A startup francesa Mistral AI lançou o Mistral 3, uma família de 10 modelos de inteligência artificial de código aberto que representa sua aposta mais ambiciosa até o momento. A empresa parisiense, frequentemente vista como a principal esperança da Europa para o desenvolvimento de IA, busca se diferenciar das grandes empresas de tecnologia americanas apostando na flexibilidade e na implementação em todos os tipos de dispositivos, em vez de potência bruta.
A família Mistral 3 inclui um modelo principal chamado Mistral Large 3, com 675 bilhões de parâmetros, e nove modelos compactos agrupados sob o nome Mistral 3 (em três tamanhos: 14 mil, 8 mil e 3 bilhões de parâmetros). Todos os modelos são distribuídos sob a licença Apache 2.0, permitindo o uso comercial sem restrições. O modelo Large também possui capacidade multimodal, sendo capaz de processar texto e imagens. Além disso, é multilíngue, com ênfase especial em idiomas europeus.
Por outro lado, os modelos Small podem ser executados em dispositivos com apenas 4 GB de memória, tornando-os perfeitos para laptops modestos, celulares e sistemas embarcados, sem a necessidade de conexão com a internet.
Por que a estratégia é importante?
Enquanto OpenAI, Google e Anthropic se concentram em sistemas fechados e cada vez mais poderosos com recursos de agentes, a Mistral tem se concentrado na amplitude e no escopo de seus modelos, na eficiência e no que o cofundador Guillaume Lample chama de "inteligência distribuída". Como ele disse ao VentureBeat, a empresa acredita que o futuro da IA não é definido pela escala, mas pela ubiquidade: modelos pequenos o suficiente para funcionar em drones, veículos, robôs e dispositivos de consumo.
Lample explicou que, em mais de 90% dos casos, um modelo pequeno e especificamente ajustado pode realizar a tarefa, principalmente se for treinado com dados sintéticos para tarefas específicas. Segundo ele, isso não só é mais barato e rápido, como também elimina preocupações com privacidade, latência e confiabilidade.
A empresa também possui equipes que trabalham diretamente com os clientes para analisar problemas específicos e ajustar pequenos modelos que eles desenvolvem para tarefas específicas. Isso pode atrair especialmente empresas que se frustram ao optar pelo melhor modelo possível para uma tarefa específica e, se ele não atender às suas necessidades, acabam desistindo.
Europa está ficando para trás
Quando falamos de inovação e tecnologia em IA, não hesitamos em dizer que a Europa está muito distante do que as empresas dos Estados Unidos e da China oferecem. É por isso que a Mistral AI defende uma abordagem diferente, priorizando a implantação em massa em dispositivos e a flexibilidade de seus modelos menores.
A capacidade oferecida pelos modelos abertos pode ser um grande trunfo para continuar apostando nessas tecnologias. Na China, por exemplo, os modelos abertos da DeepSeek, Alibaba e Kimi se destacam amplamente, superando até mesmo concorrentes de grande porte como o ChatGPT em determinadas tarefas. Lample explicou que a maioria dos principais modelos chineses são exclusivamente textuais, com sistemas de processamento de imagem separados. Por esse motivo, eles também querem apostar em uma abordagem multimodal.
Ecossistema completo
A Mistral não oferece mais apenas modelos de linguagem. A empresa construiu um ecossistema completo que inclui a API Mistral Agents, com conectores para execução de código, busca na web e geração de imagens; o Magistral, seu modelo de raciocínio; o Mistral Code para assistência de programação; e o AI Studio, uma plataforma de implantação de aplicativos que também possui recursos analíticos e de registro de logs.
Além disso, seu assistente Le Chat incorporou um modo de investigação profunda, recursos de voz e uma lista com mais de 20 integrações corporativas. Assim, além de oferecer modelos prontos, a empresa pode fornecer a outras empresas uma gama completa de produtos e serviços personalizados, com o objetivo de se tornar sua principal fonte de financiamento.
Soberania digital
Embora a Mistral seja frequentemente caracterizada como a resposta europeia à OpenAI, a empresa prefere considerá-la uma "colaboração transatlântica". Seu diretor executivo está nos Estados Unidos, há equipes em ambos os continentes e o treinamento desses modelos é feito em colaboração com equipes e infraestrutura americanas. No entanto, seu posicionamento como defensor da soberania digital europeia lhe rendeu parcerias estratégicas com o exército francês, a agência de emprego do país, o governo de Luxemburgo e diversas organizações públicas europeias.
A Comissão Europeia apresentou em outubro uma estratégia para promover ferramentas europeias de IA que proporcionem segurança e resiliência, ao mesmo tempo que impulsionam a competitividade industrial do continente.
Capacidades offline para a democratização
Os casos de uso que a Mistral projetou para seus modelos de pequeno porte incluem aplicações locais, como robôs de fábrica que usam dados de sensores em tempo real e sem depender da nuvem, drones em desastres naturais ou resgates que operam offline e carros inteligentes com assistentes de IA funcionais em áreas remotas.
Lample destacou que existem bilhões de pessoas sem acesso à internet, mas com laptops ou celulares capazes de executar esses pequenos modelos, que ele considera potencialmente revolucionários. Além disso, ao funcionarem no próprio dispositivo, esses aplicativos preservam a privacidade dos dados dos usuários.
Debate sobre o verdadeiro "código aberto"
Nem todos elogiam a abordagem da Mistral. Alguns críticos questionam a decisão de optar por modelos de "peso aberto", ou seja, de acesso gratuito, mas que fornecem menos informações sobre seu código do que modelos verdadeiramente "de código aberto", que disponibilizam o código e os dados de treinamento necessários para treinar um modelo do zero.
Andreas Liesenfeld, professor assistente da Universidade Radboud e cofundador do Índice Europeu de IA de Código Aberto, disse ao Financial Times que dados em escala são a chave que falta no ecossistema europeu de inovação em IA e que a Mistral não contribui em nada para isso.
Lample reconhece que seus modelos estão "um pouco atrás" dos sistemas fechados mais avançados, mas argumenta que o importante é que "estão alcançando-os rapidamente". O tempo dirá se a abordagem da Mistral, com modelos versáteis e de baixo custo para aplicações locais, será suficiente para consolidá-la como uma das grandes apostas europeias em IA.
Imagem | Mistral AI
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