Em 26 de fevereiro, Jim Carrey recebeu o prestigioso Prêmio César Honorário por toda a sua carreira, em Paris, após anos de semi-aposentadoria. Mas o que começou como uma homenagem sincera se tornou o centro de uma teoria da conspiração: era realmente ele quem subiu ao palco, ou um imitador com próteses? A história de como uma postagem no Instagram desencadeou o caos (e como foi finalmente desmentida).
Homenagem
Jim Carrey recebeu o César Honorário deste ano: o Oscar francês reconheceu sua "versatilidade excepcional" com um prêmio já concedido a Julia Roberts, Christopher Nolan e David Fincher. A premiação também aconteceu em um momento peculiar da carreira de Carrey: em 2022, na coletiva de imprensa de 'Sonic: O Filme 2', ele anunciou sua aposentadoria, mesmo retornando três anos depois com brutal honestidade: "Comprei muita coisa e preciso do dinheiro, francamente."
Carrey chegou a Paris após uma falsa aposentadoria que o levou a um desaparecimento parcial, e agora estava no palco mais elegante do cinema europeu. Ele não havia desaparecido dos olhos do público, no entanto: em novembro, foi visto na cerimônia de indução do Soundgarden ao Hall da Fama do Rock and Roll, em Los Angeles. Suas aparições nos últimos anos sempre foram esporádicas e sem aviso prévio.
Cerimônia de premiação
O primeiro momento inesperado da noite aconteceu quando Carrey, após ser apresentado por Michel Gondry e ostentando um visual que deixava para trás a barba espessa dos últimos anos, fez seu discurso de agradecimento inteiramente em francês. Seu sotaque era inconfundivelmente americano, mas muito bem ensaiado. Como Gregory Caulier, delegado geral do Prêmio César, revelaria mais tarde, ele o havia preparado durante meses. Nele, revelou uma ligação com a França que ninguém conhecia: seu ancestral Marc-François Carré (o sobrenome original da família antes da anglicização) nasceu em Saint-Malo e emigrou para o Canadá a partir de lá.
Transformação
A aparição na cerimônia do Hall da Fama do Rock and Roll já havia levantado algumas suspeitas: ele ostentava o mesmo visual que repetiu na premiação César, com cabelo na altura dos ombros e traços faciais ligeiramente diferentes do seu estilo habitual. As especulações iniciais apontavam para cirurgia plástica como possível explicação, e alguns especialistas da área chegaram a cogitar quais procedimentos poderiam ter sido realizados. A Dra. Millicent Rovelo mencionou uma blefaroplastia superior (para remover o excesso de pele das pálpebras superiores) e uma quantidade significativa de Botox na testa. Outro cirurgião, o Dr. John Diaz, sugeriu um possível lifting de pescoço.
O Dr. Tony Youn, bastante conhecido na mídia, apontou evidências de um lifting de sobrancelhas endoscópico, o que explicaria a leve alteração na linha do cabelo, e corroborou a hipótese da blefaroplastia e do Botox. Por fim, o Dr. Raffi Hovsepian discordou: as mudanças na testa e na região dos olhos pareciam compatíveis com o envelhecimento masculino natural, sem evidências cirúrgicas. Não podemos esquecer que, em 2003, Carrey apareceu no Teen Choice Awards completamente enfaixado, usando óculos escuros, fingindo ter acabado de passar por uma cirurgia. Mesmo naquela época, rumores sobre procedimentos estéticos já circulavam.
O artista das máscaras
Quatro dias após a cerimônia, Alexis Stone postou um carrossel de três imagens no Instagram. As duas primeiras mostravam Jim Carrey. A terceira era uma máscara de látex, dentes postiços, uma peruca escura e vários materiais de maquiagem dispostos sobre uma mesa com a Torre Eiffel desfocada ao fundo. A legenda dizia simplesmente: "Alexis Stone como Jim Carrey em Paris". Stone é designer de efeitos especiais autodidata que construiu uma carreira em transformações hiper-realistas que lhe permitiram imitar Madonna, Jack Nicholson, Lana Del Rey, a Sra. Doubtfire de Robin Williams e a Cruella de Vil de Glenn Close.
Stone costuma documentar seu processo em detalhes, mas desta vez não foi o caso: tudo o que vimos foi uma máscara que apresentava detalhes que alguns usuários consideraram gerados por IA, com contornos excessivamente perfeitos e um fundo desfocado típico de imagens geradas por computador. Mas quando celebridades como Megan Fox e Katy Perry compartilharam as publicações de Stone, o boato se espalhou pela internet: o vencedor do Prêmio César não era Jim Carrey, mas um impostor.
Por quê?
Os argumentos dos teóricos da conspiração surgiram quase simultaneamente com o evento. Por exemplo, a cor dos seus olhos, geralmente castanho-escuros, parecia ter um tom esverdeado. Além disso, Carrey é canhoto e vários vídeos curtos o mostraram em Paris usando a mão direita para dar autógrafos. O terceiro argumento foi o próprio discurso: que alguém supostamente aposentado e sem vínculos ativos com a França fizesse um discurso de dez minutos em francês com uma pronúncia tão impecável pareceu bastante suspeito para alguns membros da plateia.
As entrevistas que comprovam isso
É claro que este era o momento que os teóricos da conspiração esperavam para desenterrar entrevistas antigas de Carrey contendo respostas ambíguas, filosóficas ou simplesmente incompreensíveis. Em 2017, ele declarou que não acreditava em personalidades, que a festa badalada em que estava sendo entrevistado parecia "absolutamente sem sentido" (de um ponto de vista metafísico) e que "não existe um eu, existem apenas coisas acontecendo" (mais tarde, o próprio ator descreveria a entrevista como um "experimento existencial").
Em uma entrevista anterior, ele afirmou calmamente: "Estou morto", mas isso ocorreu no contexto de uma conversa sobre espiritualidade e o ego. Recomendamos que os fãs do lado mais enigmático de Carrey assistam ao incrível documentário "Jim & Andy", que narra sua transformação literal em Andy Kaufman para as filmagens de "O Mundo de Andy".
Confirmação oficial
As primeiras declarações oficiais vieram de Marleah Leslie, assessora de imprensa de Jim Carrey por décadas, com uma breve mensagem que não deixou dúvidas: "Jim Carrey compareceu à cerimônia do César, onde recebeu seu Prêmio César Honorário." Naquele mesmo dia, Gregory Caulier contou à Variety sobre os oito meses de conversas preparatórias e os meses que o ator dedicou a aperfeiçoar seu francês. Carrey foi a Paris acompanhado de sua companheira, sua filha, seu neto, doze amigos próximos e familiares, seu assessor de imprensa e Michel Gondry.
Opinião de especialista
Houve uma terceira opinião sobre o assunto, refutando os rumores, desta vez de um ponto de vista técnico, oferecida por David Malinowski, especialista em próteses e vencedor do Oscar e do BAFTA por seu trabalho em "O Destino de uma Nação". Ele foi categórico: a pessoa no palco não estava usando nenhuma máscara ou prótese. Primeiro, a estrutura facial de Alexis Stone é suficientemente diferente da de Carrey para que fosse impossível enganar o público na cerimônia de premiação.
Segundo, manter uma caracterização com tamanha complexidade durante toda uma cerimônia de premiação, com movimentos faciais, discursos, expressões e contato direto com pessoas que conheciam o ator, é tecnicamente impossível. Essa declaração parece confirmar definitivamente a veracidade dos fatos e, claro, não convenceu nenhum teórico da conspiração. Mas, pensando bem, eles já estavam convencidos desde o início.
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