Intoxicação misteriosa faz pessoas ficarem bêbadas mesmo sem ingerir nem ao menos uma gota de álcool — agora a ciência descobriu o motivo

Medicina caminha para evolução significativa no tratamento

Álcool no organismo
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Vika Rosa

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Vika Rosa

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Jornalista com mais de 5 anos de experiência, cobrindo os mais diversos temas. Apaixonada por ciência, tecnologia e games.


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Imagine acordar com todos os sintomas de uma ressaca severa ou ser parado em uma blitz com o bafômetro acusando embriaguez, mesmo sem ter consumido nenhuma gota de álcool. Para os portadores da síndrome da fermentação intestinal (SFI), essa situação não é apenas um pesadelo hipotético, mas uma realidade rara e debilitante que a ciência acaba de desvendar com mais precisão.

Uma pesquisa conduzida pelo Mass General Brigham em parceria com a Universidade da Califórnia, publicada na revista Nature Microbiology em janeiro de 2026, identificou os culpados específicos por essa "fábrica de cerveja" interna: bactérias e vias biológicas no intestino que convertem carboidratos em etanol de forma agressiva.

O intestino que produz o próprio combustível

A síndrome ocorre quando micróbios no trato digestivo decompõem açúcares e amidos, transformando-os em álcool, que é rapidamente absorvido pela corrente sanguínea. Embora o corpo humano produza traços mínimos de álcool naturalmente durante a digestão, os pacientes com SFI atingem níveis de intoxicação real.

Os cientistas compararam amostras de 22 pacientes com a síndrome e descobriram diferenças biológicas marcantes: diferente do que se pensava anteriormente (focando apenas em leveduras/fungos), o estudo apontou bactérias como a Escherichia coli e a Klebsiella pneumoniae como grandes contribuintes para o problema.

Durante as crises, esses pacientes apresentam níveis muito elevados de enzimas envolvidas na fermentação, algo não observado em pessoas saudáveis.

A descoberta de que as fezes desses pacientes produzem muito mais etanol em laboratório abre caminho para testes diagnósticos mais simples, eliminando a necessidade de monitoramento hospitalar prolongado.

Transplante fecal: a solução para o "bar" interno

Um dos casos mais impressionantes relatados no estudo envolveu um paciente que sofria com recaídas constantes. Após ser submetido a um transplante de microbiota fecal — procedimento que substitui as bactérias "ruins" do paciente pelas de um doador saudável —, os sintomas desapareceram por mais de 16 meses.

A pesquisa prova que a composição do microbioma é a chave tanto para o surgimento quanto para a cura da doença. Segundo os especialistas, essa descoberta é vital para reduzir o estigma social que os pacientes enfrentam, já que muitos são injustamente acusados de alcoolismo escondido.

Com a identificação das vias microbianas exatas, a medicina caminha para tratamentos personalizados que podem devolver a qualidade de vida a quem vive em um estado de embriaguez involuntária, permitindo que voltem a dirigir e trabalhar com segurança.

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