O intestino tem uma "zona ideal", e se defecamos frequentemente fora dela, precisamos prestar atenção

  • Para alguns, é algo desagradável, mas prestar atenção às nossas evacuações é uma questão de saúde;

  • Um estudo explica com que frequência devemos evacuar e quando devemos começar a prestar atenção para verificar se há algo errado

O intestino tem uma "zona ideal", e se defecamos frequentemente fora dela, precisamos prestar atenção
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Fabrício Mainenti

Redator

O ato de evacuar serve como um indicador da saúde intestinal. Na verdade, na Austrália, incentiva-se que os funcionários façam suas necessidades no trabalho. É um momento que podemos aproveitar para ler ou navegar infinitamente pelo celular — ou até mesmo compartilhar a localização de onde estamos — mas é também algo que merece mais da nossa atenção.

O motivo é que o momento e a frequência das evacuações revelam muito sobre a nossa saúde a longo prazo.

Causa ou consequência?

Ao longo dos anos, vários estudos investigaram a importância da própria defecação, bem como o momento ideal para ir ao banheiro, a frequência e a forma, o tamanho e a textura das fezes. Pesquisas associaram a constipação a um risco aumentado de infecções, e a diarreia crônica a doenças neurodegenerativas.

No entanto, como essas observações foram feitas em indivíduos que já apresentavam alguma doença, era necessário determinar se o problema intestinal era causa ou consequência. Como a ciência não avança sozinha, uma equipe do Institute for Systems Biology (Instituto de Biologia de Sistemas) assumiu a tarefa de responder a essa pergunta.

O estudo

Nesta pesquisa, os cientistas Sean Gibbons e Johannes Johnson-Martinez analisaram variáveis ​​clínicas, genéticas e microbiológicas, além de fatores relacionados ao estilo de vida, em 1.400 adultos saudáveis. Os participantes precisavam informar a frequência de suas evacuações, que foi classificada da seguinte forma:

  • Uma ou duas vezes por semana – constipação;
  • De três a seis vezes por semana – frequência baixa;
  • De uma a três vezes por dia – frequência normal;
  • Mais de três vezes por dia – diarreia.

"Goldilocks Zone" (ou "Zona na Medida Certa")

Os pesquisadores descobriram que pessoas que seguiam uma dieta rica em fibras, praticavam exercícios regularmente e mantinham uma boa hidratação apresentavam uma função intestinal saudável. Com um toque de humor científico, eles batizaram isso de "Zona Goldilocks" — referindo-se a uma frequência de evacuação de uma a duas vezes por dia.

Esse é o ponto em que, segundo os pesquisadores, o equilíbrio entre o microbioma e os marcadores fisiológicos é ideal. Portanto, a frequência ideal é de uma ou duas vezes ao dia; no entanto, nem sempre é assim, e são os desequilíbrios que desencadeiam problemas internos.

Formato ideal das fezes: Tipos 3 e 4 Formato ideal das fezes: Tipos 3 e 4

É uma questão mais séria do que parece

Johnson-Martinez observa que, "se as fezes permanecerem no intestino por muito tempo, os micróbios esgotam toda a fibra alimentar disponível — a qual normalmente fermentam para produzir ácidos graxos de cadeia curta benéficos à saúde. Se isso ocorre, o ecossistema sofre uma alteração e passa a fermentar proteínas, gerando várias toxinas que podem entrar na corrente sanguínea".

Esses subprodutos da fermentação de proteínas que passam para a corrente sanguínea — como o p-cresol sulfato e o indoxil sulfato — chegam aos rins e estão associados a marcadores de comprometimento da função renal... ligados à constipação. Por outro lado, se ocorre diarreia, as fezes passam pelo intestino rápido demais, resultando em parâmetros clínicos associados a danos no fígado. Em suma: na constipação, os rins sofrem; na diarreia, é o fígado que sofre.

Um sinal de alerta

Gibbons observa que a constipação crônica — cujos efeitos acabamos de ver — tem sido associada a distúrbios neurodegenerativos e à progressão da doença renal crônica. O que resta determinar é se essa irregularidade no funcionamento intestinal serve como um sinal de alerta precoce para doenças crônicas ou danos a órgãos.

No entanto, o estudo também explora a relação entre a frequência de evacuações, a ansiedade e a depressão, conectando a saúde mental aos hábitos intestinais. Os pesquisadores apontam que foi estabelecido um vínculo entre a frequência de evacuações e vários sistemas do corpo, identificando-a como um possível fator de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas.

Eles esperam que a comunidade médica leve a sério os hábitos intestinais, a fim de "otimizar a saúde e o bem-estar — mesmo em populações saudáveis ​​— com base na frequência de evacuações". Vale ressaltar que, se não apresentamos problemas, não devemos segurar a vontade nem forçar a evacuação, pois isso altera artificialmente o tempo de permanência das fezes no intestino.

Observe suas fezes

Há um detalhe importante a considerar: ter uma frequência de evacuação diferente de uma ou duas vezes ao dia pode ser normal. O problema surge quando isso se torna crônico. É nesse momento que devemos nos perguntar o que está acontecendo. Pode haver um problema de saúde subjacente ou, talvez, nossa dieta simplesmente seja pobre em fibras provenientes de frutas e vegetais.

É lógico pensar que nossa dieta e nosso estilo de vida estão intrinsecamente ligados ao funcionamento do nosso intestino. Além disso, dar uma olhada nelas de vez em quando não é má ideia, pois serve como uma avaliação gratuita da saúde intestinal. Você pode até analisar suas fezes usando um aplicativo que faz a leitura por meio de inteligência artificial.

O horário importa

Embora encontrar o "ritmo ideal" seja relevante, estudos anteriores também exploraram a importância de quando evacuamos. Pesquisas realizadas em 2020 e 2022 associaram os ritmos circadianos à atividade gastrointestinal. A atividade intestinal diminui significativamente à noite, enquanto durante o dia — especialmente após acordar ou comer — a motilidade aumenta.

Um horário ideal é cerca de meia hora após acordar, pois o cólon retoma a atividade depois do descanso noturno; no entanto, evacuar mais tarde do que isso não significa necessariamente que algo esteja errado, já que existe certa flexibilidade nessa questão.

Imagens | Cabot Health, Bristol Stool ChartSincerely Media

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