A imagem tradicional do gato doméstico costuma ser a de um animal independente, preguiçoso e perfeitamente adaptado a passar os dias dormindo no sofá de um apartamento. No entanto, a realidade biológica e psicológica dos felinos entra em choque com esse estilo de vida, já que os especialistas, segundo o jornal El Español, afirmam que "o confinamento absoluto em apartamentos entedia e estressa os gatos, alterando sua natureza".
O gato doméstico preserva grande parte dos instintos de seus ancestrais selvagens. A etóloga britânica Irene Rochlitz, em seu trabalho no grupo de Bem-Estar Animal e Interações Humano-Animal da Universidade de Cambridge, documentou amplamente quais são as necessidades comportamentais básicas e inegociáveis da espécie. E, nesse ponto, é claro que o felino precisa de um território estruturado, áreas especificamente delimitadas para suas necessidades biológicas e oportunidades constantes para brincar e simular sequências de caça.
O problema é que, quando um animal equipado com esse instinto predador e territorial fica confinado aos poucos metros quadrados de um apartamento sem o enriquecimento ambiental adequado, os riscos para sua saúde mental e física aumentam exponencialmente.
As diretrizes sobre comportamento animal indicam que a falta de estímulos em ambientes fechados exige intervenções proativas por parte dos humanos. Ao analisar as evidências sobre o comportamento dos felinos em diferentes tipos de alojamento, fica claro que é fundamental adotar recomendações específicas para reduzir os impactos do espaço confinado.
O problema do tédio
O tédio crônico nos gatos não deve ser interpretado como uma simples tristeza passageira, mas como um importante fator desencadeante de problemas clínicos. Uma rigorosa pesquisa baseada em evidências científicas detalha como gatos que vivem exclusivamente em ambientes internos e não dispõem de oportunidades adequadas para arranhar, caçar ou brincar acabam desenvolvendo sérios problemas de saúde e de comportamento.
Se essa carga instintiva não consegue ser canalizada, o animal buscará mecanismos de escape que os tutores costumam classificar, de forma equivocada, como "mau comportamento" ou agressividade, quando, na maioria dos casos, são respostas fisiológicas a um ambiente inadequado.
O sedentarismo e a ansiedade prolongada cobram um preço elevado do organismo do animal, assim como acontece com os humanos. Nesse contexto, os especialistas ressaltam que o confinamento, seja prolongado em um lar ou em uma gaiola de abrigo, exige a implementação imediata de estratégias de enriquecimento ambiental para prevenir problemas médicos. Uma das consequências clínicas mais graves e recorrentes dessa ansiedade induzida pelo ambiente é a doença do trato urinário inferior.
A pandemia de COVID-19 ofereceu à comunidade científica um cenário único e em larga escala para estudar o comportamento dos gatos diante de mudanças bruscas nas rotinas e dos níveis de confinamento compartilhados com seus tutores. Um estudo empírico recente avaliou comparativamente diversas métricas relacionadas aos felinos, dividindo a análise em três fases distintas: antes da pandemia, durante os períodos de confinamento rigoroso e no período posterior ao fim das restrições. A pesquisa mediu o bem-estar, as alterações comportamentais e a condição corporal dos gatos domésticos envolvidos.
Os resultados indicaram que, durante o período de confinamento, os problemas comportamentais dos gatos se intensificaram, com aumento da inquietação. Além disso, também foi observado que, ao longo desses meses, os gatos analisados ganharam peso de forma significativa.
O que fazer
Ao manter um gato vivendo exclusivamente em um apartamento, é importante adotar diferentes estratégias para garantir que ele tenha um ambiente confortável. Por isso, recomenda-se oferecer elementos que permitam ao animal expressar comportamentos naturais de marcação, disponibilizando espaços adequados para arranhar.
Além disso, é importante estruturar o território da casa com a inclusão de esconderijos e plataformas elevadas, já que observar o ambiente de locais altos faz parte das necessidades comportamentais naturais do animal.
Imagens | Erik-Jan Leusink (Unsplash)
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
Ver 0 Comentários