O fechamento do estreito de Ormuz durante a guerra com o Irã demonstrou até que ponto uma faixa de água relativamente pequena pode alterar o comércio global. Os países do Golfo foram obrigados a improvisar rotas alternativas para manter o fluxo de mercadorias e energia.
A Arábia Saudita, embora menos afetada que outros vizinhos, teve que reconfigurar rapidamente sua rede logística. O resultado é que esse tipo de choque global acelerou decisões que estavam na gaveta há anos e mudou prioridades estratégicas.
O megaprojeto futurista Neom, que engloba iniciativas ambiciosas como a cidade linear The Line, é um dos afetados por essas mudanças: agora, ele parece ter entrado em uma fase muito mais pragmática.
Conforme vem sendo noticiado, os custos elevados e a pressão econômica obrigaram a Arábia Saudita a reduzir ambições e a focar em projetos que gerem valor tangível. E, nessa mudança, o porto de Neom e a cidade industrial de Oxagon ganharam protagonismo. A ideia é priorizar aquilo que pode ser construído, financiado e colocado em operação dentro de um contexto econômico realista.
O grande atalho: contornar Ormuz pelo mar Vermelho
A guerra deu um sentido imediato a essa reconversão. O Financial Times relatou nesta semana que o porto de Neom está se posicionando como uma rota alternativa conectando Europa, África e Golfo sem passar por Ormuz.
Nessa perspectiva, as mercadorias viajam da Europa até o Mediterrâneo, cruzam o Egito e chegam ao mar Vermelho para serem redistribuídas ao Golfo por mar e por terra. Essa rota, já utilizada por vários países europeus, tornou-se mais relevante à medida que o estreito foi sendo bloqueado.
Embora o projeto ainda esteja em desenvolvimento, o porto já funciona e apresenta sinais de atividade crescente. Imagens de satélite captaram tráfego de caminhões e operações no local, enquanto infraestruturas como guindastes automatizados, terminais de contêineres e sistemas energéticos sustentáveis seguem sendo concluídas.
A ambição é transformar o local em um porto elétrico, altamente automatizado e preparado para grandes navios. Tudo isso o posiciona, neste momento, como uma peça emergente dentro da rede logística saudita.
Isso porque a crise acelerou uma mudança estrutural na Arábia Saudita. O peso econômico, tradicionalmente concentrado na costa do Golfo, começa a se deslocar para o mar Vermelho.
Infraestruturas como o oleoduto leste-oeste e o porto de Yanbu ganharam importância, enquanto as exportações a partir dessa costa aumentam. O problema é que, embora esse movimento reduza a vulnerabilidade em relação ao Irã, também introduz novos riscos em outras regiões.
Além de Neom: uma rede de rotas para resistir
O impulso não se limita a um único projeto. Ao que tudo indica, segundo o The Times, a Arábia Saudita e seus vizinhos já estão desenvolvendo corredores logísticos, combinando portos, estradas e futuras conexões ferroviárias.
Também estão sendo integradas rotas multimodais que conectam o Golfo ao mar Vermelho e a outros mercados. O objetivo parece claro: criar redundância nas cadeias de suprimento para evitar a dependência de uma única passagem estratégica.
Nesse contexto, o cenário que se desenha indica que Neom deixa de ser apenas um símbolo futurista e hiperbólico para se tornar uma verdadeira ferramenta estratégica.
A guerra atuou como catalisador, transformando uma visão ambiciosa e possivelmente utópica em uma solução prática para um problema imediato. Não há dúvida de que o projeto não foi originalmente concebido para contornar Ormuz, muito menos com esse objetivo específico, mas, agora, se encaixa perfeitamente nessa função.
Imagem | NEOM
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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