A Ucrânia está perto de alcançar um marco: criar a maior indústria de drones do mundo quase sem a ajuda da China

A guerra já havia transformado o país no maior laboratório bélico; a experiência aponta para uma autonomia inédita

Ucrânia
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
victor-bianchin

Victor Bianchin

Redator
victor-bianchin

Victor Bianchin

Redator

Victor Bianchin é jornalista.

1778 publicaciones de Victor Bianchin

Um drone comercial modificado pode custar menos do que um celular de preço médio e, ainda assim, ser capaz de destruir veículos blindados avaliados em milhões. Por isso, nos conflitos recentes, esses sistemas são perdidos em um ritmo tal que sua produção se aproxima mais de uma lógica industrial do que da própria fabricação tradicional de armamentos.

A Ucrânia agora deu outro salto. Como conta o The New York Times, o país alcançou um marco relevante em sua indústria militar ao desenvolver drones capazes de operar praticamente sem componentes diretos provenientes da China.

O avanço surgiu devido à necessidade estratégica de reduzir dependências em um contexto de guerra total. A transição reflete uma mudança profunda na forma de produzir armamentos, na qual a autossuficiência se torna uma vantagem tão decisiva quanto o próprio desempenho em combate.

A Ucrânia já abriu e investigou numerosos drones russos, encontrando em seu interior um “esqueleto” de tecnologias e matérias-primas que vinham, por um lado, de seus supostos “aliados” e, por outro, da China. Agora, a Ucrânia pretende que ninguém possa dizer o mesmo sobre ela.

O conflito elevou os drones a uma escala industrial sem precedentes, a ponto de mais de 90% das baixas russas serem atribuídas a eles, segundo comandantes ucranianos. Além disso, a produção também disparou: empresas como Ukrainian Defense Drones fabricam até 15.000 antenas por dia e o uso de drones baratos, de cerca de 500 dólares, tornou-se uma ferramenta-chave para equilibrar a balança diante de um inimigo superior em recursos. Essa lógica obriga a fabricar em grandes quantidades, assumir altas taxas de perda em missões e priorizar volume e rapidez em vez de perfeição.

Ucra

Nessa perspectiva, o avanço rumo a drones “livres da China” é algo progressivo e parcial, mas significativo. Em apenas um ano, a Ucrânia passou de depender quase totalmente de componentes chineses para reduzir essa proporção a cerca de 38%, substituindo peças-chave como estruturas, controladores, antenas e sistemas de transmissão. Esse processo implicou reconstruir cadeias de suprimento inteiras e desenvolver capacidades técnicas próprias em tempo recorde, com apoio europeu para cobrir lacunas críticas.

Os limites reais da independência

Ainda assim, apesar dos avanços, a autonomia total continua sendo complexa. Há materiais como carbono, baterias e certos componentes eletrônicos que ainda dependem de cadeias globais dominadas pela China, mesmo quando são montados fora de seu território.

Isso revela uma realidade incômoda: eliminar completamente essa dependência não é viável no curto prazo, especialmente quando o custo continua sendo um fator decisivo em uma guerra em que são necessárias milhares de unidades constantemente.

Segundo o Times, o desenvolvimento de uma indústria própria não se deve apenas a necessidades militares imediatas, mas também tem implicações políticas. A Ucrânia busca fortalecer sua posição em futuras negociações ao demonstrar que pode sustentar seu esforço bélico sem depender de terceiros. Ao mesmo tempo, diversificar fornecedores reduz a capacidade de pressão da China, introduzindo um novo equilíbrio na cadeia global de suprimentos.

Praticamente desde o início da invasão russa em 2022, o ritmo de adaptação tecnológica na Ucrânia vem rompendo com os esquemas tradicionais de defesa.

Os designs de drones são atualizados mensalmente, quando não antes, com base em seu desempenho no front, em um ciclo contínuo de teste, experimentação, erro e melhoria. Em resumo, um modelo que, impulsionado pela urgência e pelo custo humano do conflito, está redefinindo como as tecnologias militares são desenvolvidas no século 21.

Imagem | Lycksele-Nord, Maxim Subotin

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


Inicio