A relação entre o homem e a natureza é um dos temas mais antigos e, ao mesmo tempo, mais atuais da filosofia. Somos nós parte da natureza, ou a natureza é algo puramente mecânico e subordinado a nós, por assim dizer, que podemos usar como recurso e ver como mero objeto de pesquisa?
Segundo Hegel e outros grandes pensadores, somos simplesmente a natureza que pensa sobre si mesma. É exatamente aí que reside o nosso maior potencial, mas também nosso maior perigo.
Essa dualidade se reflete no caso de Prometeu. Não o titã mitológico que trouxe o fogo, o conhecimento e a civilização para a humanidade, mas uma árvore de 4.862 anos.
Em 1964, ela foi vítima do então estudante de doutorado de 30 anos, Donald Rusk Currey, em nome da pesquisa.
O nome é mais do que uma mera metáfora. Assim como a figura da mitologia grega, a árvore também representa a aquisição do conhecimento – mas não sem sacrifício. Enquanto o Prometeu mitológico sofre deliberadamente para trazer conhecimento às pessoas, a árvore se tornou involuntariamente o preço do conhecimento científico. Mesmo que tenha sido um descuido, surge a questão de até onde a ciência pode ir, especialmente quando destrói a natureza de forma irrecuperável.
Caso Prometeu
Prometeu era um pinheiro-de-aristas longevo. Nas Montanhas Brancas, na Califórnia, existem vários exemplares com mais de 4 mil anos. Um deles é considerado como tendo quase 5,1 mil anos, mas a amostra de núcleo de perfuração para verificação independente desapareceu. Sem uma contagem verificada dos anéis de crescimento, a avaliação não se aplica.
É por isso que, durante muito tempo, outro desses pinheiros ostentou o título de árvore mais antiga do mundo (segundo a Conservation International). Ele atende pelo nome apropriado de Matusalém e já completou mais de 4.850 anos.
Mas Prometeu também poderia ter ocupado esse seu lugar. Ele viveu na borda do Pico Wheeler, em Nevada, até sua morte e já tinha vários séculos de idade quando as três grandes pirâmides foram construídas no Egito. Mas, no fim, ele não entrou para os livros de história por causa de sua idade bíblica, mas sim por causa de um drama científico.
Currey (1934-2004) inicialmente só queria coletar amostras de perfuração para que a árvore provavelmente sobrevivesse. No entanto, duas das brocas quebraram em quatro tentativas, motivo pelo qual ele obteve permissão do Serviço Florestal dos Estados Unidos para cortar Prometeu.
O cientista não tinha noção do espécime extraordinário que tinha diante de si, mas, pelos padrões científicos da época, ele não agiu de forma ilegal nem particularmente cruel.
O que exatamente Currey queria?
O jovem era geólogo na época e estudava as condições climáticas da Pequena Idade do Gelo, um período frio no hemisfério norte que durou de aproximadamente 1300 a 1900.
Uma das ferramentas que Currey utilizou foi a dendrocronologia. Com a ajuda dos anéis de crescimento das árvores, não só é possível determinar a idade, como também tirar conclusões sobre as condições climáticas do passado. Especialmente numa época em que muitos dos dados de medição atuais ainda não existiam, esse método era considerado particularmente valioso.
Nesse sentido, é apenas parcialmente verdade que Currey não sabia o que estava fazendo. Ele sabia que a árvore era muito antiga, caso contrário, ela não teria se tornado o objeto de sua pesquisa.
Contudo, nem ele nem ninguém suspeitava que Prometeu fosse a árvore mais antiga do mundo.
A consternação foi, portanto, grande quando sua idade foi finalmente determinada.
Mas será que esse desconhecimento muda algo em relação à questão fundamental? Isso é justificativa suficiente? Em outras palavras: nós – a ciência – temos o direito de sacrificar a natureza irrecuperável, mesmo em nome do conhecimento?
Responsabilidade ética
De qualquer forma, a proverbial queda de Prometeu levou a uma reconsideração na forma como lidávamos com os monumentos naturais antigos na época. Ele tornou as espécies de pinheiros conhecidas mundialmente e contribuiu significativamente para medidas de proteção mais rigorosas para árvores particularmente antigas.
Ao mesmo tempo, a dendrocronologia também se desenvolveu decisivamente. Hoje, geralmente são utilizados procedimentos minimamente invasivos que não causam danos permanentes às árvores e ainda fornecem dados confiáveis.
Prometeu, portanto, não é apenas um exemplo de advertência sobre a responsabilidade ética da ciência para com a natureza.
De certa forma, ele é – quase como seu mito – uma figura emblemática.
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