Mais recente camuflagem das tropas russas confirma segredo aberto: guerra na Ucrânia é a mais maluca da história

Ucrânia está parecendo um episódio de desenho animado, mas num contexto terrivelmente sério

Imagem | Guerra e Militarismo, ONG Centro de Tecnologia de Rádio
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PH Mota

Redator
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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Na Ucrânia, a camuflagem deixou de ser um detalhe tático e se tornou uma questão de sobrevivência imediata. A frente de batalha não é mais apenas uma linha de trincheiras, mas um espaço permanentemente iluminado por sensores, drones de reconhecimento e ataques FPV que surgem em segundos e destroem qualquer rotina. Nesse cenário, a diferença entre astúcia e desespero é uma linha tênue que separa o esconderijo do ridículo.

O novo campo de batalha

A consequência é simples e brutal: o que antes servia para se esconder de um soldado com binóculos agora é insuficiente diante de um olho eletrônico que não se cansa, não pisca e observa de cima, repetindo as passagens até encontrar o menor erro.

Nesse ponto, a Rússia se vê obrigada a improvisar novas formas de camuflagem para suas tropas, não por excentricidade estética, mas porque a alternativa é ficar exposta em um ambiente onde a detecção é quase automática e a punição vem com precisão cirúrgica.

Camuflagem "realista"

Uma das adaptações mais marcantes tem sido o uso de coberturas de camuflagem que não se limitam mais a quebrar silhuetas com manchas de cor, mas incorporam materiais e formas projetados para imitar elementos do terreno, como se fosse um cenário construído à mão: rochas falsas, superfícies ásperas, texturas que imitam entulho e irregularidades que enganam a visão de cima.

A ideia é simples e bastante lógica em uma frente saturada de drones: se o inimigo está observando do ar, não basta "parecer verde", é preciso "parecer com o terreno", integrar-se ao ruído visual da paisagem e reduzir as pistas que revelam uma posição. É uma tentativa de obter aqueles minutos de invisibilidade que separam um possível avanço de uma emboscada fracassada, e se encaixa em uma evolução na qual a Rússia está tentando se basear mais em ataques pequenos e móveis, com pequenos grupos, partindo do pressuposto de que aglomerações e posicionamentos óbvios se tornaram uma dádiva para a vigilância ucraniana.

Detritos urbanos como camuflagem

A mesma lógica se aplica a áreas urbanas devastadas, onde o terreno não é uma floresta no campo aberto, mas um tijolo quebrado, paredes caídas e poeira, e onde a camuflagem mais útil não é tanto a tradicional "militar", mas aquela que te torna parte da destruição. Existem redes e coberturas projetadas para se parecerem com entulho, restos de construções e fragmentos de edifícios, como se o soldado não estivesse se escondendo atrás da ruína, mas se fundindo a ela.

É também a resposta à pressão constante: o impacto dos drones sobre a infantaria russa tornou-se tão frequente que a linha de frente se transformou em um esmagador de pequenos movimentos, e cada posição exposta pode se tornar uma cena repetida milhares de vezes. É apenas mais um paradoxo em uma paisagem de escombros, onde uma camuflagem eficaz é o que te faz... em meio aos escombros.

Camuflagem de detritos "lonas" Camuflagem de detritos "lonas"

Tendas

Há também a imagem que parece ter saído de uma paródia, embora possivelmente seja fruto de um desespero tático real: soldados refugiando-se em estruturas verticais individuais, como cápsulas ou coldres que os cobrem quase completamente, deixando apenas uma pequena abertura para observação. Não são tendas típicas, nem abrigos habitáveis, mas sim coberturas projetadas para reduzir a assinatura visual e, sobretudo, térmica, diante de drones que procuram alvos e os eliminam com precisão.

A lógica é simples: se o drone te encontrar, você está morto, então a primeira coisa é impedir que ele te encontre. Dito isso, o preço a pagar pode ser enorme, pois se esconder dessa forma significa abrir mão de toda mobilidade, reação e consciência situacional, justamente o que um soldado precisa quando o perigo surge rapidamente e de qualquer ângulo.

Camuflagem térmica Camuflagem térmica

O grande inimigo invisível

Já falamos sobre isso nos últimos dias. A mudança mais decisiva, no entanto, não está apenas no que se vê, mas no que se sente: o calor. No inverno, as câmeras térmicas se tornam ainda mais letais porque o contraste aumenta e tudo que emite temperatura constante (corpos humanos, motores, eletrônicos, aquecedores) se destaca como um sinal luminoso contra um fundo gelado, mesmo à noite.

Os drones bombardeiros ucranianos, apelidados de "Baba Yaga", exploraram essa vantagem com eficácia: eles buscam formações ou posições, identificam anomalias térmicas e lançam munição com uma facilidade que torna o ato de se esconder um problema quase matemático. Nessas condições, a camuflagem visual é de pouca utilidade se a posição "brilha" no infravermelho.

Até mesmo o que parece insignificante (pegadas recentes na neve, atividade repetida em um ponto fixo) pode se tornar uma pista. É por isso que surge a camuflagem térmica, que não elimina o calor porque isso é impossível, mas tenta quebrar a silhueta e misturá-la com o ambiente, mesmo que isso degrade o sinal em vez de apagá-lo.

O grande dilema russo

A situação força a Rússia a se mover em um equilíbrio impossível: se tentar avançar em direção às zonas de morte sob drones, a exposição se multiplica; se decidir permanecer em posições fixas, a observação persistente acaba descobrindo padrões, entradas e saídas, momentos de atividade, pequenas rotinas que um drone pode registrar até que o ataque chegue.

O resultado é que cada medida defensiva traz consigo uma nova limitação: esconder-se melhor geralmente significa ver menos e reagir pior; mover-se com mais frequência significa ser detectado mais cedo. E embora a Ucrânia reserve câmeras térmicas para drones reutilizáveis, pois encarecem o sistema e não podem ser instaladas em qualquer coisa, o país também experimenta combinações inteligentes, usando drones com boa óptica para detecção e outros mais baratos para execução.

Uma espécie de desenho animado, mas com baixas reais.

Tudo isso nos leva a uma ideia que soa como uma piada, mas não é: a guerra na Ucrânia está se assemelhando a um episódio dos Looney Tunes, com soldados escondidos em cápsulas verticais, redes que imitam tijolos e camuflagem que parece saída de um filme.

Sem dúvida, o contexto é terrivelmente sério, pois essa estética absurda nasce da pressão tecnológica real, de um ambiente onde o ar está repleto de sensores e a camuflagem não compete mais com a visão humana, mas com máquinas que detectam contrastes, anomalias e calor.

O paradoxo final é brutal: quanto mais "ridícula" a camuflagem parece, mais evidente se torna a modernidade do problema. E quanto mais a cena se assemelha a uma piada, mais claro fica que a guerra se tornou uma caçada constante onde a sobrevivência depende, literalmente, de o inimigo não te ver, mesmo na escuridão total.

Imagem | Guerra e Militarismo, ONG Centro de Tecnologia de Rádio

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