A Organização Mundial da Saúde estima que entre 250 mil e 500 mil pessoas sofram lesões na medula espinhal todos os anos no mundo. Isso significa que, diariamente, centenas de pessoas perdem parcial ou totalmente os movimentos do corpo e passam a conviver com sequelas permanentes. É por isso que uma pesquisa brasileira desenvolvida ao longo de mais de vinte anos na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) tem sido o centro das atenções: ela sugere que pode ser possível recuperar parte dessas funções.
O estudo investiga o uso de uma substância chamada polilaminina, uma rede de proteínas criada em laboratório que poderia ajudar a reconstruir conexões nervosas rompidas após lesões medulares. A repercussão cresceu depois que pacientes que participaram das primeiras aplicações começaram a relatar melhorias significativas, entre eles Bruno Drummond, que sofreu uma lesão medular após um acidente e voltou a andar após receber o tratamento experimental.
Mas, ao mesmo tempo em que a pesquisa traz de volta a esperança de milhares de pacientes, ela também levanta questionamentos na comunidade científica. Especialistas alertam que os resultados ainda são preliminares, que o estudo não percorreu todas as etapas do método científico e que ainda existem dúvidas importantes sobre segurança, eficácia e metodologia. Por isso, enquanto os ensaios clínicos não tiverem passado por todas as fases, não é possível considerar o estudo seguro.
O “colar de pérolas” da ciência brasileira que pode reconectar a medula
Tatiana Sampaio, pesquisadora da UFRJ e responsável pelo desenvolvimento da polilaminina, substância experimental estudada para o tratamento de lesões na medula espinhal.
Mas afinal, o que é exatamente a polilaminina e por que ela tem despertado tanto interesse? A polilaminina é uma proteína derivada da laminina, uma molécula que já existe naturalmente no organismo e faz parte da matriz extracelular, uma estrutura que sustenta as células nos tecidos. Em pesquisas laboratoriais, essa proteína costuma ser isolada da placenta humana, onde aparece em grande quantidade, e utilizada para estudar o comportamento de células e neurônios.
A pesquisadora Tatiana Sampaio, da UFRJ, compara a descoberta a um colar de pérolas. Isso porque, segundo ela, os fragmentos da laminina se organizaram espontaneamente em um formato semelhante a de um colar. Essa nova configuração passou a ser chamada de polilaminina.
A ideia é que essa rede de proteínas funcione como um “andaime biológico”, capaz de orientar o crescimento de novos prolongamentos nervosos, conhecidos como axônios, que são responsáveis por transmitir sinais entre o cérebro e o corpo. Quando ocorre uma lesão medular, essas conexões são interrompidas. Em muitos casos, a cicatrização cria uma barreira física que impede a regeneração dos neurônios.
A polilaminina foi desenvolvida justamente para ajudar a reconectar essas vias nervosas antes que a cicatriz se forme completamente. Por isso, o tratamento precisa acontecer rapidamente. Nos estudos realizados até agora, a substância foi aplicada durante a cirurgia de descompressão da coluna, preferencialmente até 72 horas após o trauma.
Os resultados iniciais surpreenderam os pesquisadores. Em um estudo acadêmico com oito pacientes com lesão medular completa, seis apresentaram algum grau de melhora motora, e um deles até voltou a andar. Segundo a própria pesquisadora, isso representaria uma taxa de recuperação muito maior do que a observada normalmente nesses casos, que costuma ter apenas cerca de 10% dos pacientes com lesão completa recuperam alguma função motora, enquanto o estudo registrou cerca de 75% de melhora entre os pacientes acompanhados.
Apesar dos resultados promissores e da euforia em cima da pesquisa, esses dados ainda pertencem a um estudo piloto e foram divulgados apenas em pré-print, uma versão preliminar de um artigo científico que ainda não passou pela revisão de outros pesquisadores.
O que dizem os testes clínicos — e por que eles levam anos
Para que uma descoberta científica seja considerada segura para os pacientes, ela precisa passar por um processo rigoroso de testes clínicos. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), esse processo é essencial para garantir que novos tratamentos sejam seguros e eficazes para os pacientes.
“A pesquisa clínica é uma investigação científica realizada com seres humanos para avaliar os parâmetros de segurança e eficácia de novos medicamentos”, informou a Anvisa ao Xataka.
No caso da polilaminina, a Anvisa autorizou em 2026 o início de um estudo clínico oficial de Fase 1. Segundo a agência, esse primeiro estágio tem um objetivo bastante específico:
- Fase 1 - se avalia a segurança;
- Fase 2 - se avalia a eficácia e a segurança;
- Fase 3 - maior número de participantes e estudos confirmatórios;
- Fase 4 - acompanhamento do medicamento na vida real.
O estudo autorizado será realizado com cinco pacientes, todos com lesões medulares torácicas completas ocorridas há menos de 72 horas. De acordo com a Anvisa, neste momento o objetivo não é provar que o tratamento funciona, mas verificar se ele é seguro para uso em seres humanos.
“O estudo clínico autorizado é a primeira das fases necessárias para subsidiar um futuro registro do medicamento. O foco inicial é avaliar o perfil de segurança do medicamento experimental Polilaminina”.
Somente após a análise desses dados é que um eventual avanço para as fases seguintes pode ser autorizado.
“A depender dos resultados dessa primeira fase, o desenvolvimento clínico poderá avançar para as fases posteriores, após a avaliação rigorosa dos dados coletados nessa primeira fase e do protocolo clínico da próxima fase (fase 2), pela Anvisa.”
Isso significa que, mesmo que os primeiros resultados tenham sido positivos, ainda são necessários estudos maiores e mais controlados antes que o tratamento possa ser considerado comprovadamente eficaz para os humanos. Inclusive, esse é o ponto mais controverso do estudo: como saber se o tratamento realmente funciona?
É justamente aqui que começa o embate científico mais intenso. O estudo inicial da polilaminina foi conduzido como um ensaio de braço único, ou seja, todos os pacientes receberam o tratamento. Não houve um grupo controle, formado por pacientes que receberiam apenas o tratamento padrão para comparação.
Em estudos clínicos tradicionais, esse tipo de comparação é fundamental. Ela permite verificar se a melhora observada foi realmente causada pela nova substância ou se poderia ter ocorrido mesmo sem ela. No caso da lesão medular, isso é especialmente relevante porque os pacientes também passaram por cirurgia precoce de descompressão e cerca de 200 horas de fisioterapia intensiva, tratamentos que podem gerar algum grau de recuperação. Por isso, alguns especialistas afirmam que ainda não é possível afirmar que a polilaminina foi responsável pelos resultados.
Outro ponto que tem gerado debate é a forma como o estudo foi divulgado ao público antes de passar pela revisão científica tradicional. Para muitos pesquisadores, a exposição precoce pode gerar expectativas irreais, pressão pública e até judicialização do acesso ao tratamento. Desde que a pesquisa ganhou destaque na mídia, vários pacientes passaram a buscar a substância na Justiça. Em vários casos, o acesso ocorre por meio do chamado uso compassivo, quando um medicamento experimental é disponibilizado para pacientes graves sem alternativas terapêuticas. Segundo a Anvisa, esse mecanismo permite que pacientes em estado grave recebam terapias experimentais fora de estudos clínicos, mas não substitui a pesquisa científica.
“Somente os ensaios clínicos controlados são adequados para demonstrar a segurança e eficácia de um produto”
Erros no artigo e revisões: a própria autora reconhece falhas
A polêmica envolvendo a pesquisa da polilaminina ganhou um novo capítulo recentemente quando a própria Tatiana Sampaio reconheceu que o artigo científico divulgado em pré-print contém erros de apresentação e inconsistências que precisam ser corrigidas. Entre os problemas identificados está um gráfico que mostrava a evolução de um paciente por mais de 400 dias, apesar de o próprio texto indicar que ele havia morrido poucos dias após o procedimento. Segundo a pesquisadora, tratava-se de um erro de identificação de dados.
Ela também afirmou que algumas figuras estavam “mal programadas” e que o artigo passará por uma revisão mais cuidadosa antes de ser submetido novamente a revistas científicas. A pesquisadora explicou que pretende melhorar a forma como os dados são apresentados, mas sustenta que as mudanças não alteram as conclusões do trabalho.
Ainda assim, o acontecimento reforçou o que a comunidade científica alegava, que o estudo tem necessidade de análises mais criteriosas antes de qualquer conclusão definitiva.
A descoberta brasileira que pode mudar o tratamento da paralisia enfrenta agora seu maior teste: o método científico
Desenvolvida ao longo de mais de vinte anos de pesquisa na Universidade Federal do Rio de Janeiro, a polilaminina é investigada como uma possível nova abordagem para o tratamento de lesões medulares. Ao mesmo tempo, ela também é um exemplo perfeito de como funciona o processo científico. Mesmo grandes descobertas precisam passar por um caminho longo de validação antes de serem consideradas seguras
Hoje, a polilaminina está justamente nesse ponto: entre a promessa e esperança para milhares de pacientes versus a comprovação científica de eficácia e segurança. Se os próximos ensaios clínicos confirmarem os resultados iniciais, a polilaminina pode se tornar uma grande conquista para a ciência brasileira e criar novas possibilidades de tratamento de lesões medulares.
Ver 0 Comentários