O bunker foi criado para ser um abrigo temporário em cenários de guerra, fornecendo proteção contra possíveis ameaças, como ataques militares ou nucleares. Mas já imaginou passar mais de 1 ano preso em um lugar como esse? O sargento ucraniano Serhii Tyschenko passou 472 dias seguidos preso em um bunker subterrâneo, úmido e isolado durante a guerra entre Ucrânia e Rússia.
Médico de combate do Exército da Ucrânia, ele permaneceu sob fogo inimigo constante, sem luz solar e com contato mínimo com o mundo exterior. O caso foi revelado recentemente em entrevista ao jornal americano The New York Times, expondo uma problemática que persegue a Ucrânia desde o início do conflito: a escassez de soldados e das novas dinâmicas do conflito, cada vez mais moldadas pelo uso de drones no campo de batalha.
Soldado ucraniano passa 472 dias isolado em um bunker na linha de frente
Serhii Tyschenko foi enviado à linha de frente em julho de 2024, na região de Donetsk, na Ucrânia. Como em missões anteriores, ele acreditava que ficaria no posto por algumas semanas, por no máximo dois meses. No entanto, o que deveria ser mais uma missão de pouco tempo, se transformou em 472 dias de confinamento.
Serhii dormindo em uma área apertada do bunker. Crédito: Serhii Tyschenko
O bunker onde Tyschenko permaneceu tinha menos de um metro e meio de altura, passagens estreitas e uma área para descansar ainda mais baixo. Não havia colchões, apenas sacos de dormir impermeáveis, e a umidade constante foi um dos principais desafios físicos. Ao longo desse período, o confinamento prolongado comprometeu sua musculatura, enfraqueceu o corpo e causou sensibilidade à luz, resultado de meses sem contato com o sol e com movimentos extremamente limitados.
Serhii Tyschenko: saiba quem é o médico de combate que ficou confinado em bunker
Com a grande maioria dos soldados ucranianos, Serhii Tyschenko não vinha de uma carreira militar tradicional. Criado em um orfanato em Kiev, ele se formou como veterinário, teve cinco filhos e cuidava de uma casa cheia de animais. No entanto, aos 46 anos, em 2023, um ano após o início da invasão russa na Ucrânia, ele foi convocado pelo exército do país.
“Eu sabia que eles me levariam”, disse Serhii ao New York Times
No Exército, devido a sua experiência como veterinário, acabou tornando-se médico de combate, responsável por prestar os primeiros socorros a soldados feridos no front. Suas primeiras missões duraram cerca de 30 a 45 dias, um tempo dentro do esperado. Porém, o período no bunker foi completamente diferente. Sem soldados substitutos disponíveis para ocupar o seu lugar e com perdas na unidade após ataques inimigos, o soldado acabou passando 472 dias dentro do bunker até ser liberado pelas forças armadas.
Escassez de tropas prolonga missões e afeta a saúde mental dos soldados
Um dos grandes problemas que a Ucrânia enfrenta no conflito contra a Rússia são as longas rotações na linha de frente. A falta de soldados dificulta a substituição das tropas e, consequentemente, prolonga as missões, o que pode causar danos psicológicos aos militares. Isso porque as condições extremas enfrentadas provocam consequências físicas, mentais e operacionais, dificultando a resistência humana.
Ao The New York Times, Serhii disse não entender como conseguiu suportar o período no bunker. Segundo ele, o tempo parecia se arrastar e ele contava cada dia, apenas acompanhando o tempo por relógios e calendários nos celulares.
“Mesmo hoje, não sei como fui capaz de aguentar tudo isso”, declarou.
Drones transformaram o conflito entre Ucrânia e Rússia
Não dá pra negar que os drones estão sendo usados em larga escala no conflito entre Ucrânia e Rússia. Inclusive, um dos fatores decisivos para o confinamento prolongado de Serhii no bunker foi a presença constante de drones russos sobre a região. A partir de 2025, os ataques com esses dispositivos se intensificaram, tornando qualquer movimentação extremamente arriscada. Para evitar serem detectados, os soldados cobriram até uma pequena janela do bunker, o que fez com que eles passassem meses sem ver a luz do dia.
Com isso, o abastecimento de suprimentos precisou ser feito por drones ucranianos, que lançavam comida, água e baterias durante a noite. Para Serhii Tyschenko, descrito por seus superiores como um “verdadeiro patriota”, a experiência não deixou marcas de ressentimento em relação ao país, apesar dos 472 dias passados confinado no bunker. Apesar disso, ele questiona o sentido da guerra com drones e a forma como o conflito tem sido conduzido.
“Antes, entrávamos em combate e agíamos. Agora, tudo é dominado por drones. Qual o sentido de manter pessoas sentadas em um buraco?”, afirmou Serhii em entrevista ao The New York Times.
Após os 472 dias intermináveis, o soldado finalmente deixou o bunker. Pouco tempo depois, ainda em 2025, foi condecorado como Herói da Ucrânia, a maior honraria do país.
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