Rússia criou rede secreta para vender US$ 90 bilhões em petróleo, até que ela caiu porque todos usavam o mesmo servidor de e-mail

  • Investigação do Financial Times revela gigantesca rede de intermediários que manteve estatal petrolífera Rosneft

  • Rede administrou 80% das exportações russas de petróleo bruto após sanções americanas

  • Simples rastro de domínios da web desmantelou seu anonimato

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PH Mota

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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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No jogo geopolítico de xadrez das sanções internacionais, onde governos ocidentais elaboram legislações complexas para sufocar a máquina de guerra de Vladimir Putin, às vezes o xeque-mate não vem por meio de uma brilhante manobra diplomática, mas sim pela ganância corporativa.

Uma rede global de contrabando, concebida para ser invisível aos olhos de Washington e Bruxelas, desmoronou como um castelo de cartas por não querer pagar contas de e-mail separadas. Uma simples economia na infraestrutura de informática expôs um fluxo monumental de dinheiro ilícito.

Um erro colossal de TI trouxe à tona uma rede de contrabando que movimentou pelo menos 90 bilhões de dólares em petróleo russo. Como revela uma investigação exaustiva do Financial Times, esse esquema é o principal responsável pelo financiamento do Kremlin na guerra contra a Ucrânia.

A mídia britânica identificou uma rede de 48 empresas que, no papel, operavam de forma completamente independente, a partir de diferentes endereços físicos. Na prática, porém, agiam juntas para disfarçar a origem do petróleo bruto, especialmente o da Rosneft, a petrolífera estatal russa. A necessidade de ocultar essas exportações tornou-se uma questão de vida ou morte para o Kremlin em outubro de 2025, quando os Estados Unidos impuseram sanções diretas à Rosneft e à Lukoil.

Desde então, uma empresa até então desconhecida chamada Redwood Global Supply foi repentinamente coroada a maior exportadora mundial de petróleo bruto russo. Essa empresa, juntamente com o restante da rede, está ligada a um grupo de empresários de origem azerbaijana com acesso privilegiado à liderança da Rosneft, liderada por figuras como Tahir Garayev e Etibar Eyyub.

O jornal independente russo The Moscow Times corroborou essa descoberta, destacando um fato devastador: em novembro de 2024, mais de 80% das exportações marítimas da Rosneft passaram por essa rede. Sergey Vakulenko, ex-estrategista-chefe da Gazprom Neft e atualmente pesquisador do Carnegie Center, explicou a esse veículo que usar cinquenta empresas de fachada é "um truque antigo dos anos 90" para sonegar impostos, mas confessa sua surpresa com o fato de uma única rede ter se tornado tão crucial para uma gigante como a Rosneft.

O triunfo dos intermediários obscuros

A existência dessa rede significa, simplesmente, que o sistema de sanções ocidental está repleto de brechas e que a Rússia conseguiu industrializar a evasão fiscal. Segundo a investigação, o sucesso dessa rede de US$ 90 bilhões baseou-se na estrita separação de funções para apagar o rastro do dinheiro. A rede utilizava um grupo de empresas de fachada exclusivamente para comprar carregamentos de petróleo bruto na Rússia e outro grupo de empresas, totalmente diferente no papel, para vendê-los em mercados-chave como a Índia e a China.

Dessa forma, nos documentos alfandegários, o comprador inicial quase nunca coincidia com o vendedor final. Além disso, na maioria dos casos, o petróleo bruto era rotulado com nomes genéricos como "mistura para exportação", o que eliminava qualquer possibilidade de rastrear sua origem ou verificar se o teto de preço imposto pelo G7 estava sendo respeitado.

Esse modus operandi não é novo e se baseia numa arquitetura de evasão fiscal que vem sendo desenvolvida há anos em locais como os Emirados Árabes Unidos. Algo muito semelhante aconteceu com o caso de Christopher Eppinger, um jovem trader alemão que ilustra perfeitamente como funciona esse submundo.

Enquanto a Europa se vangloriava de soberania energética, um exército de novos intermediários se mudou para Dubai – uma jurisdição que não aplica sanções a Moscou – para ganhar dinheiro fácil. A rede agora descoberta pela mídia britânica usa exatamente as mesmas ferramentas que já analisamos: a criação expressa de empresas opacas, o uso da "frota fantasma" (navios antigos que desligam seus transponders quando se aproximam para carregar petróleo bruto russo) e as transferências de petróleo em alto-mar para misturá-lo e falsificar sua origem.

A única diferença é que a rede da Rosneft descoberta pelo Financial Times operava em uma escala industrial sem precedentes... até cometer um erro de principiante na internet.

Erro de principiante

Toda essa sofisticada estrutura internacional desmoronou devido a um detalhe absurdo que beira o cômico. O Financial Times descobriu que essas 48 empresas multibilionárias compartilhavam um único servidor privado para seus e-mails: mx.phoenixtrading.ltd.

Ao rastrear esse elo digital, os jornalistas do FT conseguiram identificar 442 domínios da web que compartilhavam funções administrativas de back-office naquele mesmo servidor. O próximo passo foi pura mineração de dados: compararam os nomes desses domínios com os registros alfandegários da Rússia e da Índia. Assim, descobriram que o domínio foxton-fzco.com correspondia à Foxton FZCO (com sede em Dubai), compradora de 5,6 bilhões de dólares em petróleo; e que advanalliance.ltd era da Advan Alliance, que vendeu 1,5 bilhão de dólares para a Índia.

A ânsia de criar e destruir empresas rapidamente para enganar as autoridades sancionadoras – segundo o The Moscow Times, a vida útil média dessas empresas é de apenas seis meses – levou a rede a centralizar sua infraestrutura de TI para reduzir custos. Uma economia que lhes custou o anonimato.

O show tem que continuar

A curto prazo, a estratégia dos envolvidos é a negação e a adaptação. Conforme relatado pelo Financial Times, tanto Tahir Garayev quanto Etibar Eyyub negaram categoricamente seu envolvimento na evasão de sanções, classificando as alegações como "infundadas" (curiosamente, Eyyub enviou sua negação de um endereço de e-mail hospedado no servidor comprometido). A empresa original que fundou a rede, a Coral Energy (agora 2Rivers), também se desvinculou das operações.

No entanto, nos bastidores, a máquina já busca novas alternativas. Um alto executivo russo do setor energético, que falou sob condição de anonimato, resumiu a situação da investigação de forma contundente: "Isso gera custos e inconvenientes adicionais. Mas, no fim das contas, o show tem que continuar." O Reino Unido já reagiu à investigação da mídia britânica sancionando quase 300 entidades ligadas a essa "dark web", bloqueando navios e bancos russos.

A queda dessa imensa rede de 90 bilhões de dólares demonstra que, no século XXI, o sigilo bancário e as bandeiras de conveniência são inúteis se o administrador do sistema decide economizar alguns dólares compartilhando um servidor. Foi uma vitória monumental para os reguladores ocidentais, servida de bandeja pela própria mesquinhez da rede.

No entanto, seria ingenuidade pensar que este é o fim do contrabando. Como os próprios executivos russos alertam, a máquina já está buscando novas rotas, novos laranjas e novas jurisdições obscuras. O petróleo bruto russo continuará a fluir pelas brechas do sistema enquanto houver compradores dispostos a fechar os olhos. Da próxima vez, porém, eles se certificarão de pagar por e-mails separados.

Imagem | Freepik

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