O milionário dos EUA que invadia territórios por conta própria no século 19 e fundava seus próprios países

William Walker fez fortuna conquistando territórios em países da América Central, onde instaurava suas próprias repúblicas e impunha suas leis

William Walker
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

1924 publicaciones de Victor Bianchin

Nos dias atuais, os milionários estão focados em iates, foguetes, inteligência artificial e outros modismos. No século 19, porém, seu ímpeto era direcionado à conquista de territórios de outros países de forma independente, utilizando exércitos privados e governando colônias como senhores feudais.

Esse foi o caso de William Walker, considerado por muitos como o “último grande filibusteiro”, que atuava como um mercenário independente e conquistou territórios no México e na Nicarágua.

A história de William Walker é um relato de ambição, poder e da formação da identidade latino-americana. Nascido no Tennessee em 1824, Walker era filho de empresários muito influentes na política local. Estudou medicina, jornalismo e direito.

No entanto, abandonou essas profissões para se tornar filibusteiro, uma espécie de mercenário privado que promovia revoluções não autorizadas por nenhum país com o objetivo de tomar territórios e seus recursos. Para entender o contexto dessas invasões privadas, é importante conhecer o conceito que as sustentava: a Doutrina do Destino Manifesto, um dos pilares fundacionais dos EUA.

Essa doutrina do século 19 justificava a expansão territorial dos EUA pela América do Norte, baseada na crença de ser uma nação “escolhida”, com o direito divino de estender sua civilização. Essa ideia foi associada à anexação de territórios como Texas e Califórnia, além de guerras como a do México e a da Espanha, promovendo a noção de que a expansão era evidente e predestinada, refletida na expressão “pela autoridade divina ou de Deus”.

Essa ideologia influenciou políticas de intervencionismo e expansionismo, cuja expressão máxima é a famosa frase de Thomas Jefferson: “A América tem um hemisfério para si mesma”.

Com apenas 29 anos, em 1853, Walker recrutou 32 mercenários escravistas estadunidenses e se lançou à conquista das fronteiras do sul do país, à moda de Hernán Cortés, em busca de poder e riquezas. A incursão não foi mal-sucedida: ele conquistou as cidades de La Paz e Ensenada, no México, e se autoproclamou presidente da República de Sonora, onde tratou de impor uma nova legislação permissiva com a escravidão para obter uma rápida rentabilidade.

Sua presidência durou pouco, já que, cinco meses depois, a resistência mexicana e a falta de suprimentos o obrigaram a se retirar.

Em rio revolto, lucro para invasores

Longe de se desmotivar após o fracasso da primeira incursão nesse tipo de colonialismo privado, William Walker se aliou ao Partido Democrata da Nicarágua, que, naquele momento, estava em plena disputa territorial pelo controle do país com o partido Legitimista.

Walker viu ali uma oportunidade de intervir na situação e se ofereceu à burguesia local para ajudá-los militarmente a alcançar seus objetivos e, de quebra, ampliar ainda mais seus próprios interesses econômicos. Após vencer a batalha em Granada com um exército de mercenários chamados “Os Imortais”, foi simbolicamente eleito presidente, impondo políticas e costumes estadunidenses.

William começou então a aplicar sua política colonialista na região, adotando um governo por decretos, restabelecendo a escravidão, instituindo o inglês como idioma oficial e incentivando a chegada de norte-americanos, além de alterar a constituição e a bandeira do país.

Ele também estabeleceu por decreto que todos os bens dos “inimigos do Estado” seriam confiscados em favor da República e distribuídos por uma Junta Especial especialmente generosa com os interesses de William Walker e dos EUA.

É aí que, de fato, se encontra a origem do Canal do Panamá. Dado o caráter estratégico da região, essa conquista não passou despercebida pelos EUA, que se apressaram em reconhecer a legitimidade da nova república criada por William Walker.

O interesse dos EUA no controle dessa área se baseava na importância de criar uma rota comercial interoceânica que conectasse o Atlântico ao Pacífico. De forma imediata, foi estabelecida a Via do Trânsito, que ligava ambos os oceanos através do rio San Juan, no sul do país.

Pressionado por interesses comerciais e pelos países vizinhos, o governo de Walker foi derrubado e o milionário precisou retornar ao seu Tennessee natal, aclamado como um herói vitorioso.

Seu exílio não durou muito, pois, três anos depois, William Walker voltou à ativa, planejando a conquista de Honduras. Essa nova aventura golpista durou ainda menos que a anterior. Walker foi capturado por tropas britânicas estacionadas na região e rapidamente entregue às autoridades locais em Trujillo, onde, sem demora, foi julgado e condenado à morte.

Imagem | Wikimedia Commons (Mathew Benjamin Brady, Nicaragua-CIA_WFB_Map.p), Pexels (aboodi vesakaran)

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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