Problema para os EUA? Em 10 anos, China aumenta sua produção militar e fica perto de atingir autossuficiência

De cliente a gigante: como a China conseguiu construir seu próprio império militar

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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Embora a guerra que domine as manchetes seja o conflito entre EUA, Israel e Irã, a geopolítica mundial está tão delicada que diversos países estão se rearmando. A China chega a este momento em uma posição quase imbatível: o exército de seu grande rival depende cada vez mais dela e, além disso, está a um suspiro de ser autossuficiente.

O documento “Tendências nas transferências internacionais de armas, 2025”, publicado há alguns dias pelo Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, reúne as tendências, mudanças e principais atores do comércio mundial de armas pesadas entre os períodos 2016–20 e 2021–25 e deixa claro algo: em armamentos, a China faz tudo sozinha.

A mudança da China

Enquanto o volume global de transferências de armas cresceu 9,2% no período 2021–25, a China se manteve como a quinta maior exportadora do mundo (com 5,6% da participação global). Mas sua forma de interagir com o mercado mudou radicalmente: agora vende mais e compra muito menos.

Há 10 anos, a China era a quinta maior importadora de armas do mundo. Hoje, mal aparece na 21ª posição: saiu do top 10 pela primeira vez desde 1991. Não é que tenha se desarmado, muito pelo contrário. Na verdade, está produzindo caças como se não houvesse amanhã e já superou os EUA na produção de submarinos nucleares. O que acontece é que já não precisa comprar fora aquilo que fabrica em casa.

Distribuição da importação mundial de armamentos: os 10 maiores importadores e o restante, onde se inclui a China. Fonte: SIPRI

A China já é a segunda potência militar do mundo em gastos (segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos). O fato de um país com esse tamanho e nível de investimento deixar de depender do mercado externo é mais uma confirmação da maturidade de sua indústria. E é algo que reduz seu calcanhar de Aquiles: se o país não depende de ninguém para obter armamentos, não há pressão que funcione para tentar cortar seu fornecimento. Tanto é que uma das primeiras medidas da China na disputa tarifária foi endurecer seu marco de controle sobre as terras raras, essenciais para a indústria bélica.

Por outro lado, a influência da China não se mede apenas por suas fronteiras, mas também por quem depende dela: o relatório do SIPRI destaca como o país se estabelece como o pilar da defesa do Paquistão, é o maior fornecedor de armas para a África Subsaariana e está abrindo novos mercados na Europa (Sérvia).

O documento do SIPRI situa essa mudança em um contexto de rearmamento global, especialmente na Europa (onde há 210% a mais de importações) e na concorrência direta com os EUA. Segundo o relatório, a política de exportação de armas dos EUA para a Ásia e a Oceania é, em parte, determinada pelo objetivo de conter a influência da China, destacando receptores-chave como Japão, Austrália e Coreia do Sul.

Do “Made in Rússia” ao “Made in China”

A China reduziu suas importações em 72% entre 2016 e 2025. Historicamente, o gigante asiático dependia da tecnologia russa, mas esse já não é mais o caso. Ainda assim, a Rússia continua sendo seu principal fornecedor: responde por 66% do total importado.

Após o fim da Guerra Fria, Pequim ainda dependia de Moscou e de sua tecnologia, mas ao longo da década de 1990, houve momentos-chave para esse ponto de inflexão na estratégia chinesa, como o trauma do Yinhe no estreito de Malaca e a crise do Estreito de Taiwan de 1996, nos quais ficou evidente a superioridade militar dos EUA e a necessidade de construir sua própria indústria de defesa.

A China está se rearmando

Pequim já possui a maior marinha do mundo em número de navios, segundo o Departamento de Defesa dos EUA, e se consolidou como referência no desenvolvimento de mísseis hipersônicos. No plano estratégico, o Pentágono projeta que a China contará com mais de 1.000 ogivas nucleares até 2030. Se analisarmos seu orçamento mais recente, que cresceu 7,2%, a autossuficiência tecnológica e a inovação científica em defesa aparecem como prioridade absoluta para romper qualquer dependência externa.

Para a Rússia, evidentemente, isso representa a perda de seu maior e mais fiel cliente histórico. Segundo dados do SIPRI, a queda nas compras chinesas levou as exportações russas a mínimas históricas, agravando a crise de sua indústria de defesa. Para os EUA, é um presente envenenado: enquanto Washington tenta reforçar seus aliados no Pacífico, enfrenta um rival que imprime um ritmo de produção industrial e tecnológica que hoje é difícil de acompanhar. Para figuras como Pete Hegseth, a China já não é apenas uma concorrente, mas a pacing threat: a ameaça que dita o ritmo e a escala aos quais o resto do mundo precisa tentar se adaptar.

Os países geograficamente próximos à China também estão acelerando suas compras, impulsionados tanto pelos planos de reforço dos EUA quanto por seus próprios temores. A questão é por quanto tempo conseguirão sustentar esse ritmo, porque, em termos de escala industrial e velocidade, hoje ninguém parece capaz de acompanhar a China.

Imagem | CCTV, SteKrueBe

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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