Humanos gostam de cerveja; a grande questão é se gostamos o suficiente para termos inventado a agricultura

Durante décadas, os cientistas têm se perguntado qual foi o papel da cerveja na Revolução Neolítica

Os humanos gostam de cerveja. A grande questão é se gostamos o suficiente para termos inventado a agricultura.
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Fabrício Mainenti

Redator

A grande questão não é se veio primeiro o ovo ou a galinha, mas sim o que nossos ancestrais começaram a produzir primeiro: pão ou cerveja? Há cerca de 12 mil anos, os humanos no Oriente Próximo deram início a um dos capítulos mais importantes da nossa história: a Revolução Neolítica. De caçadores-coletores nômades, nos tornamos criaturas sedentárias cultivando a terra. A mudança foi tão significativa que os antropólogos há muito se perguntam o que a motivou. Seria razoável pensar que foi a busca por algo tão simples quanto o pão, mas alguns acreditam que a resposta é outra: cerveja.

E se o grande catalisador que nos levou a arar e colher nos campos não foi a busca por pão, mas sim nossa antiga paixão por uma bebida?

Grãos, para que nos servem?

Os cientistas passaram as últimas décadas desvendando os mistérios do nosso passado remoto, mas há uma questão (fundamental) que ainda não foi resolvida: o que, afinal, levou a humanidade a abandonar a caça e a coleta por um estilo de vida sedentário baseado na agricultura e na pecuária? Qual foi o catalisador da Revolução Neolítica, um dos períodos mais cruciais de toda a história?

Como os humanos precisam se alimentar desde o início dos tempos, a resposta parece simples: se aqueles homens e mulheres se estabeleceram para plantar trigo e cevada, deve ter sido para fazer pão, certo? Em outras palavras, eles começaram a passar incontáveis ​​horas cuidando de seus campos para obter grãos para se alimentar. No entanto, na década de 1950, uma questão começou a surgir no debate antropológico: e se o que eles realmente buscavam nos grãos não fosse pão ou mingau, mas cerveja?

Os humanos gostam de cerveja. A grande questão é se gostamos o suficiente para termos inventado a agricultura.

Mas... por quê?

O debate não é novo. Ele está em pauta há algum tempo e se intensifica de tempos em tempos com novas descobertas, como a anunciada em 2018 por um grupo de pesquisadores de Stanford que encontrou "o registro mais antigo de álcool", evidências que apontam para a produção de cerveja há 13 mil anos.

O mais recente a levantar a discussão foi Michael Marshall, jornalista científico e colunista da New Scientist. Em dezembro, ele publicou um extenso artigo revisando as últimas descobertas sobre o assunto e (o mais importante) destacando a dificuldade que os antropólogos enfrentam para chegar a uma conclusão.

As virtudes da cerveja

Para entender a discussão, precisamos primeiro esclarecer um ponto fundamental: nem o pão nem a cerveja da Idade da Pedra eram como o pão e a cerveja que conhecemos hoje. Na verdade, esta última tem pouco ou nada a ver com o líquido âmbar refrescante que nos é servido nos bares. Era mais como um purê, um "mingau doce e levemente fermentado", explica a professora Jiajing Wang, do Dartmouth College, em New Hampshire. "Eles germinavam os grãos, cozinhavam-nos e depois usavam leveduras selvagens."

O resultado era uma bebida nutritiva, rica em calorias e proteínas, que poderia ser até mais segura do que beber água de rios e poços. Afinal, era um produto da fermentação. Além disso, continha álcool, um "lubrificante social" que ainda usamos no século XXI para relaxar e socializar. A arqueóloga Brin Hayden, por exemplo, destaca seu uso em eventos que ajudavam a estruturar as comunidades. Pesquisas sugerem que (pelo menos algumas comunidades) a utilizavam em rituais e para venerar os mortos.

Muito mais do que meras suspeitas

Se o debate persiste desde a década de 1950, é principalmente porque foi alimentado por descobertas arqueológicas. Pesquisadores encontraram evidências de produção de cerveja há pelo menos 5 mil anos no sul do Egito e no norte da China, e da cultura Shangshan produzindo cerveja de arroz há 10 mil anos.

Uma das descobertas mais significativas dos últimos anos, no entanto, foi feita em uma caverna em Israel, em 2018, por uma equipe liderada pela professora Li Liu, da Universidade Stanford. Lá, eles encontraram evidências de produção de cerveja que antecedem o cultivo dos primeiros grãos no Oriente Próximo. A descoberta está ligada ao povo Natufiano, um grupo dedicado à coleta e à caça, embora também tendessem a permanecer em um mesmo local por longos períodos.

"A mais antiga"

Após analisar resíduos encontrados em almofarizes de 13 mil anos localizados na Caverna Raqefet, um cemitério Natufiano perto de Haifa, Liu e seus colegas descobriram vestígios de cerveja. Uma descoberta histórica, como ela mesma enfatiza: "É o registro mais antigo de álcool produzido por humanos. (...) Essa descoberta indica que a produção de álcool não era necessariamente resultado do excedente da produção agrícola, mas sim desenvolvida para fins rituais e espirituais, pelo menos em certa medida, antes da agricultura".

A questão está encerrada?

De forma alguma. Para entender a complexidade da questão, é útil revisar a descoberta anunciada em 2018. Pelo menos naquela época, os restos de pão mais antigos conhecidos, extraídos de um sítio natufiano no leste da Jordânia, tinham entre 11.600 e 14.600 anos. Os restos de cerveja descobertos pela equipe de Liu se enquadram em uma faixa etária semelhante: podem ser datados entre 11.700 e 13.700 anos atrás.

Uma das chaves para o problema, explica Marshall em seu artigo, é que, fundamentalmente, a produção de pão e a produção de cerveja deixam vestígios muito semelhantes, basicamente resíduos de amido.

"Ainda não temos evidências conclusivas para responder a essa pergunta", reconhece Liu em relação à questão de se viemos primeiro com a cerveja ou com o pão. A realidade é mais complexa: nem sequer sabemos se alguns desses alimentos foram o grande catalisador que levou nossos ancestrais a mudar seus estilos de vida. "Não me surpreenderia se ambas as motivações tivessem contribuído."

Em última análise, o debate "cerveja primeiro, pão primeiro" não se trata tanto de chegar a conclusões definitivas, mas sim de reafirmar a importância de ambos os alimentos. Tanto cerveja e pão, quanto pão e cerveja, desempenharam um papel decisivo nas dietas e nos rituais.

Imagens | Gary Todd (Flickr)Enhin Akyurt (Unsplash) e Gerrie van der Walt (Unsplash)

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