EUA enviam dezenas de caças A-10 ao Irã, indicando que a guerra entrará numa fase de ataques a distâncias mais curtas

Uso da aeronave só faz sentido contra alvos dispersos, dinâmicos e próximos, como grupos de combatentes

Caça A-10
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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O canhão de 30 mm de um caça A-10 pode disparar quase 4.000 projéteis por minuto. Seu som é tão característico que os soldados o identificam antes mesmo de ver o avião se aproximando. De fato, durante décadas, ele foi um dos símbolos mais reconhecíveis do apoio aéreo em combate, embora sua aposentadoria já estivesse decidida.

Mas a guerra no Irã ressuscitou a aeronave: neste momento, há dezenas de A-10 rumo ao Oriente Médio e, para os analistas militares, isso só pode significar uma coisa: que os EUA retiraram seu avião mais “bruto” da aposentadoria — e isso aponta diretamente para uma mudança na natureza da guerra.

Como assim “mudança na natureza”? O que acontece é que o A-10 (apelidado de “Warthog”) não é um avião pensado para campanhas “limpas” a grandes altitudes e nem para guerras tecnológicas à distância, mas sim para voar baixo, de forma “suja”, e disparar a poucos metros do inimigo, apoiando tropas em contato direto.

Esse deslocamento em massa, ainda mais no fim de sua vida operacional, sugere que Washington já não está pensando apenas em degradar capacidades iranianas a partir do ar, mas também em cenários em que haverá soldados em terra precisando de cobertura próxima, constante e brutal.

As distâncias na guerra

Horas depois de o deslocamento se tornar público, viralizaram imagens de caças A-10 realizando passagens de metralhamento incomumente longas (de mais de 9 segundos), indicando que não se trata de um caso isolado, mas de mudanças no campo de batalha. Ao que tudo indica, eram ataques aéreos contra alvos no Iraque, principalmente para proteger interesses estadunidenses no país diante da ameaça de milícias alinhadas com o Irã e outros grupos na região.

Esse tipo de uso (disparos prolongados, menos precisos e pouco habituais) só faz sentido contra alvos dispersos, dinâmicos e próximos, como grupos de combatentes — não infraestruturas. Ou seja, cenários em que o avião atua quase como uma artilharia aérea em apoio direto às tropas, reforçando a ideia de que o conflito está evoluindo para confrontos mais caóticos, mais próximos e menos controlados.

Cacas

Ao mesmo tempo em que esses aviões chegam, os EUA continuam acumulando tropas, forças especiais e capacidades logísticas na região, preparando operações que já não seriam apenas aéreas, mas também incursões em terra.

As opções consideradas (desde assaltos a instalações costeiras até a tomada de enclaves estratégicos como a ilha de Kharg ou missões para capturar material nuclear) se encaixam perfeitamente no tipo de apoio que o A-10 oferece: cobertura próxima, persistente e projetada para proteger soldados em situações de alto risco. O avião surge, assim, como a peça que faltava para completar um cenário de guerra híbrida que combina ataques aéreos com operações terrestres limitadas, porém intensas.

A contradição estratégica

Tudo isso acontece em paralelo a um discurso político vindo de Washington cada vez mais contraditório: por um lado, o governo fala em encerrar a guerra em semanas, por outro, prepara deslocamentos que apontam justamente na direção oposta.

A possibilidade de encerrar o conflito sem reabrir o Estreito de Ormuz revela que os EUA querem limitar seu envolvimento, mas o acúmulo de meios (tropas, drones, guerra eletrônica e agora A-10) indica que o país está se preparando para uma escalada caso as negociações fracassem. Em outras palavras, trata-se de uma estratégia que tenta manter todas as opções em aberto, mas que, na prática, aumenta o risco de uma guerra mais profunda e prolongada.

Todos os indícios parecem convergir na mesma direção: o conflito está entrando em uma fase em que a distância deixa de ser suficiente e o contato direto tende a se tornar inevitável. O A-10, com sua capacidade de operar em baixa altitude e atacar alvos próximos por longos períodos, simboliza essa virada rumo a uma guerra mais crua, mais física e mais perigosa.

De todo modo, isso não garante sucesso para os EUA (na verdade, sua presença sugere o quão difícil será o que vem pela frente para suas tropas), mas confirma que Washington está se preparando para um cenário em que não bastarão mísseis e bombardeios — será necessário sustentar o terreno sob fogo constante com esses milhares de soldados que vêm sendo enviados ao Oriente Médio.

Imagem | U.S. AIR, United States Air Force

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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