Há alguns dias, usuários do YouTube em Smart TVs começaram a perceber algo que muitos achavam ter deixado para trás para sempre: anúncios de 90 segundos, que não podiam ser pulados, no meio de vídeos de quarenta minutos. O YouTube havia prometido em março que os anúncios não puláveis durariam 30 segundos, mas o limite triplicou em questão de semanas.
A promessa e a realidade
No dia 2 de março, o YouTube publicou um comunicado no qual anunciava a chegada global de anúncios não puláveis de 30 segundos para quem assiste à plataforma em televisores conectados. Mais gente do que nunca usa o YouTube na sala de estar e, por isso, os anunciantes querem formatos que se pareçam com a televisão tradicional.
Apenas cinco semanas depois, a situação começa a mudar: no dia 7 de abril, vários usuários começaram a publicar no subreddit r/YouTube capturas de anúncios de 90 segundos, o triplo do máximo anunciado, que não podiam ser ignorados de forma alguma. Alguns veículos de comunicação repercutiram parte das reações dos espectadores, que iam da fúria à inevitável resignação.
A plataforma afirmou, nos últimos dias, que esses anúncios de 90 segundos não são intencionais e que está “investigando” o que ocorreu.
A mesma fonte publicou, em janeiro, uma pesquisa na qual 87% das mais de 8.600 pessoas entrevistadas afirmavam ter recebido anúncios não puláveis com mais de 30 segundos e quase um terço dizia já ter visto anúncios que ultrapassavam os dois minutos. Ironicamente, em 2017, o YouTube havia retirado os anúncios não puláveis de 30 segundos por considerá-los justamente “uma relíquia da televisão tradicional”.
Dinheiro sobrando
O YouTube gerou 40,4 bilhões de dólares em receitas publicitárias em 2025. Um valor que supera a soma combinada de Disney, NBC Universal, Paramount e Warner Bros. Discovery, que juntas arrecadaram 37,8 bilhões. A mesma empresa chegou a declarar o YouTube como “o novo rei de todas as mídias” ao estimar suas receitas totais em cerca de 62 bilhões de dólares por ano.
E não é apenas uma questão de volume de dinheiro: segundo a Nielsen, o YouTube respondeu, em dezembro de 2025, por 12,7% de todo o tempo de exibição de televisão nos EUA, frente aos 9% da Netflix. A diferença entre os dois aumentou nos últimos meses. Mais pessoas assistem ao YouTube em televisores do que em qualquer outra tela, e o sistema de IA que o Google utiliza para decidir qual formato de anúncio exibir (entre bumpers de 6 segundos, anúncios de 15 segundos e os novos de 30 segundos não puláveis) agora tem dados suficientes para determinar quando um espectador está confortável o bastante para tolerar uma pausa publicitária mais longa.
Quem quiser evitar os anúncios tem uma saída: YouTube Premium, a R$ 26,90 por mês. Não há nenhuma opção intermediária gratuita, nenhuma configuração que permita escolher anúncios mais curtos ou menos frequentes. Segundo o próprio Google, não existe nenhum ajuste para desativar o formato de 30 segundos sem uma assinatura paga.
A questão é que nem mesmo o Premium é mais como antes: alguns níveis do serviço incluem certos tipos de anúncios. É o mesmo padrão seguido pelos grandes serviços de streaming: a Netflix lançou seu plano com publicidade em 2022; o Disney+ fez o mesmo pouco depois. “Pague mais para ver menos anúncios” já não é uma promessa das plataformas digitais, é o modelo de negócio delas.
O que diferencia o YouTube de outras plataformas de streaming é que ele não é um serviço pago que adicionou uma camada gratuita com anúncios; é uma plataforma gratuita que construiu um negócio publicitário de tal magnitude que agora pode se comportar como a televisão tradicional. Os anúncios de 90 segundos são mais um teste para que a Google descubra até onde vai a tolerância do usuário antes que ele mude de serviço ou aceite pagar.
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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