Há momentos em que um programa espacial deixa de ser apenas uma promessa e se transforma em uma contagem regressiva tangível. A Artemis II acaba de chegar a esse ponto. A missão entra no terreno da preparação controlada de decisões que já não se revertem com facilidade nem sem custo. Ainda não é o lançamento, nem sequer uma data definida, mas é o passo que obriga a demonstrar que tudo o que foi projetado, integrado e testado ao longo de anos pode funcionar.
O avanço concreto veio no fim de semana. O foguete Space Launch System, com a nave Orion, concluiu sua transferência do Vehicle Assembly Building até a rampa 39B do Kennedy Space Center, um percurso de cerca de 6,5 km que durou doze horas. A operação terminou com a colocação do conjunto sobre os pedestais da plataforma de lançamento, um passo que permite o início das atividades.
O próximo passo é o Wet Dress Rehearsal, o teste que condiciona tudo o que vier depois. Nesse ensaio, a NASA explica que as equipes devem demonstrar a capacidade de carregar grandes quantidades de propelentes criogênicos, realizar uma contagem regressiva de lançamento de teste e praticar a retirada segura do combustível do foguete, sem astronautas a bordo. A contagem regressiva será interrompida pouco antes da decolagem simulada.
Enquanto os preparativos são finalizados, o trabalho na rampa avança em várias frentes de forma simultânea. A NASA detalha que as equipes conectaram linhas de purga para manter em condições adequadas as cavidades do foguete e da nave, habilitaram as comunicações com o centro de controle e realizaram testes de movimento do braço de acesso à tripulação. Também foi conectado o sistema de evacuação de emergência, com ensaios de liberação das cestas, e a Orion, assim como vários elementos do SLS, foi ligada para verificar sua resposta no ambiente de lançamento.
O teste que coloca a Artemis II frente à realidade
Com essas tarefas em andamento, o foco se desloca para o calendário realista da missão. A NASA aponta que a janela de lançamento se abre já na sexta-feira, 6 de fevereiro, mas ressalta que a direção do programa só escolherá uma data após o Wet Dress Rehearsal. Em paralelo, a definição também depende de fatores externos: a posição da Lua para a trajetória prevista e os requisitos de segurança que exigem uma reentrada da Orion dentro de margens muito específicas para proteger o escudo térmico.
A cautela que cerca esta fase não é por acaso. A Artemis II é a primeira missão tripulada do programa e chega após um desenvolvimento longo, marcado por revisões técnicas e atrasos no cronograma. Durante a campanha da Artemis I, o carregamento de propelentes criogênicos foi afetado por problemas para manter as temperaturas adequadas e por vazamentos de hidrogênio em várias tentativas. Agora, correções e procedimentos aprendidos naquela ocasião foram incorporados, mas este trecho serve justamente para comprovar que essas soluções funcionam de forma consistente em um veículo destinado a levar pessoas a bordo.
Diferentemente da missão seguinte do programa, a Artemis II é um voo de verificação, não de exploração direta. O perfil previsto inclui várias órbitas elípticas ao redor da Terra, um impulso em direção à Lua e um sobrevoo sem alunissagem, com duração aproximada de dez dias. Esse esquema permitirá confirmar que a Orion pode sustentar uma tripulação no espaço profundo, validar sistemas como o de suporte à vida e verificar comunicações e navegação nesse ambiente, com o apoio da Rede do Espaço Profundo, antes de preparar o salto para a Artemis III.
Com todo esse trabalho já concentrado na rampa, a Artemis II agora representa algo maior do que um simples avanço administrativo. O ensaio de abastecimento e a revisão posterior indicarão se o sistema está realmente pronto para assumir um voo tripulado além da órbita terrestre. Se surgirem problemas, a NASA considera a opção de devolver o foguete ao edifício de montagem para trabalhos adicionais, um lembrete de que ainda há margem de manobra, embora com impacto no calendário.
Imagens | NASA
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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