros elétricos, preparava bomba para a Europa: eliminar carros a gasolina baratos que marcas tradicionais não vendem

  • Desde 2020, 76% dos carros exportados pela China são a gasolina;

  • Previsão é que esse número ultrapasse os 4 milhões em 2025 e chegue a 6 milhões.

Imagem | MG
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PH Mota

Redator
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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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A ameaça chinesa não se limita aos carros elétricos: seus veículos a gasolina também estão inundando os mercados internacionais, incluindo o europeu. Desde 2020, 76% das exportações das empresas da República Popular da China correspondem a modelos a combustão, e o crescimento não parou por aí: nesses cinco anos, o número de unidades passou de um milhão para os 6,5 milhões estimados para o final de 2025.

A China impulsionou o mercado de carros elétricos nos últimos anos, mas ainda possui uma enorme capacidade de produção de veículos a combustão, e precisa encontrar uma saída para esses veículos. A solução encontrada foi vendê-los em massa em mercados que necessitam de carros baratos: na Europa. Na Espanha, por exemplo, a MG já figura entre as 10 marcas mais vendidas, principalmente graças ao seu modelo a gasolina mais vendido, o MG ZS.

Vender fora da China para sobreviver

Contando apenas  vendas internacionais de carros a gasolina fabricados na China, o país se tornou o maior exportador mundial de automóveis no ano passado. Isso se reflete em dados da indústria e do governo chineses, compilados em uma extensa reportagem da Reuters. Um relatório que alerta para uma ameaça ainda maior do que a dos carros elétricos.

Atualmente, metade dos carros vendidos na China são elétricos, com a BYD liderando o segmento. Nos últimos anos, o governo chinês tem promovido subsídios para veículos mecânicos com emissão zero, protegendo o surgimento de novas marcas que fabricam exclusivamente veículos híbridos plug-in. Isso permite que esses veículos sejam muito baratos, além de oferecerem incentivos para compras.

Segundo estimativas do Ministério da Indústria da China, as fábricas do país têm capacidade para produzir 20 milhões de carros elétricos e híbridos plug-in por ano. Mas, antes desse boom elétrico, a indústria automobilística na China era igualmente gigantesca: 30 milhões de carros a gasolina podiam sair das linhas de montagem de suas fábricas. Se uma fábrica produz abaixo de sua capacidade, ela perde dinheiro. A solução para evitar o colapso, portanto, passa pelas exportações.

Reuters, com dados da Automobility Reuters, com dados da Automobility

Mais de 4 milhões de carros a gasolina foram exportados até outubro. Isso é exatamente o que gigantes chineses tradicionais como a SAIC (à qual a MG pertence), a Baic e a Dongfeng estão fazendo. As vendas de suas marcas despencaram desde 2020. Por exemplo, as empresas da SAIC passaram de vender 1,4 milhão de carros a gasolina por ano na China para pouco mais de 430 mil em 2024.

Mas as exportações cresceram bastante. As vendas da SAIC nos mercados internacionais dispararam: no ano passado, a empresa assinou contratos para exportação de mais de um milhão de carros a combustão, enquanto em 2020 foram apenas cerca de 400 mil. A Dongfeng quadruplicou suas exportações em 2024 em comparação com o volume vendido fora da China cinco anos atrás.

Num mercado altamente competitivo, com muitos fabricantes, essa é a única solução possível. A consultoria AlixPartners aponta que as exportações de carros a gasolina devem chegar a 4,3 milhões de unidades entre janeiro e outubro. Espera-se que os veículos a combustão representem dois terços das exportações chinesas.

Fonte: Reuters, com dados da Automobility Fonte: Reuters, com dados da Automobility

Dos 10 maiores exportadores chineses, apenas dois exportam principalmente, ou exclusivamente, modelos híbridos plug-in: a BYD, que comercializa seus veículos elétricos e híbridos plug-in principalmente na Europa, e a Tesla, cuja fábrica em Xangai abastece o Velho Continente com o Tesla Model 3.

Ameaça para marcas ocidentais em mercados emergentes

Essa tendência irá além, com foco em mercados como América do Sul, América Central, África e Sudeste Asiático. Com sua presença crescendo exponencialmente, as estimativas indicam que as marcas chinesas poderão controlar 30% da indústria automotiva global até 2030. A maior ameaça para as marcas europeias, americanas e japonesas está nos mercados em expansão.

MG

As marcas Volkswagen, Stellantis e General Motors agora precisam competir com uma avalanche de carros elétricos chineses, mais baratos, porém com tecnologia mais moderna do que os modelos vendidos por essas empresas ocidentais nessas regiões. "A verdadeira batalha entre as montadoras chinesas e as tradicionais não está acontecendo na Europa ou nos EUA. Está acontecendo nos mercados emergentes", disse Felipe Muñoz, analista da JATO Dynamics, à Reuters.

O México também exemplifica bem essa ameaça às empresas ocidentais, na vanguarda das exportações chinesas, com uma participação de mercado de 14%. O país acaba de aumentar as tarifas de 20% para 50% sobre as marcas chinesas, após pressão dos EUA que ameaçava romper o importante acordo comercial para o México: 90% dos produtos que o país vende são provenientes dos EUA.

Os carros importados em território americano são isentos de tarifas. O motivo? Porque o país vizinho se torna uma porta de entrada para os americanos comprarem carros chineses baratos. As marcas chinesas não vendem nos EUA devido às tarifas de 100%.

Carros a gasolina da MG triunfam

MG

Para a UE, a grande ameaça da China são os carros elétricos, que estão anos à frente das empresas ocidentais: seus carros são tecnologicamente mais avançados e vendidos a preços muito competitivos, mesmo com tarifas alfandegárias. Mas há certos mercados onde as marcas chinesas estão lucrando muito com modelos a gasolina. Um exemplo é a Polônia: em dois anos, viu até 33 marcas chinesas se estabelecerem em seu mercado, vendendo principalmente produtos a combustão.

A MG, ressuscitada sob a égide da SAIC, fez uma forte entrada no Velho Continente, e, embora tenha veículos puramente elétricos, seus mais vendidos são os a gasolina ou híbridos. Em 2024, a MG vendeu 243,4 mil carros na Europa, um crescimento de 5,1% em comparação com o ano anterior. No Reino Unido, a antiga empresa britânica, agora chinesa, bateu recorde, com mais de 81,5 mil unidades entregues.

Na Espanha, a MG já figura entre as 10 marcas mais vendidas do mercado, com quase 42 mil carros emplacados entre janeiro e novembro. Seu crescimento este ano tem sido meteórico: vendeu 54% a mais do que em 2024. Em 2024, por sua vez, o aumento nas vendas em relação a 2023 foi de apenas 6%.

Outras empresas chinesas estão tentando conquistar um nicho no mercado espanhol com SUVs térmicos altamente equipados a preços muito competitivos. É o caso da Baic e da Livan, pertencente à Geely. A Omoda também oferece modelos térmicos e híbridos, sendo seu campeão de vendas o Omoda 5, que se destaca principalmente nas versões a gasolina e híbrida.

Imagens | MG

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